sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Casa de taipa abandonada


velha casa
Voltei pra rever a casa

Onde fui nascido e criado

Nada vi o que deixei
Tudo estava transformado
Chorei buscando lembranças
Nas emoções do passado.

Ainda chorei magoado
Vendo a casinha singela
Onde meus pais e irmãos
Moravam lá dentro dela
É triste entrar numa casa
Sem ninguém morando nela.

Senti o cheiro de vela
Quando cruzei o batente
Um oratório sem santo
E as flores murchas na frente
Talvez querendo dizer:
_ "Aqui não mora mais gente".

E na parede da frente
Marcas do panhol de milho
O lugar do pote velho
E as formigas fazendo trilho
E o papero que a mãe
Fazia o mingau do filho.

Vi copo e colher sem brilho
Abandonados também
Achei a panela velha
Que cozinhava os terens
Depois que mamãe se foi
Não ferveu mais pra ninguém.

Vi desprezados também
O cepo e a mão de pilão
O espeto de assar carne
E as panelas no fogão
"Queimei as últimas lembranças
Na luz da recordação".

Por: José Antonio Basto

"A alegria da família é de ouvir em versos a velha casa dos pais feita de taipa, onde os irmãos foram nascidos e criados com alegria, em meio à mais pura simplicidade".

































