terça-feira, 8 de setembro de 2015

Os desconhecidos no Baixo Parnaíba e as questões que atrapalham a luta pela posse da terra.


[imagem da web]
Há menos de trinta e cinco anos atrás, a praga da monocultura (eucalipto e soja) não imperava nas terras rurais da Região do Baixo Parnaíba Maranhense; muitos anos antes dessa tremenda invasão capitalista e descontrolada as comunidades tradicionais já praticavam seus modelos culturais na agricultura familiar, pesca, extrativismo e caça para suas sobrevivências. A parti de então, no início da década de oitenta sofreram um impacto ecológico e social, se deparando com mudanças drásticas que se perduram até os dias de hoje, infelizmente muito complicadas para serem revestidas em seus estados primários.

As terras devolutas do estado, por exemplo, que em suas grande maioria ainda não passaram pelo processo de Reforma Agrária, as comunidades organizadas através de associações de trabalhadores rurais vem implorando para que o ITERMA faça o seu dever de vistoriar e arrecadar essas terras para que assim os trabalhadores e trabalhadoras tenham uma minúscula parte de seus direitos garantidos por lei. Entende-se em pormenores que a Reforma agrária seja a reorganização da estrutura fundiária com o objetivo de promover a distribuição mais justa das terras, mas também não é só isso, pois territórios como o do Baixo Parnaíba do qual o presente texto se refere -, essa região assim como muitas outras pelo Brasil se encontra em situações extremas; se realmente fosse feita uma Reforma Agrária massiva no Baixo Parnaíba hoje, como prega o movimento social, era preciso estratégias preliminares sabendo diferenciar os modelos de produção que geram economia familiar. Primeiro que os poderes competentes para fazer acontecer a Reforma, estes podemos dizer que nem se preocupam com tais questões consideradas por eles como polêmicas e sem jeito, são interessados apenas pelo voto no período eleitoral, depois que conseguem cadeiras nas representatividades legislativas e executivas, esquecem dos compromissos e nada fazem para aqueles e aquelas que vivem na miséria, desprovidos de direitos e políticas básicas como saúde, educação e segurança pública. Nesse sentido os camponeses pecam porque deixam de acreditar em pessoas de suas próprias comunidades que dividem a luta lado a lado e então seguem orientações de estranhos e magnatas que nada tem haver com a luta no campo; um ditado popular diz: “enquanto o pequeno não acreditar no pequeno vai ser difícil para se conquistar vitórias concretas”. As brigas internas de trabalhadores com trabalhadores é uma das armas mais poderosas dos latifundiários e grupos empresariais, quando as comunidades estão em conflitos particulares entre sim, questões de famílias e vizinhos, o grande proprietário fica sorrindo, porque ao invés de estarem lutando na coletividade, as organizações desgastam-se a cada momento em batalhas sem futuro. A luta deve ser contra o sistema em defesa dos direitos para todos e todas e não para suprir necessidades individuais. As organizações de trabalhadores como STTRs, Colônias, Sindicatos de Pescadores e Sindicatos de Trabalhadores na Agricultura Familiar são órgãos responsáveis para o fortalecimento da luta, mas não é isso que se ver, em quase todos esses setores existem divergências internas e pessoais, brigas entre diretorias por salários e não pelo sentimento de liberdade e posse da terra, além de sindicatos atrelados ao sistema. Esse enfraquecimento das organizações tem contribuído para o avanço do agronegócio no país e pela negatividade dos índices de títulos de terras tanto no INCRA quanto no ITERMA.

