sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A Primavera: rumos e nortes para um futuro de desenvolvimento social, cultural e econômico na agricultura familiar


Reunião com a Associação
Primavera é um pássaro que está em extinção em nossa região – mas que já foi muito comum no Baixo Parnaíba; mede cerca de 20 centímetros de cumprimento. Com 34,4 gramas de peso médio, o corpo longilíneo, o pássaro apresenta uma coloração que vai do amarelo ao castanho forte, seu canto quase sempre imita outros pássaros. Mas o artigo não se diz respeito à primavera (pássaro) e, sim uma área de terra com o mesmo nome, que mede 1.749 hectares; deste total foi separado 20% para a reserva ecológica que não pode ser tocada (APP). A terra fértil das matas do P.A Primavera supre as necessidades agrícolas de mais de 43 famílias camponesas que utilizam técnicas tradicionais como maneira de manutenção socioeconômica e reprodução cultural. Os assentados estão convictos com os benefícios, não apenas por suas habitações que serão solicitadas ao INCRA - via “Projeto Minha Casa Minha Vida Rural” (MCMVR), mas também porque são segurados especiais da Reforma Agrária. A Fazenda Primavera foi desapropriada da Família Bacelar em fins de 2008 e seus moradores cadastrados em 2010-(RB). Vizinha de outros assentamentos do INCRA como Mangabeira, Canzilo, Estiva e Mangueira – vem passando pelos mesmos processos e tramites burocráticos de um (P.A), só que agora de forma mais sistematizada por causa dos sistemas tecnológicos aplicados no procedimento.
Casa da Associação
Localizada no município de Urbano Santos, há 40km da sede da cidade. 42 beneficiários estão na lista que será enviada e protocolada no setor de cartografia do INCRA com o objetivo de concretização da construção das casas através da Caixa Econômica Federal. Os agricultores desenvolvem um sistema de agricultura familiar na produção de farinha – principal fonte de renda da comunidade; pretendem produzir com qualidade e assistência técnica no futuro, sem agressão ao meio ambiente, é claro. A reserva ecológica compõe uma região de matas virgens com madeiras de lei, cabeceiras de rios e riachos onde concentrava-se uma grande diversidade de pássaros e outros animais silvestres em perigo de extinção. Ultimamente a Primavera tem apresentado alguns problemas de crimes ambientais, causados por pessoas de outros povoados, onde foi obrigado a intervenção da “Ouvidoria” do INCRA junto com o Batalhão de Polícia Ambiental do Maranhão para punição de infratores e, também a fim de conscientizar a população para não mais cometer tais delitos ambientais.
José Antonio Basto e um dos moradores antigos da Primavera
A atual direção da “Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Assentamento Gleba Primavera” tem tido uma boa atuação a respeito do andamento do processo da terra. Valendo lembrar a militância e interesse de coletividade do companheiro Kleiton Mendes – presidente da entidade, que sempre preocupado com os sócios tem procurado a orientação do “Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores (as) Familiares de Urbano Santos”. Muitas foram as reuniões e formações de base realizadas pelo Sindicato no acompanhamento dos trabalhos da Associação de fortalecer mais e mais essa luta. O espaço onde será construído as casas dos assentados passou um bom tempo desabitado, mas agora foi ocupado com pequenas plantações de mandioca, milho e arroz, além de ali está estabelecido a sede da Associação. A Primavera tem crescido bastante ultimamente em sua batalha por direito agrário, acreditando então, que ajudam na ideia de compor uma

Cartografia da área da Primavera - (CAR).
história de peleja pela posse e ocupação da terra, principalmente num momento tão pouco cauteloso e polemico em que se encontra as políticas públicas no Brasil. De uma situação fundiária nacional rudimentar e sem perspectivas para os homens e mulheres do campo –, se viu cortes extremos dos recursos financeiros da Reforma Agrária e das políticas de agricultura familiar. Sem ironia, achamos que ainda é válido e tempo de acreditar em novos sonhos. Primavera! Siga sua estrada e conte conosco.