segunda-feira, 4 de outubro de 2021

As Santas Rosas


Mística com a comunidade Santa Rosa

As Santas Rosas! Santa Rosa dos Garretos e Santa Rosa do Moisés. Algo em comum com as duas comunidades tradicionais que estão localizadas na região central do Baixo Parnaíba maranhense / são dois vilarejos com situações de conflitos parecidos, estão numa área de transição entre municípios do Baixo Parnaíba maranhense. Porque muitos povoados ainda carregam consigo o nome do proprietário, da pessoa que se dizia o antigo dono? Os Garretos remonta uma família de proprietários de muitas faixas de terras de Mata Roma, Anapurus e Urbano Santos, herdaram terras além da conta – terras soltas, terras – chapadas sem fim que até então não tinha dono... terras devolutas do estado que abarcaram e registraram como suas. Essas terras foram sendo ocupadas ao longo do tempo e ao mesmo tempo sendo palco de conflitos agrários, como o de Santa Rosa dos Garretos que se iniciou em 2012 e continua até hoje. O velho Zé Souza que já foi vítima de despejo é um dos moradores que ainda resiste essa situação de conflito. Santa Rosa do Moisés – fica mais um pouquinho adiante da dos Garretos. A mesma região cortada pelo riacho e pelo Brejo, apenas com cognomes / sobrenomes diferentes. Santa Rosa do Moisés, um conflito novo. Dona Maria José – que foi nascida e criada lá, hoje com 78 anos, contara
  sua história, que o nome do aldeamento remonta o de um dos primeiros proprietários – “o velho Moisés” – que depois de sua morte a terra tradicionalmente na linha hereditária ficou para seu filho Dé Amorim e que este deixara para Neifran - filho mais velho que pretende vender para os chamados gaúchos que também já compraram parte de Bacabal. São 551 hectares de terra, no vilarejo moram e trabalham de roça 12 famílias camponesas, vivem há muito tempo, os mais velhos nasceram e criaram seus filhos e netos naquela área, continuam lá trabalhando de roça, caçando e pescando numa vida pacata. Certo dia, há não muito tempo atrás, chegou uma pessoa estranha no povoado dizendo que aquela terra já estava vendida e que os moradores tivessem a compreensão de que nada tinham mais ali, apenas receberiam 1 hectare de terra para não ficarem desobrigados. Naquela manhã, os homens estavam pra roça... as mulheres foi quem recebeu a indelicada visita e mensagem por parte do homem que anotava seus nomes num computador notbook. Era mais pra um grileiro do que um comprador de terra. Ficaram apavoradas, inquietas e sem ação naquele momento. O forasteiro ainda disse que se não aceitassem, perderiam tudo. Quando seus maridos chegaram das roças receberam a noticia; preocupados, fizeram uma pequena reunião e decidiram recorrer ao órgão responsável por essas questões agrárias: o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Urbano Santos. Precisariam saber de quanta hectares um trabalhador tem direito numa terra onde nasceu e foi criado há mais de 50 anos -, esta negociada em acordo extra-judicial. E se o Sindicato estava sabendo dessas pessoas que foram comprar a terra de Santa Rosa do Moisés. Era um dia de reunião do Conselho Deliberativo, mas achou-se um tempo curto para ouvi-los. Após as falas, foi-se marcado uma reunião urgente na segunda-feira, 30/08/2021 – o que aconteceu. Para melhores esclarecimentos a respeito da terra e do conflito futuro ou já bem presente. No inicio da tarde a diretoria do Sindicato se dirigiu àquela comunidade, que até então era um lugar novo onde o Sindicato ainda não tinha ido. A toyota cortava as chapadas da conhecida estrada de Bacabal e Santa Rosa... descia uma íngreme ladeira, adrenalina certa... chegava-se no riacho que divide as “Santas Rosas”. O Carro balanceava, vídeos e fotos foram gravadas. As primeiras casas foram avistadas: uma coisa chamava toda atenção em relação aos outros povoados por onde se anda constantemente: “a limpeza!” Todos os quintais muito bem limpos, nada de sacolas no chão, não se viu nenhum saco de suquinho, a terra limpa dos quintais e as cercas de camas que refletiam um ar de pureza. A reunião fora marcada para 3 horas da tarde, chegamos com alguns minutos atrasados, mas por causa da estrada. Enquanto o povo chegava pra reunião, os companheiros e companheiras foram treinar quebrando coco babaçu para distrair. Todos chegaram e a reunião começou com a fala da presidente do Sindicato, Francisca Maria que apresentou sua comitiva da direção sindical: Maria Noemia, Desanilde, Francisco, Seu Jorge, Ronaldo, José Antonio e Izaias. E prosseguiu com uma breve apresentação dos nomes dos trabalhadores presentes. Uma breve fala e depoimentos foram frisados com o intuito de dá uma injeção de ânimo nos moradores, explanações sobre problemas fundiários e socioambientais. Orientados para não fazer acordos sozinhos, para não aceitarem apenas 1 hectare para cada morador, que se associassem no Sindicato para ter mas forças e sobretudo para se manterem sempre unidos nas decisões. Procuraram o Sindicato porque tendem um acordo justo com terras suficiente para trabalhar e sustentar suas famílias. A região central em que as “Santas Rosas” estão localizadas é a região central do Matopiba. Região essa, sendo a última fronteira agrícola do cerrado do Baixo Parnaíba e um das poucas do Maranhão, invejada e desejada pelo agronegócio de chineses, japoneses, americanos e outros estrangeiros que com seus modos de produção avançadas tendem agredir com veneno e agrotóxico o meio ambiente e as famílias vulneráveis da região. Os moradores talvez não sabiam disso, mas após a importante reunião com as explicações, ficaram curiosos e sabendo mais sobre sua terra, seus direitos e sobre também quem deseja suas áreas de matas, águas, chapadas e todos os recursos naturais. A terra para os ricos é sinônimo de capital e poder. Para os pobres é mãe. Eles devem resistir até o fim, primeiramente eles, as entidades de defesa estão para as orientações. Depois da troca de experiências e informações, foi feito uma linda mística no pátio debaixo do pé de manga. E Após cantar a música de comunidade “Irá chegar” – todos se despediram. A reunião acabava ali e ficava como encaminhamento o acordo justo de mais de 200 hectares para os trabalhadores rurais e quando fosse feito que seria naquele lugar na presença dos moradores, do Sindicato e dos nossos advogados. Voltamos para casa com a sensação de dever cumprido.