Aqui no Baixo Parnaíba não tem sido diferente, já houve um tempo em que o fogo da luta conduzia os trabalhadores, quando se fazia constantemente seminários, formações e determinados encontros para debater esses assuntos, tudo isso foi mudando porque alguns agentes que levavam as bandeiras de vanguardas na frente caíram em propostas de prefeitos para serem secretários, outros aproveitaram o movimento para se promoverem candidatos a vereadores, quando sentaram e chegaram nas cadeiras e gabinetes não tiveram mais coragem de enfrentar o inimigo e lutar por aqueles e aquelas que lhes botaram no conforto, até prefeitos e vices – prefeitos foram promovidos e erguidos por via da grande força das comunidades do Baixo Parnaíba; o pouco que fizeram foi vencido pelo que deixaram de fazer: fazer valer as vozes dos oprimidos que nunca tiveram dinheiro, mas alcançaram respeito, tiveram coragem e força de lutar por um sonho  romântico de um Baixo Parnaíba renovado com seus recursos que foram roubados, isso talvez seja somente mesmo um sonho romântico: pois a realidade de nossa Região do Baixo Parnaíba é totalmente diferente do que se ler, se escreve e se pensa. Essa realidade é enfrentada a cada dia para quem mora nos povoados e se depara com a prática e não apenas com a teoria.

José Antonio Basto
bastosandero65@gmail.com
(98) 98607-6807

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A chapada corre com medo do agronegócio


Chapada da comunidade Bebedouro - Baixo Parnaíba - MA
No momento ela estava ali parada, inconformada com as mazelas que o agronegócio lhe causara, danos irrecuperáveis de muitos anos atrás... frutos da desgraça e ignorância das plantações de eucaliptos, soja e outros monocultivos. Ela chorava se lamentando num grito que ecoou céus e mares! Seus bacurizais foram cortados, seus animais expulsados da floresta para outros lugares distantes... foi por causa disso que ela disparou correndo veloz como se fosse um vento leste, fugia da intolerância humana e procurava sonhar com uma outra realidade. As arvores caminhavam carregando seus frutos como mães carregam seus filhos a tiracolo, atravessavam rios que também se reclamavam da poluição. Anoitecia e amanhecia... ala continuava correndo... correndo... correndo com medo da devastação implacável. Muitos dias se passaram - passaram-se meses, décadas e séculos – mil anos correu o calendário, a chapada relembrara sua forma natural quando tudo era diferente, quando não existia ganancia, quando naquela época tinha muita fartura de pequis, mangabas, candeias, favas e outras espécies já não mais encontradas hoje em dia. Mas um mal alastrou-se a região donde ela vivia, a terra foi afetada por agrotóxicos e outros produtos... aviões ensombreiavam os capins, cuspindo veneno forte, estes venenos não fica apenas nas chapadas mas escorrem para outros capões de mato: dos cocais aos carrascos. A chapada parou em um lugar desabitado para descansar de sua viagem sem rumo, viu o céu nublado que parecia chover mas não choveu, não caiu água do céu porque a chuva vem desta e de outras chapadas, pois se as árvores foram transformadas em carvão nos fornos e baterias é claro que não vai chover mais. A chapada chama a chuva no cerrado –, este cerrado que agora é só eucalipto, soja e carvão. As nuvens carregadas de água desceram a procura de refugio seguro para despejar sua matéria. A chapada apressou seu passo e seguiu caminho com suas pernas tortas cambaleando pelas veredas do destino... esperando justiça e um outro mundo possível.

José Antonio Basto
bastosandero65@gmail.com

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Os estreitos caminhos nas chapadas do Bebedouro -, Urbano Santos, Baixo Parnaíba Maranhense.

Chapada do Bebedouro

A reunião estava marcada para eleição e posse da nova diretoria da associação daquela comunidade tradicional. Quando saímos debaixo daquele sol escaldante em cima das duas horas da tarde já sabíamos que seria uma aventura, no entanto, atravessando valas e buracos pelas comunidades Santa Maria, Raiz, Surrão, Pedra Grande e Cajazeiras. A Desanildes – Secretária de Jovens do STTR animava a todos com suas sarcásticas gargalhas; Noemia – Presidente do STTR nem ouvia a bagunça no carro, pois a mesma estava na cabine; Izaias - Secretário Agrário contava suas presepadas desde 2009 quando ouve as primeiras visitas para orientações do processo que foi dado entrada no INCRA e a Dona Sônia que gosta muito de cantar nas cartilhas de cânticos das comunidades, esta ficava somente em seu canto com sua roupa elegante que parecia mais uma advogada.