José Antonio Basto
Assessor de Formação Agrária – STTR de Urbano Santos-MA


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Audiência Publica no Povoado Juçaral: discussão e apresentação de uma Norma Conjunta para preservação do território de oito comunidades tradicionais – Urbano Santos, Baixo Parnaíba

Fruto da terra das chapadas
A Audiência Popular foi organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultores Familiares de Urbano Santos, em nome das entidades de defesa dos direitos sociais dos camponeses e camponesas: ASSOCIAÇÃO UNIÃO DE MORADORES DO POVOADO JUSSARAL” – CNPJ. Nº 69.591.345/0001-63, “ASSOCIAÇÃO DOS PEQUENOS AGRICULTORES RURAIS DO PROJETO DE ASSENTAMENTO SANTA ROSA BACABAL” – CNPJ. Nº 16.480.492/0001-08, “ASSOCIAÇÃO UNIÃO DOS MORADORES DO POVOADO TODOS OS SANTOS” – CNPJ. Nº 02.862./959/0001-61, “ASSOCIAÇÃO DAS MULHERES DO POVOADO CAJAZEIRAS” – CNPJ. Nº 09.445.226/0001-70, “ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES RURAIS DO POVOADO BEBEDOURO” – CNPJ. Nº 05.374.547/0001-70, “ASSOCIAÇÃO SÃO MARÇAL DOS PEQUENOS AGRICULTORES RURAIS DO POVOADO MARÇAL” – CNPJ. Nº 26.203.863/0001-50, “ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO POVOADO SURRÃO” e “ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES DO POVOADO PEDRA GRANDE”.
José Antonio Basto - Apres. da Norma Conjunta
O objetivo foi elaborar um documento coletivo - “Norma Conjunta” em nome destas comunidades citadas, para preservação e uso sustentável do bacuri, pequi, dos recursos vegetais e animais, toda uma biodiversidade que compõe o rico bioma das chapadas desta região. O evento contou com a participação de autoridades, representes do poder público, legislativo, Ministério Público, Igreja, diretoria do STTR, militantes dos movimentos sociais e uma grande massa de trabalhadores rurais que deram suas contribuições a respeito do tema. A discussão partiu da ideia de elaboração de um documento oficial no que diz respeito à proteção do território (Norma Conjunta das Associações), regido de modo especial e acentuando os Artigos 1, 2, 3 e 4. Que seguem na íntegra:
Participantes da Audiência Pública
“Art. 1º A presente norma tem por objetivo geral a preservação da mata nativa do território que abrange estes Povoados citados, de modo a preservar seus recursos mineiras, vegetais e animais.
Art. 2º Em especial para a proteção e preservação do bacuri, do pequi, do murici, da araçá, do cajuí, do araticum, da mangaba, puçá e plantas medicinais, como janaguba, gonçalave, alecrim, mangaba brava e demais espécimes nativas;
Art. 3º Além disso, tem por objetivo também, evitar a derrubada do fruto do bacuri, bem como do bacurizeiro, e outros frutos nativos da chapada, a fim garantir seu uso sustentável e coletivo;
Art. 4º Objetiva, ainda, evitar desmatamentos e queimadas em áreas de preservação permanente, na chapada, nas matas ciliares, Áreas de Preservação Permanente – APP (conforme Código Florestal) e de Reserva Legal dos povoados acima descritos”.  
Participação do STTR e outras entidades
O texto possui 17 Artigos, além dos parágrafos únicos. Subdividem-se: DA PRESERVAÇÃO DO BACURI, DO PEQUI E OUTROS RECURSOS AMBIENTAIS (MINERAIS, VEGETAIS E ANIMAIS); “DAS CONDUTAS PROIBIDAS E PENALIDADES”, “DA FISCALIZAÇÃO”; “DISPOSIÇÕES GERAIS” e outros anexos como o “Termo de Notificações”, “Termo de Comprometimento” e “Termo de Denúncia”. A audiência durou quatro horas e no final saiu como encaminhamento fundamental uma formação e planejamento com o “Conselho de Fiscalização” que será composto por duas pessoas de cada associação, o Conselho receberá uma formação e orientações de como poderão atuar a partir do Parecer do Ministério Público.
José Antonio Basto e os anfitriões da casa: D. Maria e Sr. José
Um território de chapadas, brejos e babaçuais rico em frutos nativos como, bacuri, pequi, mangaba, murici, pitomba de leite, puçá, araticum, pati, ingá, tucum, tuturubá, araçá, cajá, buriti, buritirana, pitomba, anajá, babaçu; em madeiras de lei como pau dárco, aroeira, amargoso, mama cachorro, piquiá, folha larga, camaçari, bacuri bravo, cedro e jatobá; farto ainda em plantas medicinais, como janaguba, alecrim, aroeira, jatobá, gonçalave e barbatimão que será protegido por uma lei autônoma – e de atuação nos meios jurídicos e reconhecimento civil.
Banda de animação
O assunto se alargou para outros temas ligados a reforma agrária e conflitos socioambientais na região do Baixo Parnaíba maranhense como a resistência das comunidades tradicionais contra o agronegócio do eucalipto e a violência no campo; uma vez que os moradores de Juçaral estão passando por um conflito direto com a Empresa Suzano em disputa de uma área de terra dentro do povoado, pois vale lembrar que os antecedentes históricos de luta pela terra em Juçaral é registrado desde os anos 90, quando as CEBs e agentes em defesa da Reforma Agrária daquela região derrubaram os fornos da então Empresa Maflora – que na época extraia madeira das chapadas para a fabricação de carvão vegetal.
Parecer do Ministério Público
Um dos principais objetivos do evento é conscientizar a população e levar essas audiências públicas para outros territórios de Urbano Santos e outros municípios – assim fortalecendo a luta e atuação da auto-militância das comunidades tradicionais em defesa de seus espaços de produção agrícola, extrativismo, caça, pesca e reprodução social e cultural. Independentemente de poderes públicos e da burocracia “politica do estado”. De tanto esperar, as comunidades agora resolvem criar suas próprias leis, sendo elas mesmas as protetoras e fiscalizadoras de seus territórios livres.
José Antonio Basto
bastosandero65@gmail.com