 

José Antonio Basto

30/08/2021.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O DIREITO À TERRA É DE QUEM TRABALHA NELA

Assembléia com participação popular

As palavras do poeta dizia: “O direito a terra é de quem trabalha nela / A terra, ela é sagrada pra quem trabalha a terra/ Enquanto haver ternura, haverá esperança/ Enquanto a canção tocar, haverá outro lugar/ Enquanto nossas ações chegar às multidões, haverá pão para matar a fome dos oprimidos/ Enquanto existir a vida... Haverá esperanças/".
Bispo Dom Valdecir e J. A. Basto

A terra para o agronegócio, para as grandes empresas é sinônimo de capital e poder, a terra para esse sistema capitalista é um espaço sem gente... sem vida, para eles interessa somente os lucros... O dinheiro. Já a terra para as comunidades rurais é algo sagrado... É vida... Uma reforma agrária com gente e participação popular, necessita-se da terra como uma mãe precisa de filho. Esta é a reforma agrária que os camponeses brasileiros sempre quiseram, sempre sonharam com o “Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário”. Eles acordavam cedo para a viagem de Urbano Santos a Brejo que mede em torno de 119 km: a Francisca, o José Antônio Basto e o Raimundo do Juçaral. Tinham sidos convocados para participarem do “ENCONTRO DE COMUNIDADES RURAIS SOBRE QUESTÕES AGRÁRIAS NA REGIÃO DO BAIXO PARNAÍBA”, realizado no Salão Diocesano do Seminário Santo Antônio, na cidade de Brejo-MA, em 13/09/2021. A problemática foi levantada especificamente sobre os impactos agrários e socioambientais nos povoados  tradicionais deste imenso território, principalmente causados através do agronegócio da soja e eucalipto.
Francisca, Drª Luzia e J. A. Basto

O encontro que é parecido com uma audiência pública / (ouvidoria), acontecera em dois momentos: o primeiro pela manhã com uma abordagem geral - análise de conjuntura a respeito das situações fundiárias no Brasil e Maranhão coordenado pelo Advogado Agrário - Dr. Diogo Cabral que presta assessoria jurídica para a Fetaema e Diocese de Brejo e pelo Pe. Chagas do velho “Fórum em Defesa da vida do Baixo Parnaíba”. E o segundo momento foi uma ouvidoria e troca de experiencias com a presença da Juíza Agrária (Vara Agrária do Maranhão), Drª Luzia Medeiros que se apresentou como Juíza Agrária desta instituição jurídica implantada em 2019 em São Luís, mas atende todo estado do Maranhão. Ela explanou que a Vara Agrária é o melhor caminho para promover e dar celeridade aos julgamentos dos processos que tratam de conflitos fundiários, conciliando e julgando os dissídios coletivos que tratem de demandas relativas à propriedade, posse e uso da terra.
Drª Luzia, Raimundo e Francisca - (STTR)

Drª Luzia disse que passou a se empenhar na “área jurídica agrária” para melhor entender e ajudar nos andamentos de processos antigos que vem tramitando há alguns anos. Explicara que mais de 50% das terras do Estado do Maranhão não tem definição no que diz respeito à sua devida titulação e regularização de áreas devolutas, também chamadas de área nebulosas (sem registro), terras sem dono. Disse que aprendeu dentro do sistema processual reconhecer a luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais nessa pespectiva da luta por um pedaço de chão para se trabalhar com dignidade. Frisou ainda que, se o cidadão trabalhador rural mora há mais de 10 anos na área é possível requerer a posse da terra pelos processos burocráticos de (usucapião – “aquisição de propriedade móvel ou imóvel pela posse prolongada e sem interrupção, durante o prazo legal estabelecido para a prescrição aquisitiva”), de registro, principalmente.
roda de conversa

Onde parte das vias cartoriais, emissão de certidões negativas, requerimento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), declaração de atividade rural do STTR reconhecendo a posse e o tempo em que os agricultores vem trabalhando e outros documentos... Assim, toda documentação estando pronta é possível a titulação e regularização fundiária dos imóveis. A lista de presença contabilizou 75 pessoas de 21 municípios – representantes de diversas entidades que compõe o movimento social, onde muitas dúvidas foram tiradas a respeito da temática um tão pouco polêmica, principalmente na região do leste maranhense em centenas de conflitos agrárias envolvendo fazendeiros, grupos empresariais e famílias camponesas.