 
Plantio de eucalipto
Pois bem, depois de mais de uma hora de viagem conduzida por um motorista de carteira de habilitação do Piauí fomos até a comunidade Cajazeiras, partindo pelas trilhas do Povoado Todos os Santos – por fim avistávamos as primeiras chapadas do Bebedouro. Infelizmente percebia-se ali com clareza as grandes plantações de eucaliptos da Suzano – monocultivos esses que assim como em todo Baixo Parnaíba por onde ele se alastra só deixa mesmo um legado de destruição da biodiversidade; o eucalipto são monstros verdes criados em laboratórios, geram riquezas apenas para as empresas que operam o seu trabalho de plantio, corte e distribuição.
Pátio da capela da comunidade
As clareiras das chapadas do Bebedouro que vivem na resistência são diferenciadas de muitas outras chapadas; avermelhadas com suas árvores baixas e cheias de animais silvestres dos capins às copas; os bacurizeiros já florados enfeitavam os capões de matos e carrascos. Quando avistamos as casas da comunidade, as dezenas de crianças vieram nos receber com seus majestosos sorrisos. Uma quantia da população aguardava na capela a nossa chegada e também o levantamento do mastro (inicio do festejo de São Raimundo – padroeiro do lugar). O Adonias Filho e Dona Raimundinha, lideranças que enfrentaram as primeiras batalhas pela terra veio nos receber com bastante humildade. De longe se ouvia os estrondos dos foguetes da negada que costuravam as veredas carregando o mastro do festejo -, chegaram em frente a igreja e os cânticos ao som do pandeiro ritmavam em estilo ritualístico aquele momento sagrado; a companheirada do Sindicato ajudavam nos versos de “Nêgo Nagô” e outros bastantes conhecidos e que relembraram os antigos encontros de comunidades pela nossa região. Chegava a hora do ato para eleição e posse da nova diretoria, o Adonias Filho que era o atual presidente da entidade queria passar seu cargo e aproveitou para uma analise das lutas travadas que enfrentara ao lado de sua mãe guerreira para que hoje os moradores tivessem um assentamento do INCRA de 1.356 hectares de terra, uma área suficiente para o desenvolvimento da agricultura e outras atividades com relação ao seu total de famílias. Falavam das dificuldades políticas e administrativas, os aperreios, críticas e outros assuntos de interesse dos associados. Dona Raimundinha do Bebedouro também aproveitou o momento para seu desabafo: “só sabe as dificuldades enfrentadas numa luta pela terra em defesa da Reforma Agrária quem realmente se empenha largando tudo por essa causa coletiva”, disse ela emocionada em suas palavras. O Izaias conscientizou os ouvintes falando do papel do STTR naquela questão e sua experiência como diretor e presidente da Associação da Comunidade Baixa Grande. Escrevi-me pra falar como militante e jornalista desses fatos com intuito de frisar alguns pontos como a respeito de um diagnóstico da região; levantamento histórico do povoado, o impacto ambiental, práticas extrativistas e manejos tradicionais agroecológicos, associativismo e direitos humanos... infelizmente o tempo foi pouco e a programação não saiu como eu estava pensando; mas no geral foi bom. Com sucesso foi eleita uma nova direção com o dever de conduzir a associação e enfrentar os desafios de um assentamento recém-titulado. Voltamos para casa pelos “estreitos caminhos” com a alegria e sensação de dever cumprido de mais uma tarefa a respeito da organização dos camponeses em suas lutas pela terra no Território Livre do Baixo Parnaíba Maranhense.

 
José Antonio Basto
Urbano Santos-MA, 21 de Agosto de 2015
Militante dos Direitos Humanos
(98) 98607-6807
 


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A MARCHA E A TERRA GERAM FRUTOS