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O bacuri chegou!

Bacuri de São Raimundo
A temporada começa agora nesses meses de janeiro a março – as comunidades se alegram com mais uma renda para as famílias camponesas. Os frutos despencam dos galhos e se esparram sobre o chão limpo da chapada. Os extrativistas saem cedo com seus cofos para a colheita do fruto especial da Região do Baixo Parnaíba maranhense. Rica em vitaminas, o bacuri é nativo da floresta tropical amazônica, pouco maior que uma laranja, com pele mais espessa de uma cor amarelo-limão pertence à família (Guttiferae), oferece muitos benefícios para a saúde, usado também em cremes, geleias, doces, bolos, purê e licores.
O bacurizeiro, conhecido cientificamente como (Platonia insignis) pode atingir mais de 40 metros de altura, com tronco de até 2 metros de diâmetro nas árvores mais desenvolvidas. Sua madeira considerada nobre também tem variadas aplicações, mas é proibida a derrubada de sua árvore. É encontrada naturalmente desde o Piauí seguindo a costa do Pará até o Maranhão.
Audiência Pública em São Raimundo - 2015
A polpa possui alguns nutrientes em ​​quantidades notáveis de
fósforo, potássio, ferro, cálcio e vitamina C; a casca também é aproveitada na culinária regional e o óleo extraído de suas sementes é usado como anti-inflamatório e cicatrizante na medicina popular e na indústria de cosméticos. Comunidades tradicionais de Urbano Santos como São Raimundo, Boa União, Bom Princípio e Bracinho, além de outros povoados praticam o extrativismo do bacuri – aumentando a renda, além de uma alimentação saudável. Um dos problemas nesse período de safra é a derrubada do fruto ainda verde. As comunidades devem tomar conhecimentos dos problemas caudados no meio ambiente que a derrubada do bacuri verde traz. Quando se derruba o fruto verde antes de madurecer maltratando seus galhos a árvore não consegue brotar no ano seguinte, daí as famílias poderão perder no futuro parte de sua renda causando assim a escassez ou talvez o desaparecimento da espécie.
Saboreando bacuri - Diretoria - STTR
A massa do bacuri é muito cobiçada nessa temporada de colheita, chegando a 20 reais o kg. Por isso a grande procura pelo fruto. Surgia uma ideia em 2015 com ênfase na elaboração coletiva de um documento oficial que rege principalmente sobre a “proibição da derrubada” do fruto do bacuri verde nessa temporada da safra. Com o texto preparado sob orientações da SMDH – Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos e apoio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores (as) Familiares de Urbano Santos, resolve-se alargar os capítulos dando assim um entendimento mais amplo da proteção de uma toda biodiversidade. Com base em leis estaduais, federais e na própria Constituição de 1988, o documento subdivide-se nos seguintes subtítulos: “DA PRESERVAÇÃO DO BACURI, DO PEQUI E OUTROS RECURSOS AMBIENTAIS (MINERAIS, VEGETAIS E ANIMAIS; DAS CONDUTAS PROIBIDAS E PENALIDADES; DA FISCALIZAÇÃO E DISPOSIÇÕES GERAIS”. Com o sucesso dessa primeira experiência, outras comunidades estão solicitando audiências públicas para tratar desse assunto como a próxima que será realizada dia 31 de janeiro de 2018 no Povoado Juçaral. Abrangendo os Territórios dos Povoados Juçaral, Bebedouro, Laranjeira, Santa Rosa Bacabal, Surrão, Marçal dos Onças, Pedra Grande, Cajazeiras, Todos os Santos e outras comunidades interessadas da região.