 Texto e fotos: José Antonio Basto

Brejo, 13/09/2021.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

PARTIU ZÉ MARTINS! UM DOS ÚLTIMOS GUERREIROS DE COMBATE DAS CEBs, DOS DIREITOS HUMANOS E DO MOVIMENTO SINDICAL. SE FOI UM FILHO DE URBANO SANTOS. (Saudações em memória ao grande companheiro).


JOSÉ FERREIRA DA SILVA, vulgo Zé Martins. Foi um grande lutador, o último dos guerreiros de combate, assim como Manoel da Conceição que também partiu esta semana desta vida para outra, os dois tem histórias parecidas nas páginas das lutas populares. Zé Martins muito ajudou no movimento das Comunidades Eclesiais de Bases, graças ao seu empenho e de outros nomes que os Povoados de nosso município tem histórias de resistência e fé. E também foi um dos maiores construtores  do "Movimento Sindical Rural" em Urbano Santos e região, engajado nas lutas pelos direitos humanos no Baixo Parnaíba. Agricultor, militante do PT, católico, pai de família. Ainda nas décadas de sessenta e setenta ajudou na criação das primeiras CEBs em Urbano Santos e região, como a primeira CEB no Povoado Santo Amaro, apoiado pelos Padres Xavier e Zé Antônio. Com destaque na luta popular se tornou pregador da Teologia da Libertação e com sua grande inteligência defendia o socialismo, os pobres e desprovidos de direito. Os coordenadores de comunidades decidiram então  apostar em Zé Martins como candidato a vereador, onde foi eleito, na câmara sua voz era a voz dos oprimidos. Ainda na década de setenta defendeu os Padres, que até então estavam sendo interrogados e detidos pela Polícia Federal em São Luís acusados de subversivos, simplesmente por defender a terra e os pobres, onde teve êxito nesse feito de muita coragem.Viajou, ensinou e aprendeu muitas lições de vida, sempre com humildade. "FOI UM AMIGO, UM LUTADOR... UM VELHO GUERREIRO" que deixou um legado importante enquanto viveu. Sua história remonta as lutas populares em defesa da vida, com relação ao meio ambiente, a reforma agrária e melhorias de vida para os desprovidos de direito. Merece uma grande homenagem, quem sabe um "livro com sua biografia extraordinária" e acima de tudo ser sempre lembrado em nossas mentes, para que a luta que ele começou dê continuidade com as nossas forças. "Nosso sentimento de pesar à família!" Siga por um caminho de luz e paz. Saudações eternas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A RÚSTICA GALINHA CAIPIRA EM TOCÃO