Explanada dos Ministérios - DF
Foi mais uma jornada cumprida em Brasília este mês de agosto; a marcha dos trabalhadores e trabalhadoras rurais que clamavam em uma única voz pela REFORMA AGRÁRIA urgente em nosso país. Juntos, reivindicávamos por nossos direitos garantidos por lei, mais de 100 mil pessoas de várias organizações do campo, das águas e das florestas dos 26 estados e do Distrito Federal iniciaram a grande marcha saindo do Estádio Mané Garrincha e seguindo para o Congresso Nacional pela explanada dos ministérios. É do saber de todos que no Brasil ainda não foi feito uma Reforma Agrária como o movimento social pretende: massiva, com gente, assistência técnica e produção agroecológica respeitando o meio ambiente e, sobretudo a biodiversidade. Também sabemos que desde 500 anos atrás a terra no Brasil sempre foi objeto de disputas, onde quem sempre venceu foi o latifundiário, restando apenas a violência para as camadas mais pobres: índios, posseiros, quilombolas, extrativistas... em fim camponeses e camponesas que sonham com a concretização de seus direitos sociais.

 
Parada final no Congresso Nacional
Pois até hoje não existe uma política séria realmente de Reforma Agrária, no decorrer da história do Brasil foram feitas várias práticas que tentaram realizar uma reforma, essas ações distribuíram algumas terras improdutivas, que não são de interesse de uma classe ruralista muito forte, mas que engessa em grande parte essa distribuição de terras porque essa classe também tem representantes no Congresso Nacional. Como exemplo de países desenvolvidos que fizeram uma Reforma Agrária de sucesso, acreditamos na prática que não é só dar a terra e ali desenvolver um cultivo, a Reforma Agrária é cercada de uma série de fatores e não somente uma política de assentamentos fundiários. Uma outra questão dos nossos tempos é o problema do impacto ambiental e o avanço desenfreado do agronegócio que nunca respeitou os territórios das comunidades tradicionais; sendo estas as verdadeiras protetoras das florestas, babaçuais, cabeceiras de rios, chapadas e brejos. O assassinato de camponeses e lideranças ativistas no meio rural tem sido muito preocupante; estados como o nosso Maranhão, Mato Grosso e o Pará são constantes essas atividades de desacato aos direitos humanos e da vida: casas de trabalhadores são incendiadas, famílias inteiras despejadas sem nenhum amparo social. Um estudo sobre assassinatos no mundo, divulgado pelo Escritório da Nações Unidas, aponta que o Brasil registra 11,4% do total de mortes do planeta, segundo esse estudo da ONU , 437 mil pessoas foram mortas em 2012 no mundo; desses, 50.108 foram no Brasil. As maiores taxas de homicídios no planeta estão na América Latina e África, afirma a pesquisa. Nesse momento de crise econômica as coisas estão piorando ao invés de melhorar, a má distribuição de renda e as concentrações de terras e riquezas só favorecem os mais ricos, empresários, órgãos do capital e latifúndios. A cada momento explode no Congresso Nacional um esquema dos desvios do nosso dinheiro que pagamos com altos impostos – PECs e emendas parlamentares são aprovadas por alguns deputados que bate na cara dos trabalhadores que sustenta a economia como é o exemplo do fator previdenciário e terceirizações. Os homens e mulheres do campo e das cidades do nosso país fizeram sua parte nos dias 11 e 12 deste mês, lutamos por nossos direitos sonhando sempre com melhorias. Na capital do país lembramos naqueles dias a memória daqueles e daquelas que começaram essa batalha há muito tempo atrás, companheiros e companheiras que tombaram corajosamente e deram suas vidas por uma palavra chamada “LIBERDADE”. A pauta das reivindicações foi entregue à Presidenta da República na tarde do dia 12. Voltamos então para nossos estados com mais um dever cumprido, acreditando que a MARCHA E A TERRA GERAM FRUTOS.

José Antonio Basto
Urbano Santos-MA, 17 de Agosto de 2015
Militante dos Direitos Humanos
Email: bastosandero65@gmail.com
(98) 98607-6807


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A saga do Bracinho entre a chapada e o brejal