José Antonio Basto

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Lendo para entender a chapada de forma diferente

O caminheiro depois de muitos dias de viagem pelo leste parava numa humilde choça das paredes de taipa e coberta de palha de babaçú. Se hospedaria ali naquela tijupá para repousar a noite e mais tarde seguir adiante, pois seu dia tinha sido bastante cansativo, percorrera toda aquela densa região de conflitos, acumulando o aprendizado. Era um herói? Talvez, com modéstia – esperava algumas mudanças e reformas que favorecessem os menos favorecidos e desprovidos de direitos. Este é um ofício que escolhera na esperança de novos tempos para colher bons frutos no futuro. Ao se abancar, perguntaria aos anfitriões do lar sobre a questão da terra – a conversa começaria antes do jantar que fora oferecido, pois jamais se dispensaria uma tradicional Iguaria de “galinha caipira com arroz de pequi” a pesar de tudo estava na chapada. A janta saiu com perfeição à luz de lamparina. Satisfeito! Em seguida surgia uma provocação que envolveria a situação fundiária do lugar. Poucos discutem sobre esse assunto que decerto é polêmico desde tempos bem remotos na história das civilizações; respeitava-se o momento – deixando-os à vontade. Mas as respostas supriam as indagações e a “prosa” prosseguira até o fim. O Viajante tirava de seu alforje alguns livros, textos, revistas e jornais velhos – veículos estes que alimentariam o gosto pela leitura e daria uma injeção de ânimo na luta pela posse da terra. Presenteava-os com carinho; recusaram de início, pois não sabiam ler nem escrever – descobrira então, óbvio! Mas respeitosamente aceitaram os presentes e os guardaram num baú seguro, pois dali tiveram a curiosidade de aprender a ler em uma demorada relação com as palavras e com a gramática. Só assim demonstrariam força intelectual e social para destrinchar os processos burocráticos no que diz respeito a defesa do seu território. Não conheciam o mundo das letras – e nunca leram nada – muito menos pisaram na escola; mas sabiam de cada pé de árvore da chapada – mostravam seus saberes e técnicas no extrativismo repassados de pai para filhos – curavam-se com remédios tirado das plantas medicinais – seus pais lhe ensinaram; não se perderiam nas veredas nem de dia, nem de noite, a energia era a luz da lua e das estrelas. Caçavam, pescavam, lavravam o chão e criavam pequenos animais para a alimentação e reprodução da família, o que detinham de mais valioso era toda aquela terra. Soletravam “lendo para entender a chapada de forma diferente”, coisas que a escola não ensina, adquiriram o diploma com o tempo. A existência e a convivência ensinaram essa nobre literatura onde uma minoria dar valor. Escreve-se para quem disponibiliza um tempinho pra ler. Conversavam ao seu modo com a natureza numa comunhão e comunicação com o espaço em que vivem. Sabiam a hora pelo sol e o tempo de plantar e jogar a semente no período certo através do clima. Viviam Isolados do mundo civilizado e conectados com o meio ambiente. A cartilha era a própria terra, as folhas, os ventos, a enxada, o jacá e as chuvas de inverno. Formaram-se em todas as ciências, receberam prêmios valiosos e repassaram isso para as futuras gerações. Tiveram como mestres o tempo e a paciência que lhes ensinaram a mais bela das lições de vida.

