terça-feira, 3 de julho de 2018

Águas belas... Belas águas

Riacho da Comunidade Rural de Pau Ferrado - Belágua-MA.

Águas que brotam na fonte
Nascem além do horizonte,
Cortam a mata e passa a ponte
Da terra sempre jorrar
Enfeita a natureza...
Sorrindo na correnteza
Brilhando com sua beleza
Numa noite de luar
"Águas claras, águas claras
São tão belas...
Belas águas do cantar".




A sombra bate na areia
Chuva que engrandece a cheia
Tão clara que encandeia...
No manto crepuscular,
Águas que se vão correndo
Deslizando e lhe dizendo
Mesmo não compreendendo
Na palavra a conversar...
"Águas claras, águas claras
São tão belas...
Belas águas do cantar".

Nuvens brancas lá no céu,
Compondo neste papel
Pássaro que canta fiel
Gorjeando sem parar
Chuva que desaba forte
Trazendo a grande sorte
Não teme medo da morte
Frutificando o pomar,
"Águas claras, águas claras..
São tão belas...
Belas águas do cantar".

Os velhos buritizeiros 
São os eternos guerreiros
Que vigiam o tempo inteiro,
Toda história a escutar!
Guardam as águas da alegria
Estão lá todos os dias
Compondo a poesia
Numa obra secular!
"Águas claras, águas claras
São tão belas...
Belas águas do cantar". 

José Antonio Basto







bastosandero65@gmail.com

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Um dedo de prosa com a água

Riacho do Assentamento Mangabeira - Urbano Santos-MA 

Conversava-se com a água, uma conversa sem palavras. O inverno fora muito bom! Chovia bastante de janeiro ao início de junho; talvez acima do limite esperado – mas a água do céu suspendera um pouco, o sol tem castigado ultimamente! Chega-se o período da colheita do arroz... Tempo de assar abóbora na fogueira de São João Hábitos e costumes que aos poucos vão se perdendo no tempo empoeirado pelas tradições culturais. Rios e riachos encheram e transbordaram em todas as regiões – alargaram-se além das margens, gerando grande fartura de peixes – esperando um futuro de tão poucos bons frutos na lavoura. A força acrisoladora da natureza é extraordinária – mãos medem forças... Acumulam e explodem na criação e no acreditar do “ser e escrever” o mais nobre dos cantos. A água não reclama! Reclamar pra quê? Recupera-se no contar dos dias marcados pela ampulheta. Há muitos séculos ela se formara – trilhando caminhos e léguas pelas florestas, descendo pelo sertão até chegar noutro afluente. Em fim a água completara seu ciclo; tornara prosa porque folheava e compunha sua própria história caminhando pela terra. Se foi... Esvai-se para nunca mais voltar.