Escrever sobre as culturas interioranas, não é tarefa muito fácil. Mas pode ser uma questão de determinação, força de vontade e ainda mais, quando se trata de uma prosa poética, de um pequeno ensaio.  Era um desses sábados... o dia raiava exatamente às 5 da manhã, o nascente se avermelhava para as bandas do norte. Era dia de fabricação de farinha seca na velha casa de forno da Comunidade Tocão - o "P. E Lagoa do Tocão e Siricora". Um dia antes houve um assado de carne de gado e coração de galinha da granja. Os anfitriões da humilde casa, convidaram para um simples almoço de frango caipira - pois no dia seguinte a família camponesa tinha que torrar uma "seca" - (termo que se
 utiliza para a farinha branca / farinha seca). Acordaram sedo para raspar e ralar a mandioca, que depois a massa foi imprensada, ralada novamente, peneirada e jogada ao forno quente engordurado de sebo de gado. Enquanto a massa era manejada e jogada de um lado para o outro; a galinha caipira fervia dentro de uma panela no fogareiro de barro. O abano pegava de um lado ao outro para acelerar o processo. Numa casa de farinha sai muitas conversas, muitas histórias, algumas delas quase que sem sentido, somente mesmo para diversão das pessoas que ali naquele ambiente estão trabalhando, se ouve de tudo um pouco. A galinha caipira chamava a atenção pelo cheiro forte que sai na fumaça da panela. A Comunidade Tocão tem um título comunitário de mais de 800 hectares de terra. Muita terra para se trabalhar. As famílias que lá moram e trabalham de roça são camponeses que antes pagavam foro para o antigo proprietário que tinha sua propriedade na Moradia Lázaro e abraçava grandes faixas de terras abrangendo um grande território. O Tocão era uma área de sobra, que depois de descoberta, os trabalhadores rurais começaram a se organizar na associação para as devidas providências do P.E. O que aconteceu, hoje é uma comunidade que se formou no meio daqueles carrascos... "onde o horizonte do tempo contempla os raios do sol ao dia e a luz da lua a noite". Pegando carona no que dantes era falado... os agricultores a cada momento chegavam com uma carga ou duas de mandioca e derramavam no monte no meio da casa. O tempo fora passando rápido, ao ponto de que alguém esquecia de adicionar água na galinha que o menino estava vigiando para não queimar. Pois como tinha muita gente de olho, a panela precisava subir de caldo. Quase seca, a galinha quase torra, quase passa de ser galinha cozida para galinha frita, pois o vigia deu uma saidinha e esqueceu da panela. A farinha foi torrada e ficou nota dez, para um pirão escaldado ou (pirão de parida), a galinha gorda convidava para a iguaria tradicional, o que se foi feito. Esfriava no cocho, o vento a levava de tão apurada que era. Os raspadores de mandioca apressaram as mãos com suas facas amoladas, a fome batia. Meio dia em ponto os montes de mandiocas baixaram e foram finalizando as últimas raízes jogadas nos jacás para que em seguida seguissem aos tanques d' água. Então dirigir-se à porteira e à cozinha. Uma mesa, a água e um suco de acerola para o acompanhamento da galinha. Tudo perfeito ao seu modo, modo do interior, modo da roça. Os pratos com arroz e os pedaços na bacia... todos se serviam, um silencio pairou naquele momento, só se batia os queixos. Depois do almoço, uma sobremesa com papo de farinhada. Pois no dia seguinte era dia de torrar a puba que já se encontrava em cima do giral e outra galinha já estava marcada para ir à panela mais na frente. 

José Antonio Basto

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Aventuras do andarilho sertanejo Viajante do Leste – Parte II