José Antonio Basto

e-mail: bastosandero65@gmail.com    

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

EXPERIÊNCIAS SUSTENTÁVEIS DE MULHERES EXTRATIVISTAS E GRUPOS FAMILIARES COM MODOS DE PRODUÇÃO SOCIOECONÔMICA DO MUNICÍPIO DE URBANO SANTOS-MA.

COLETORAS DE BACURI, PEQUI E OUTROS FRUTOS DO CERRADO – COMUNIDADE SÃO RAIMUNDO – URBANO SANTOS-MA.

D. Maria e seus bacuris 
Este ofício tem por tradição a mão de obra das mulheres camponesas que na temporada do bacuri, pequi e outros frutos do cerrado que vai de janeiro a março, elas saem cedinho com seus cofos, mulas e jacás para a colheita dos frutos especiais das chapadas do município de Urbano Santos e toda região do Baixo Parnaíba maranhense. O bacuri é o mais desejado e importante dos frutos, rico em vitaminas, nativo da floresta tropical amazônica, essa fruta pouco maior que uma laranja, com pele mais espessa de uma cor amarelo-limão pertence à família (Guttiferae), oferece muitos benefícios para a saúde e é usado em cremes, geleias, doces, bolos, purê e licores. O bacurizeiro, conhecido cientificamente como (Platonia insignis) pode atingir mais de 30 metros de altura, com tronco de até 2 metros de diâmetro nas árvores mais desenvolvidas. Sua madeira considerada nobre também tem variadas aplicações, mas é proibida a derrubada, apesar dos crimes de capitação ilegal. É encontrada naturalmente desde o Piauí seguindo a costa do Pará até o Maranhão. A massa possui alguns nutrientes em ​​quantidades notáveis de fósforo, potássio, ferro, cálcio e vitamina C; a casca também é aproveitada na culinária regional e o óleo extraído de suas sementes é usado como anti-inflamatório e cicatrizante na medicina popular e na indústria de cosméticos. Comunidades tradicionais de Urbano Santos como São Raimundo, Boa União, Bom Princípio e Bracinho praticam o extrativismo do bacuri servindo como fonte de renda para as famílias camponesas, além de uma alimentação saudável.
Francisca colhendo os bacuris
Um dos problemas nesse período de safra é a derrubada do fruto ainda verde, mas as associações destas comunidades citadas se juntaram para defender o território (chapadas) e criaram autonomamente uma lei (norma conjunta) que proíbe a derrubada do bacuri verde, pois o bacuri para ser colhido deve-se esperar o fruto cair de maduro – assim colaborando para a reprodução da espécie - quando se joga rebolo e bagunça seus galhos, no ano seguinte aquele pé não brota mais, atrasa de 1 a 2 anos para voltar ao normal.  Com leis severas, o conselho de fiscalização formado pelos presidentes das associações acordado na norma conjunta desde algum tempo já fazem a fiscalização rondando as variantes das áreas, punindo aqueles que desobedecerem as leis do Estatuto Social das entidades e o documento oficial que foi discutido coletivamente deliberado e aprovado para o bem do território. Os moradores do São Raimundo, Boa União, Bom Princípio e Bracinho lutam pela terra, batalham pela sobrevivência em convivência com a natureza. Chegando agora o período do inverno os frutos desabam no chão, homens e mulheres sobem o carrasco para a colheita, uma enorme alegria. Os catadores (as) devem ter a consciência de colher o bacuri no tempo certo, essa prática faz parte de sua cultura. Problemas fundiários que se arrastam há décadas envolvendo empresas do agronegócio e latifundiários vem atrapalhando os modos de vida destas comunidades tradicionais.