José Antonio Basto



terça-feira, 19 de junho de 2018

O solo e o sol em Guaribas


O solo do Baixo Parnaíba é rico em tudo. Uma terra preta onde o que se planta dá com fartura. Há alguém que afirmara viajar pelo sertão do Baixo Paranaíba, sendo a dinâmica de aceitar desafios; poucos se arriscam perder-se por aquelas matas, chapadas e florestas de eucaliptos... Caminhos aplainados. Uma luta renhida, aventura - quando se decide escrever e lutar por alguma coisa – a escrita teórica se completa no monólogo prático de vivencias na íntegra – por isso a prosa sai quase que poética. Não se sabe o gênero, tampouco as formas de construção de palavras – pouco se sabe! Talvez as narrações apresentem ambiguidade e paradoxos – parecidas e inspiradas em “Grandes sertões: veredas” – do Guimarães Rosa, este o mais importante dos livros regionalistas que naquela época de forma romanesca já se narrava as coisas do cerrado brasileiro. O cerrado de Rosa pode ser interpretado como qualquer lugar do mundo – apresentando a vontade de descrever o que se pensa – sendo isto clássico ou não. Uma causa nobre em defesa dos menos favorecidos, esquecidos e desprovidos de direitos, falo dos camponeses.
Saia-se cedo da sede de Urbano Santos, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais tinha uma grande missão naquele dia: fundar duas delegacias sindicais nas duas Guaribas –, se passava pela primeira, parava-se na volta, porque a Guaribas III é mais distante já quase limitando com as fronteiras de Barreirinhas –  a Guaribas I que também é conhecida pela nomenclatura de São Bento,  fica mais próxima de sede da cidade – mas com muito mais problemas fundiários para resolver. O sol rachava e os vultos dos eucaliptos flechavam a vista. Há dias não se pisava na comunidade Guaribas – houve outros tempos; as situações politicas passam – as amizades e a terra ficam para sempre – muda-se apenas os atores. A caminhonete roncava por aquela estrada – podíamos ter adentrado via assentamentos Mangabeira e Mangueira – ficava muito longe; pois o edital da eleição da delegacia marcava a primeira chamada para 9:00h -, atrasava-se no sindicato por motivos maiores. As terras da Guaribas III compõe um território de cabeceiras de rios e riachos. O principal é o Rio Guaribas que passou por um processo de assoreamento e falta d´água. Vale ressaltar que as plantações de eucaliptos ficam bem próximas das casas – causando aí uma ameaça às famílias camponesas. O agronegócio tem uma parcela de culpa nesse impacto, ou seja a maior parcela – muitas comunidades no Baixo Parnaíba sofrem desse mal. A terra fértil de Guaribas III já criou muita gente – povoado de base histórica na formação das comunidades tradicionais - área de transição entre as chapadas e os campos de areia dos lençóis maranhense. Guaribas é o portal de entrada para os lençóis, ainda é esquecida e a situação de seu povo é rudimentar. Conhecida como grande produtora de farinha e tiquira de mandioca, o povoado merece destaque nas áreas de produção agrícola; as técnicas de subsistências são mantidas como sustentação da permanência ancestral.
O Zé Moura recebia democraticamente 44 votos de mais de 70 eleitores que lhe escolheram como delegado sindical e representante das causas sociais naquele povoado. O almoço de carne de porco foi preparado com grande carinho pela esposa do Raimundo – liderança comunitária e amigo de lutas pela reforma agraria desde muito tempo. O papel do delegado é interligar o Sindicato à comunidade – levantar os problemas do povoado e achar saída para solucioná-los: nas contribuições sindicais, questão de roças, criações e meio ambiente. Os buritizais da Guaribas III asseguram uma biodiversidade limpa e distante de monocultivos e agrotóxicos. As crianças acreditam no sonho de tempos idos, o rio de águas claras ainda tem muito peixe e diversas espécies de plantas aquáticas. As famílias camponesas usam a terra como fruto de subsistência levando em conta o respeito e proteção da mesma.
Após as atividades sindicais, partíamos de volta por outros caminhos descendo no Baixão dos Loteros - assentamento do INCRA, comunidade marcada no mapa de terras quilombolas no Baixo Parnaíba. Um pedaço do Baixão vem sendo negociado para ser comprado via Programa Nacional do Crédito Fundiário (PNCF) – beneficiando os jovens filhos de assentados. Cartávamos as veredas até sair na estrada de Barreirinhas. Anoitecia e o cansaço já tomava conta do corpo e da mente. Pois o dia foi recheado de grandes acontecimentos de nossa luta – apesar de termos sofrido um pouco com o sol escaldante que batia no chão de Guaribas III – aquecendo e frutificando o solo e o sonho desta militância em defesa dos direitos humanos e da vida. Sensação de dever cumprido.

José Antonio Basto

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Fazenda Mangabeira e a história perdida dos Balaios em Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense

José Antonio Basto - (pesquisa em Mangabeira - Urbano Santos-MA)

1839, em pleno apogeu da “Insurreição dos Balaios” – (Guerra da Balaiada) – a região do Baixo Parnaíba maranhense vivia sob intensos conflitos fundiários – e isso já vinha acontecendo desde tempos remotos, causados pela insatisfação do povo pobre do sertão. No inicio o movimento – que mais se parecia com uma guerrilha camponesa foi liderada pelo vaqueiro Raimundo Gomes e o artesão Francisco Manuel dos Anjos, além de muitos outros líderes de destacamentos que sustentavam as ideias da revolta popular, levando-as para além das fronteiras do Maranhão. O ponto de glória da insurreição é acentuado com ênfase na tomada da cidade de Caxias neste mesmo ano. A cidade de Brejo tornara-se quartel general dos revoltosos. A área geográfica pertencente ao município de Urbano Santos, naquela época era da Comarca de Brejo, como também Chapadinha, Anapurus, Mata Roma e Santa Quitéria. As fazendas importantes do território de Urbano Santos –, (ciclo das fazendas), que em sua maioria eram estabelecidas nas margens do Rio Preguiças: Boa União, Palmira, Bom Fim e São José das Mangabeiras, estas eram visadas tanto pelos insurretos, quanto pelas ações das forças legalistas do Exército Imperial que pretendia eliminar de qualquer jeito o movimento.
Canhão da fazenda Boa União, peça da Balaiada - Urbano Santos-MA
No ano seguinte e
m 1840, o governo solicitava anistia e a rendição de mais de dois mil Balaios, infelizmente, assim inviabilizando o corajoso e valente exército camponês. Poucos resistiram, a maioria foram derrotados – vítimas das táticas militares de Lima e Silva. A sublevação estava quase chegando ao fim – é nesse momento que o Negro Cosme entra na luta – 1840 - 41; o último líder rebelde que comandava mais de três mil negros e tinha como quartel general o seu “Quilombo Lagoa Amarela”, localizado na cabeceira do Rio Preto em Chapadinha.
Mapa da campanha de Caxias contra os Balaios
A Fazenda Mangabeira, em Urbano Santos – hoje um assentamento do Incra – naquele tempo era chamada de São José das Mangabeiras, de propriedade da “Família Bacelar”- que muito antes pertenceu a um Padre – sendo uma faixa de terra doada através da “Carta de Sesmarias” – com o nome “São Felipe das Mangabeiras”, por isso - São Felipe – nome dado ao Povoado Vizinho. Um casarão antigo que remonta a história perdida de mais de duzentos anos atrás.
Dona Marly entrega fontes de pesquisa a José Antonio Basto
A estrutura arquitetônica da casa é de origem portuguesa como o piso de ladrilhos, a varanda da recepção e as paredes revestidas de pedras. Relíquias são encontradas em decomposição dentro do mato no quintal da casa grande –, como um tacho de ferro do centenário engenho; sendo a prova viva da produção de açúcar, cachaça e melaço de cana fabricados em Mangabeira. Um fato curioso que tem como prova a existência da memória é um ofício do Prefeito do Brejo ao Vigário da freguesia Mangabeira, datado de 1839 – que se trata da denúncia da fabricação de pólvora caseira no lugar São José das Mangabeiras. É sem dúvida uma grande prova dos acontecimentos que por ali passaram. Segue na íntegra o referido ofício:                
DOC. Nº 30...
DO PREFEITO DO BREJO
AO: VIGÁRIO DA MESMA FREGUEZIA
Ilmo. E Reverendíssimo Senhor Vigário
Jerônimo Antônio de Proença Ribeiro
Foi-me denunciado que João Pereira Caldas, pessoas da casa de V. S., está na fazenda de V. S., denominada São José das Mangabeiras “fabricando pólvora”; e porque seja esta manufatura expressamente por lei proibida, acrescendo, ainda mais nas atuais circunstancias o ser bastante perigoso, segundo a proximidade em que estão os rebeldes da dita fazenda de V. S., e onde pretendem, segundo as noticias que se tem obtido, estacionarem-se; assim o levo ao seu conhecimento, para sua inteligência, a fim de que se inutilize semelhante fábrica, desonerando-se assim da responsabilidade que, aliás, tem V. S. perante o Governo legal do Senhor D. Pedro II.
De amor e zelo que V. S. tem pela tranquilidade pública, espero a mais rápida providencia.