"O Viajante do Leste" voltava de uma longa jornada fora do mapa deste velho e histórico sertão, o andarilho sertanista viajara para a capital do país – Brasília-DF. Estava numa tarefa de estudo sobre conflitos agrários na região do MATOPIBA; ele aprendera algumas coisas e trazia consigo uma bagagem para compartilhar com sua gente. Trazia conhecimentos e presentes também... os melhores presentes em sua mala, trazia livros! Depois de algum tempo ausente do seu chão de vida, voltou para ver seus amigos do interior, para sentir o barro e a areia quente das chapadas no solado dos pés. Ao desembarcar do ônibus, não demorou muito na cidade, seguindo caminho para os lados do norte, por ser ironicamente do leste. Ele pegou uma carona numa carroça do camponês que estava indo para sua roça, viu estradas aplainadas, algumas coisas bem diferentes da última vez que passara por ali, muitos problemas causados pelo agronegócio, (viu pobreza das comunidades e riqueza do capitalismo empresarial). O sol ardente e sufocante, as doze horas em ponto. Para o rumo que indicava os lençóis e o Oceano Atlântico - umas nuvens carregadas de chuva anunciavam um futuro “sereno”. Já era o mês de junho, mas as chuvas precoces ainda desciam temporariamente e ainda caem. Roças de arroz, milho e mandioca apareciam a cada instante. Mas o arroz desta safra quase não encheu, nasceu bem... a falta de chuva no tempo certo fez com que os cachos não enchessem. O milho até que rendeu - é no que se parece ao olhar ainda umas espigas secas, mas com boa aparência de uma boa colheita que se passara. Depois de umas horas o Viajante avistara o primeiro vilarejo, casas de taipas e animais pastando nós terreiros. Acenava para os moradores e os sertanejos respondiam com um modesto "boa tarde" companheiro! A geografia da comunidade rural se parecia com uma aldeia indígena: um campo de futebol no meio, nos arredores as casas sob as sombras de jatobazeiros centenários. "Próximo o Rio dos Pretos", e logo perto o cerrado verde e exuberante. Parava ali para prosear. A Carona do carroceiro se foi. A fome apertava e um velho amigo morador daquele povoado lhe convidara para almoçar um "peba na pimenta", como aquele da música de João do Vale. Ele aceitou o convite. O velho sentado no tamborete de buriti (espécie de banco), conversava enquanto o peba fervia na panela. O coco babaçu estava sendo socado no pilão para que o leite fosse adicionado na carne da caça. O anfitrião contava história e o Viajante ouvia-o com muita atenção. Dizia que a terra onde mora e trabalha vem sendo vítima de grilagem, por isso se preocupava. Pois tinha uma "reca de menino" - numa faixa de uns doze, todos nascidos e criados naquele lugar. Contara que vive e trabalha numa área que ainda não lhe pertence por lei, mas por cultura e tradições que se perpetuam há décadas... desde a geração de seu pai. A terra é de uma fazenda e o fazendeiro ameaça-lhe botar pra fora sem de direito de indenização. Ele não quer dinheiro, quer apenas das mais de mil hectares - as suas trinta ou quarenta hectares, assim pode viver sossegado com sua coroa, com o espírito de dever cumprido para a herança dos descendentes. Contou muitas histórias, uma hora se passou e a narração continuara. De repente um chamado do mulher para o almoço. O peba estava pronto com leite de coco e arroz seco. Uma esteira de palha foi espalhada no chão da cozinha, ao redor, uma fileira contornada de pratos e a panela de carne, meninos e velhos se aconchegavam para se servir. Mais parecia um ritual. Antes de começar servir, uma oração em agradecimento por aquele alimento que a floresta presenteou a família campesina. O Viajante acompanhou a cerimonia. Então o rango foi liberado para ser degustado. Depois da panelada de peba cozido. O Viajante descansou um pouco na rede de linho de embira de tucum. Já era quase cinco horas da tarde, pensava em ficar pra um descanso mais aprofundado. Mas tinha que seguir em sua missão. Despediu-se e agradeceu a todos, levaria as reivindicações aos advogados de defesa da causa – dos “Direitos Humanos”, em relação à sua terra. Anotou todas as falas. Seguiu adiante, na travessia da ponte sobre o rio. O Viajante se deparou com as praias do rio e tomou como caminho uma vereda que tinha contornando a margem direita do