Foi naquela data de 2011, onde os homens, mulheres, crianças e idosos juntos enfrentaram os tratores da Suzano em defesa do território que há muito tempo já vinham lutando para conseguir aquela área.  A reforma agrária tão sonhada em nosso país em seus pontos determinados, muitos daqueles que gritam vendo a passagem do tempo às vezes deixa até de acreditar em meio a tantas injustiças e desacato aos direitos humanos no campo. Falta de coragem não foi o caso do Irmão Francisco com seu grupo de guerreiros destemidos que estavam dispostos a brigar com a empresa que no inicio da questão até tentou enganar a associação com 400 hectares de terra. Mas algo de errado existia ali, a chapada era e continua sendo muito visada para as plantações de eucalipto e o brejo para a famosa captação de água ilegal nos caminhões-pipa. O pensamento coletivo da associação de requerer todas aquelas áreas não apenas as 400 hectares, mas muito mais para que assim as famílias pudessem trabalhar em paz num espaço suficiente produzindo seus sistemas agrícolas e coletando os frutos que a chapada oferece. Tanto tempo esperando desde os primeiros sentimentos do líder e patriarca da família o saudoso Gabriel Alves de Araújo que deixara seu legado de respeito e dedicação para seus filhos e netos. Não foi por acaso que a associação recebeu seu nome, diga-se de passagem, mas com certeza foi a homenagem mais merecida para tão importante pessoa. Naquele tempo o movimento social ainda estava com forças, as formações de trabalhadores rurais na diocese e nas próprias comunidades... seminários por todo Baixo Parnaíba abriram os olhos das lideranças em não desistir de lutar pelos seus sonhos. O Bracinho, assim como o São Raimundo, Lagoa das Caraíbas e Baixão da Coceira - estes povoados são exemplos na região de resistência contra o sistema agroexportador que sempre destruiu as chapadas, olhos d`água, nascentes lagoas, capões sagrados, bacurizais e florestas em geral. O modelo capitalista de expropriação das terras no Baixo Parnaíba nunca fez nada por estas comunidades tradicionais, além do legado de desrespeito ecológico e social. Em meio a tudo isso ainda há quem diga que o agronegócio assegura mais de 40% da economia no país, ele pode ter mesmo sua parcela de contribuição econômica, mas infelizmente não chega a suprir as necessidades dos homens e mulheres do campo, onde estes camponeses e camponesas das águas e das florestas conseguem através da agricultura familiar sustentar os mais de 65% do alimento que vai para nossas mesas. O povo do Bracinho vem fazendo parte dessa história de lutas: primeiro declararam guerra contra quem queria tomar suas terras, depois conseguiram o título de mais de três mil hectares, um assentamento que assim como tantos outros enfrentam agora outras batalhas burocráticas como é o caso do pagamento do título ao estado no valor de R$ 80.000 mil reais. A concretização da reforma agrária talvez seja a peleja mais árdua que os trabalhadores enfrentam, pelo fato do processo burocrático de atualização de dados nos órgãos competentes, uma vez que o estado nunca perde na jogada, pois já não basta os enfrentamentos, o tempo e derramamentos de sangue pela posse da terra - é neste caso que afirma-se em críticas que no Brasil ainda não foi feito uma reforma agrária massiva como rege o PADRSS – Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, existe apenas uma rudimentar política de assentamentos fundiários que não consegue atender as demandas – principalmente aqui no Maranhão, sendo o nosso estado um dos campeões em conflitos agrários e socioambientais. Se ver alegria na face da gente moradora do Bracinho que tanto se orgulha de terem lutado lado a lado e concretizado parte de sua vitória: o título (documento) que garante o direito de propriedade coletiva e social para o bem comum de todos e todas. Viva a luta da comunidade Bracinho no território livre do Baixo Parnaíba Maranhense!

José Antonio Basto
Militante dos Direitos Humanos

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Os bacurizeiros da chapada do meio