PRODUÇÃO DE FARINHA – COMUNIDADE QUILOMBOLA DE SANTA MARIA E COMUNIDADE BOM PRINCÍPIO – URBANO SANTOS-MA.

Roda de descascar mandioca
 A puba é a mandioca amolecida em cima do giral (base de madeira coberto de palha), pronta para ser levada ao banco do caititú para a trituração. A massa é extraída da mandioca fermentada e largamente utilizada na produção de (farinha de puba), além de bolos, biscoitos e diversas outras receitas típicas do norte e nordeste. O processo de obtenção da puba consiste em deixar a mandioca de molho num recipiente com água, antigamente se utilizava os chamados “pubeiros” - um espaço no rio oulagoas, cercado de madeira ou palhas, atualmente os tradicionais pubeiros foram substituidos por tanques de cimento. Depois de tres dias a mandioca deverá estar mole. Deve-se então escorrer a água e lavar abundantemente a mandioca ralando-a em seguida. Depois de ralada, deve-se escorrer completamente o líquido nos tapitis, a massa seca é peneirada e jogada no forno aquecido para se transformar em farinha. Dois forneiros fazem o serviço: um passa a massa, o outro seca a farinha, este é o momento do “apuramento”.
Enxugando a massa
A farinha antigamente era empaneirada nos côfos, agora se embala o produto em sacas, com medidas de 75 litros em cada saca. O município de Urbano Santo já foi campenão na produção d
e farinha no estado do Maranhão. A farinha de mandioca, farinha de puba ou farinha d`água e farinha seca é um derivado da matéria prima da mandioca, conhecida cientificamente por “Manihot esculenta.” A arte de fazer farinha é uma atividade centenária herdada dos nossos ancestrais indígenas da América Latina. Há estudos afirmativos que a fabricação de farinha no Brasil tenha também a contribuição cultural dos africanos que aqui trabalharam como escravos nos séculos XVI, XVII, XVII e XIX. As mulheres tem uma grande contribuição no processo da farinhada – conhecimentos que passam de geração para geração; desde a  chamada “arranca”, ao ponto final. As rodas de descacar mandioca são animadas nas casas de forno. Os lavradores e lavradoras tem o costume de fabricar os cofos artesanalmente (cestos de palha de babaçu ou palmeira najá) e colher folhas de axixá, guarimã ou bananeiras para o forro. Os paneiros são forrados com as folhas para o alojamento da farinha pronta para a alimentação.  Portanto chega-se ao fim da farinhada – de julho a outubro. Os agricultores vendem a farinha para resolver seus negócios, uma fonte de renda muito forte que precisa ser ajustada seu preço e mais atenção do comércio.  Nos anos oitenta e noventa em Urbano Santos era muito comum os camponeses se preparar para a farinhada com o intuito de vendê-la para conseguir algum dinheiro e passar o “FESTEJO DA NATIVIDADE” de 1º a 7 de Setembro. Essa tradição é mantida até os dias de hoje em nossa cultura. O município já foi grande campeão na fabricação de farinha. Isso deve ser reconhecido, pois as gerações contemporâneas e futuras podem tomar conhecimento desse maravilhoso processo que contribui para o avanço do nosso município na questão socioeconômica, cultural e social, perpetuando-se de gerações para gerações. “Farinhada é motivo de alegria, força de trabalho rural, cultura e desenvolvimento sustentável e solidário.