igarapé. Anoiteceu! Então ali acampou. Um sobrevivente! Não tinha fósforo, nem isqueiro, foi preciso utilizar suas técnicas e experiências de caçador/ coletor/ sobrevivente primitivo para acender uma fogueira através de atrito entre dois pedaços de madeira. Sendo essa uma das técnicas mais difíceis de se conseguir fogo e ainda mais com o combustível encharcado da chuva. A noite não era de lua. O Viajante fez fogo com atrito mas nada tinha pra assar. O abrigo ficava num local de areia em baixo de pés de muricizeiros. Decidiu fabricar uma armadilha para pegar peixes: um cesto de talas de palhas de palmeiras, usou suas habilidades para construir e a coragem para tirar cupins e botar n' água. Passou ali algumas poucas horas para checar a armadilha. Entrou na água escura... tinha piabas, assou-as na brasa e assim conseguiu energia para dormir. Acordou com sons de tiros de caçadores noturnos, latidos de cachorros ao longe, era exatamente quatro horas da manhã, não conseguiu mais dormir naquela madrugada. Alimentou a fogueira até os primeiros raios do dia aparecer no nascente. As cinco e meia já o dia claro jogou água na fogueira, pegou seu surrão, bateu a terra e seguiu pelo nível do rio. Depois de horas de caminhada ouviu som de pilões por traz dos morros da floresta. Era os moradores remanescentes do quilombo de Lagoa Amarela. Comunidade essa que no passado foi o quartel general do irmão Cosme Bento das Chagas, o (Negro Cosme da Balaiada). Que corajosamente arregimentou negros escravizados na luta pela liberdade tendo como base a insurreição dos Balaios (1838-1841). Cosme Bento das Chagas, como chefe negro, expressou o seu grau de consciência política e o valor que dava à liberdade, quando procurou estabelecer uma escola de ler e escrever no famoso Quilombo de Lagoa-Amarela - localizado na cabeceira do Rio dos Pretos, na época comarca do Brejo, hoje município de Chapadinha. A história do Cosme foi contada de cima pra baixo pela elite herdeira da estrutura agrário neste sertão. Agora estar sendo contada e escrita de baixo pra cima por um militante Balaio de hoje. O Viajante refletiu sobre tudo  aquilo que sua gente passara, correndo, se escondendo, lutando, fugindo... Sonhando. Ele atravessou o quilombo, não se hospedou, mas conversou com amigos e nas conversas eles sempre tocavam na questão da terra que nunca foi resolvida há séculos, mesmo as tais leis sendo regidas pela Constituição de 1988. Pediu água, bebeu e encheu a cabaça a tira colo, meio dia estava quase chegando... quase dois dias de caminhada. Um som tribal ecoava nos ouvidos: era um menino afinando um berimbau e outro esquentando um atabaque na fogueira. Naquela tarde ia ter roda de capoeira no quilombo, mal podia esperar... a vontade foi muita de participar e bater umas, responder couros de ladainhas e quem sabe dar umas pernadas no ar. Mas o tempo era curto e precisava chegar com dia no próximo povoado. E assim sumiu no estirão do caminho, atravessando uma ponte de buriti para outro território. Fazia voltas e voltas, chegou em “Bebedouro dos Calixtos” do outro lado do rio, conversou com lideranças dali. Um dedo de prosa com a senhora que estava varrendo a capela, tinha missa naquela noite. Pegou outros caminhos praticando as veredas que chegaria a velha estrada do Surrão - de povoado em povoado, parou já no final da tarde no quilombo de Santa Maria. Ele jantou na casa do velho morador, o mais antigo do quilombo -, um ancião que sabia quase de tudo sobre a história do seu lugarejo. O Viajante já tinha escrito alguns artigos sobre Santa Maria, era familiar sua história. O velho trabalhador rural já tinha sido personagem de seus escritos. Não demorou muito por lá. Se deparou com a Comunidade Fortaleza e por fim chegou na sede da cidade de Urbano Santos na casa de seus pais. Seus pais há tempos não lhe via. Jantou a melhor refeição do mundo, comida da casa de mamãe.  Dormia sossegado, aquela noite era demorada, estava com a família, depois de muito tempo ausente. Matava a saudade dos irmãos (as) mais novos e do carinho dos pais. Mas no dia seguinte, tomou café, pediu a bênção dos pais e abraçou os irmãos e seguiu rumando por as estradas praieiras das velhas linhas e trilhas em direção à Miritiba, Morros e Icatu - por onde os Balaios deixaram seus rastros.