Era manhã cedo quando eu adentrava por aqueles velhos caminhos com meu alforje de lado e um frito em direção a comunidade Riacho Seco, nos extremos limites dos Povoados Guarimã e Cocalinho. Atravessava-se grotiões, tabocais e avalanches. Avistava-se ao sair da chapada do outro lado dos carrascos os bacurizeiros mesmo sem frutos, mas com suas flores e belezas naturais como obra do criador, aquelas arvores já quase em extinção em sua totalidade na chapada do meio. Os bacurizeiros ali dividem seu espaço natural com a ótica dos campos devastados por gaúchos. Aquela chapada que antes era um verdadeiro pomar natural com espécies diversificadas tais como: mangaba, puçá, pitomba-de-leite, murici vermelho e muitas outras, elas morreram; pássaros que ajudavam na distribuição das sementes já também não se ouve seus cânticos e batido das asas; animais silvestres como paca, veado, peba, tatu que ajudavam no equilíbrio da natureza já não se ver nem suas batidas; tudo isso causado pelo impacto ambiental e devastação descontrolada. Mas os bacurizeiros lá resistem tudo isso, mesmo sabendo que um dia poderão expirar no sopro profundo da inexistência. Eu descia daquela chapada rumo aos cocais pela grota da bicuiba trilhando as capoeiras das nossas antigas roças de mandioca. As veredas fechadas com cipós e macambiras, o riacho da bicuíba que alimenta os bacuris da chapada ainda resta em seu grau de pureza em meio à impureza da intolerância humana, pois sua nascente felizmente por pouco não foi atingida diretamente pela destruição. Descia pisando n`água levemente para não espantar as piabas, até que sai no caminho e nas casas do Povoado Pequi. Ficara então na lembrança a luta dos bacurizeiros da chapada do meio que enfrentam desafios para sobreviverem -, vivem na resistência assim como quase todos os bacurizeiros das belas chapadas do baixo parnaíba maranhense. Os bacuris são frutos especiais para nossa alimentação e sustentação da saúde: o bacuri é rico em várias vitaminas, possui alguns nutrientes em ​​quantidades notáveis de fósforo, potássio, ferro, cálcio e vitamina C, e é sobretudo consumido cru ou em forma de suco. Sua casca também é aproveitada na culinária regional e o óleo extraído de suas sementes é usado como anti-inflamatório e cicatrizante na medicina popular e na indústria de cosméticos. Precisamos preservar os bacurizeiros de todas nossas chapadas, pois se você não sabia o bacuri também traz muitos benefícios para nossa saúde: é considerado um remédio eficaz para picadas de aranha, é também utilizado no tratamento de problemas de pele e dor de ouvido, a manteiga de bacuri também é conhecida e ajuda na remoção de manchas na pele e renova o tecido de cicatrizes, o óleo de amêndoas do bacuri é utilizado para o tratamento de eczema, é considerado um remédio natural contra reumatismos, além disso o bacuri também é usado medicinalmente no tratamento de artrites. Esses são alguns dos tantos outros itens que o bacuri nos oferece. Infelizmente muitas pessoas não respeitam esses valores, destruindo os bacurizais, o bioma das chapadas, a biodiversidade... a vida. Precisa-se de ações e consciência ecológica! “Um outro mundo é possível”.

José Antonio Basto
Militante dos Direitos Humanos
email: bastosandero65@gmail.com

 

 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O poder discriminatório do agronegócio nas terras rurais do Baixo Parnaíba Maranhense