 QUEBRADEIRAS DE COCO BABAÇÚ – COMUNIDADE CAJAZEIRAS E BEBEDOURO – URBANO SANTOS-MA.

Roda das quebradeiras de coco babaçú
Elas forma uma roda com seus machados e cofos, antes disso as mulheres preparam os montes de coco (juntam as cargas e amontuam em baixo dos pés), para dá-se início a quebra do coco. Começa ali o som dos cassetes nos machados soando pela densa mata fechada. Durante o trabalho os assuntos e conversas envolvem tradicionalmente o dia-a-dia das comunidades, os afazeres domésticos, pescarias e os serviços da roça, donde os maridos estão também a trabalho. As mulheres mais jovens aprendem as técnicas e experiências com as mais velhas e esse conhecimento vai se perpetuando de geração para geração. O MIQCB – Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçú tem sido o principal alicerce da luta por direito e defesa dos territórios das extrativistas quebradeiras de coco que se organizam em associações comunitárias. O Maranhão é o estado de maior concentração dos índices de produção de amêndoa de babaçú comercializada para o resto do país.
D. Raimundinha juntando seus cocos babaçú
Em Cajazeiras e Bebedouro – zona rural de Urbano Santos o babaçú é extraído oficialmente para a produção de azeite, que chega hoje um valor de 15 reais por litro. Mas além disso ainda existem compradores que passam pelas comunidades rurais, outrora este tipo de comércio era mais forte – teve uma baixa por causas dos programas sociais que elevou a situação social de muita gente da zona rural – pois há algum tempo atrás, as famílias camponesas que moravam em áreas de cocais usufruíam desse sistema extrativista para o aumento da renda familiar.
Tudo se aproveita da palmeira de babaçu – uma espécie de mil utilidades: cocos, folhas e talos são utilizados na confecção de diferentes tipos de artesanatos, produzidos pelas mulheres. A partir da riqueza das possibilidades de utilização, essas partes do babaçú se transformam em matéria-prima para a confecção de diversas peças e também em alguns casos o coco estragado (coco velho) também é utilizado para a fabricação de carvão usados em indústrias.
Texto e imagens: José Antonio Basto (98) 98607-6807 / 98 98494-0123.
Urbano Santos-MA, Dezembro – 2017.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A queimada