José Antonio Basto
Junho - 2021.
A saga do Viajante do Leste - parte II

 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

133 ANOS DE UMA ABOLIÇÃO INACABADA

          Será que a abolição da escravatura de 13 de maio de 1888, resolveu os problemas de milhares de escravos no Brasil? Os movimentos abolicionistas pregavam a liberdade por completa e não apenas pela metade como aconteceu. Nomes como os de Joaquim Nabuco, José de Patrocínio e o poeta Castro Alves foram vultos da história que merecem ser lembrados pela grande contribuição a respeito da liberdade dos negros e negras deste país, além de muitos outros líderes que se doaram à causa da luta contra o mais horrível e hediondo dos sistemas que perseguiu a humanidade, principalmente o povo negro africano.

          Os problemas sociais no Brasil, em especial o da escravidão negra, foram mazelas e feridas que ainda hoje não cicatrizaram e continuam na alma e na lembrança dos afro-brasileiros. Os mais de trezentos anos de cativeiro negro e indígena que perdurou em nosso país – dizimando o continente africano, foi sem dúvida uma das maiores vergonhas machas desta pátria. Uma coisa não é lembrada: os escravos nunca aceitaram a escravidão, fugiam e formavam quilombos, resistiam aos ofícios não fazendo os trabalhos ordenados pelo patrão, quebravam instrumentos de trabalho, as mães num momento desesperador até abordavam seus filhos para não vê-los futuros servos dos senhores brancos, em fim... A luta dos negros foi acirrada: Zumbi foi assassinado, Negro Cosme enforcado em praça pública para assim mostrar o poderio do estado repressor. Mais de 18 milhões de africanos foram deportados da África para o Brasil, a Lei Eusébio de Queirós proibira o tráfico de escravos da África para o Brasil, mas isso também não valeu a pena, porque o tráfico de negros continuou na clandestinidade por um bom tempo.

            O período literário do “Romântico” no Brasil principalmente a terceira fase, (condoreira), foi um dos alicerces para que grupos de intelectuais influenciados principalmente na Revolução Francesa formassem grêmios com o intuito de discutir uma política de apoio aos escravos. Esses grupos deram origem às chamadas “Sociedades Abolicionistas” – essas organizações tinham o objetivo de alforriar escravos, esconder negros fujões das fazendas até que conseguissem achar um quilombo. Uma campanha foi idealizada, mas quando deu certo não foi cumprida porque muitos negros após o 13 de maio de 1888, continuaram sendo escravos do preconceito e da discriminação racial até os dias de hoje. A abolição de 13 de Maio foi inacabada porque a D. Isabel apenas assinara com um traço de pena a Lei Áurea, uma vez que ela nunca realmente lutou por uma bandeira abolicionista. Assinara por pura pressão social. A abolição foi inacabada porque os afro-brasileiros ainda apresentam os maiores índices de analfabetismo, as favelas, guetos e cortiços em suas grandes maiorias são habitados (as) por negros; morre mais jovens negros no Brasil do que jovens brancos; há quem diga é porque são pobres, sim a escravidão negra sempre mostrou essa face criminosa do desamparo, da angústia, desrespeito e pobreza, são pobres e são negros. Uma sociedade com problemas de escravidão não tem como avançar no que diz respeito à economia e o progresso. A História do Brasil é uma história feia, são páginas de opressão e sofrimentos, um sujeito só faz um serviço com gosto se realmente for remunerado, claro que o progresso se estende através do trabalho assalariado. A escravidão negra ainda nos reflete um quadro obscuro e sem escrúpulos, as lutas sociais, a rebeldia dos jovens e os sonhos de um dia ter uma vida melhor, foram as bandeiras que hasteadas para o sol nascente alcançaram a vitória de uma luta que durou mais de três séculos. Essa luta que esteve na imprensa e nas linhas dos poemas calorosos de Castro Alves, anuncia agora com muito otimismo a “A abolição Social” dos negros e negras dos nossos dias atuais. Queremos ouvir o som do berimbau, do atabaque e do agogô... Queremos cantar e brincar em homenagem às flâmulas que conseguiram a abolição mesmo pendente. Abaixo os 131 anos da falsa abolição nesse 13 de maio de 2019, essa luta é de todos nós, o Brasil precisa erradicar urgentemente a escravidão social das páginas de nossa história.  

 

“Minha alma ainda treme de frio e indignação quando se lembra da chibata que assolou o couro dos meus irmãos cativos.”

(anônimo)

José Antonio Basto