lavradores torrando farinha - comunidade Baixa Grande  = Urbano Santos /
imagem: J. A. Basto
A região de 21 municípios do Baixo Parnaíba – na mesorregião leste do nosso estado, grande parte das áreas em sua maioria chapadas é um espaço de disputas fundiárias no que se diz respeito à questão “terra”. O território de descendência cultural das comunidades tradicionais: quilombolas, ribeirinhos, brejeiros e chapadeiros... vem sofrendo um impacto ecológico e social causado diretamente pelo agronegócio do eucalipto e soja. O capitalismo selvagem e devastador puxado e financiado pelo setor agroexportador e apoio dos latifundiários é na verdade o grande responsável e vilão por essas mudanças socioculturais e a “discriminação” das comunidades rurais.
Intolerante além da conta, o agronegócio avança sobre as chapadas do Baixo Parnaíba, muitos assentamentos e áreas que estão em processo de titulações e regularizações para fins de Reforma Agrária são vítimas do veneno diabólico das imensas plantações de eucalipto e soja.
plantio de eucalipto - comunidade Santana = Urbano Santos /
imagem: Fórum Carajás 
Viajando para o município de Santa Quitéria saindo de Urbano Santos passa-se por alguns povoados como Mangabeirinha, Lagoa dos Costa e Bom Fim; naqueles caminhos o calafrio bate n`alma atravessando léguas e léguas de eucalipais. É triste ver as lamentações dos pouquíssimos pés de bacuris e pequis dentro dos campos dos monstros verdes e os disfarces enganosos das miúdas reservas deixadas pelo “EIA RIMA” que nunca funcionou.
plantio de soja no Baixo Parnaíba /
imagem: Fórum Carajás
No fio de comparação é simples entender a realidade, basta respostas para as seguintes perguntas como: Qual é a diferença entre uma comunidade tradicional e a ganancia extrapolada das empresas plantadoras de eucaliptos que usam do poder e da violência para a expropriação das terras?  Entre um bacurizal e um campo de eucalipto ou soja quem tem mais utilidade para o equilíbrio da vida e da biodiversidade? As populações se alimentam de produtos vindos da agricultura familiar ou dos sistemas monocultivistas destruidores dos ecossistemas? Fica mais que óbvio as respostas para tais perguntas. Os muitos problemas agrários e conflitos ainda não foram resolvidos, eles se arrastam e são frutos dos desacatos aos direitos humanos e da vida. Cemitérios são cercados por arames, os camponeses tem que pedir licença para enterrar seus mortos dentro de suas áreas sagradas é constante os casos de 
família camponesa vítima de despejo - Pov. Prata = Urbano Santos /
imagem: J. A. Basto
despejos e ameaças de trabalhadores: a justiça está de qual lado? Os tratores e correntões operam todos os dias cortando árvores do baixo ao auto, assustando e botando pânico nos animais silvestres e nos homens e mulheres defensores e defensoras das chapadas como é o caso do recém-assentamento Bracinho que infelizmente apesar de já ser reconhecido pelo ITERMA, enfrenta pelejas acirradas com a empresa nos arredores dos seus picos e fronteiras demarcadas. Os trabalhadores rurais herdaram dos seus avós e bisavós as áreas de chapadas, matas e brejais, pois desde tempos bem remotos que estas populações tradicionais conseguiram dominar as práticas no extrativismo, pesca e agricultura, conhecem os capões de mato, os buritizeiros, as mangabeiras, puçazeiras e terrenos bons para a casa de subsistência, que não é predatória. Pode-se imaginar que essas terras não tinham fronteiras geográficas como as modernas de hoje em dia, mas possivelmente já existia naquele tempo o chamado respeito. Esses respeito que não se ver mais nesses nossos dias; enxerga-se apenas a ganancia, a globalização e desacatos a cada momento.
roça de arroz - Pov. Prata = Urbano Santos /
imagem: J. A. Basto
As técnicas e saberes culturais das comunidades tradicionais devem ser mais valorizadas, a palavra é essa “valorização”, os produtos da roça são os que sustentam as mesas dos brasileiros, mas infelizmente os recursos destinados aos homens e mulheres do campo são resumidíssimos e quando chegam a valer. Já os grandes planos para a monocultura, estes tem um olhar especial dos governos.
Dona Madalena pelando peixe - Urbano Santos /
imagem: J. A. Basto
A realidade hedionda de maltrato em relação aos camponeses e camponesas só pode ser combatido com um grito alarmante dos movimentos sociais do campo, em Brasília com a Marcha das Margaridas, Grito da Terra Brasil, Grito da Terra Maranhão, espaços e seminários, congressos de trabalhadores e encontros de comunidades rurais, lutas das dioceses e paróquias, centros de defesa da vida, CPT, STTRs e acima de tudo a militância por concretizações de direitos sociais vinte e quatro horas lideradas pelos próprios membros das comunidades junto aos órgãos competentes. O Território Livre do Baixo Parnaíba foi criado e desenvolvido há milhares de anos atrás. Quem dele vive, viveu e sobreviveu com certeza sonhou e sonha que seus filhos e filhas viveriam e sobreviveriam como pessoas dignas de respeito e direitos.

José Antonio Basto
Urbano Santos-MA, 20 de Julho de 2015
Militante em Defesa dos Direitos Humanos e da Vida
(98) 98890-4162