Tela - domínio público: "Entardecer no cerrado" - de Carmem Fraga.
Era densa a fumaça da existência, voava pra lá do além-mar, parecia a “Rosa de Hiroshima”! Queimava-se tudo! E ainda o fogo seco desbrava a natura de modo inconcebível. Os ventos trançavam as moitas da chapada e as palhas das palmeiras, o mato fazia zig-zag e a neblina apresentava seu furor! Sobre um véu de púrpura aconchegava a noite fria que se dizia mãe da boemia. No dia seguinte, pela madrugada ainda escura, o orvalho caia sobre o sereno da tempestade que azulava o céu cor de anil -, relembrava-se e voltava-se para a fonte da juventude. Raios no horizonte e trovões no poente. A queimada continuava lá! A terra preta na poeira dos sonhos frigidos de outrora, mesclava um fenômeno sem igual. O campestre calado sofrendo as dores, não reclamava nada, pois a chama crescia a cada hora e se estendia ao sopro do vento leste. Festa se avista pelo espaço com a cinza que enfeita os ares. A queimada renascia brotando novos frutos para uma nova safra. O alimento das mesas dos viventes, humanos e animais da terra. Todos necessitam daquela área agora quase sem vida, poucos sabem disso, mas muitos não tem a consciência de ajudar naquilo que é de mais necessário. Acreditava-se que a chapada não se recuperaria nunca. Bom é saber que o meio ambiente tem seu poder magnífico de se recuperar – explorado e indefeso, consegue dá o troco nos mesmos que lhe agridem por falta de consciência. São intolerantes! A ingenuidade de alguns trazem a malicia para muitos, já o canto de alegria e o otimismo de poucos fazem brotar bons frutos e retoma a vontade de viver. A água das fontes naturais já não existem mais, roubaram da natureza o que ela tinha de mais valioso, furtaram a historia, roubaram sua memória, roubaram quase tudo e ainda lhe assassinaram. “Dizem que o coração ver o que os olhos não enxergam”. O riacho atravessa os campos, leva sua beleza pelas florestas saudáveis. Esvai-se para o mar trilhando a areia do tempo, não deixando as pegadas para despistar o inimigo – na mensagem pacifica e na lembrança de heróis que tombaram mas deixaram o sangue tatuado no solo vermelho da arena dos valentes e corajosos. A queimada estava “ali e acolá” em meio à prosa no ensaio lírico e romântico que só o tempo consegue ler e entender direito. E para sempre.


José Antonio Basto   

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

De um lado a defesa, do outro a exploração!

Quantas desavenças, quantos conflitos na insistência pela terra – ela foi formada há muito tempo atrás, mas não foi distribuída e nem atestada pra ninguém. Quem pratica seu bem social deve merecê-la por direito! De um lado a defesa para o bem comum do uso social, do outro a expropriação e espoliação de quem reside, devastam para lucrar com seus bens naturais. Quem mora, defende para o cultivo salvando o que ainda resta de natural. Quem morou lá há um século? Quem trabalhava lá no sustento da família? Quem catava coco, bacuri, pequi? Quem sempre viveu da chapada? O território tem como donos os que dizem ser seus próprios papeis vivos – quanto tempo já se passou! As capitanias hereditárias não mais existem e rudimentalizaram sua política da estrutura agrária! Quem usa e ocupa a terra são seus donos... Os verdadeiros documentos. Que a ciência, a topografia, os mapas forjados e o dinheiro tentem desmentir o sentimento cultural – não prevalece! Os sonhos estão lá plantados e regados de sangue, suor e luta. Estão lá as tumbas, os saberes, as roças, a água e a sobrevivência dos filhos e netos. Ouve-se um tempo em que tudo era diferente, a coletividade, o desapego, mutirões e solidariedade imperava no meio das comunidades. Todos faziam seus ofícios num código de bom censo. Muita fartura de tudo. De repente chega o chamado progresso na promessa de modernização do meio social e do campo – aconteceu de outro modo, na enganação inicial para o uso do espaço. Entra no jogo a grilagem com o nascimento de documentos nunca encontrados, os viventes ficaram sem entender o que se passava. Suas terras foram colonizadas por espécies estranhas daquelas que eram acostumados verem – a dinâmica do consumismo permitira todo esse retrocesso de dor e transformação no meio ambiente. O que diziam ser um pequeno espaço para uma experiência que achavam não dá certo se alargava as florestas por toda região, tomaram conta de quase tudo e substituíram o cerrado – levando consigo a violência e a intimidação dos verdadeiros defensores. O Pessoa ensinou que “Tudo vale a pena / quando a alma não é pequena”. Todos defendem sua casa, isso é mais do que justo e normal. A mãe sempre defende sua cria porque sabe que ela é indefesa. O sonho se renova em meio ao conflito. A esperança é o alicerce de alimentação do ideal. Planta-se uma nova semente na esperança de germinar e brotar novos bons frutos não apenas para os de hoje, mas em memória dos de ontem e apostando nos de amanhã.

José Antonio Basto