Deus aguarde a V. S.
Prefeitura da Comarca do Brejo, 30 de dezembro de 1839.
Severino Alves de Carvalho
Prefeito da Comarca.
Panelão de ferro do antigo engenho - Fazenda Mangabeira - Urbano Santos-MA
Uma possível fábrica de pólvora não é algo comum nesta região – é algo extraordinário; um tão pouco difícil e quase que inédito; todavia demonstra que nossa história ainda tem muita coisa pra ser descoberta, ainda desconhecida por essas matas e lugarejos. A Balaiada na história de Urbano Santos está ligada não apenas na formação da comunidade Mocambinho, no final da guerra e os últimos acontecimentos em 1842, depois Mocambo e em seguida “Ponte Nova”, mas é sustentada cientificamente sobretudo pela existência do canhão da fazenda vizinha Boa União, a “Chapada dos Balaios” entre os povoados Bom Princípio e Areias e a estrutura da antiga fábrica de pólvora caseira da Fazenda Mangabeira, antes, São José das Mangabeiras.
Ladrilho da casa grande - Fazenda Mangabeira - Urbano Santos-MA.
Pontos importantes que merecem uma atenção especial levando em conta e consideração a construção de levantamentos e fatos da permanência histórica no município. Daí pode-se citar as linhas do cronograma (mapa), da campanha de Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), contra dos Balaios – quando este general foi promovido presidente da Província do Maranhão. As linhas ligam Icatú a Miritiba; Tutóia a Brejo e a São Luís; Itapecuru a Vargem Grande e Coroatá a Chapadinha e a Caxias, cortando então o território do atual município de Urbano Santos, servindo como prova das trilhas e combates de uma guerra que pode ser transformada em cartão turístico na região nordeste do Estado do Maranhão.    

Texto e imagens: José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com


segunda-feira, 14 de maio de 2018

A viagem que virou prosa


"Geografia do Viajante" - créditos: domínio público

Fazia um bom tempo que o Viajante não andava por aquelas estradas aplainadas – e ainda mais de moto. Naquelas estradas de piçarra o bom inverno castigava o destino –, pois chuva é bom de mais. É dela mesmo que precisamos! Fenômeno da natureza extraordinário. Lembrava-se mais uma vez do filme - “Diário de motocicleta”, o drama biográfico sob direção de Walter Salles – mostra a viagem dos jovens acadêmicos aventureiros Che Guevara e Alberto Granados - que fizeram pela América Latina em 1952 – traçando os acontecimentos em seu livro de memórias; dois loucos talvez percorreram 10.000 quilômetros a bordo de uma antiga motocicleta inglesa; conheceriam ali os problemas de saúde e descaso de várias políticas nas comunidades rurais da América Latina, razão essa pela qual Che se tornaria o maior revolucionário do século XX, admirado até os dias de hoje em todo o mundo.
Mas o Viajante não era o Che, apesar de suas atitudes, a pouca feição e apoio junto aos movimentos sociais e também a modesta capacidade de narrar os fatos da luta diária dos camponeses numa região agrária. O destino lhe levaria a uma antiga fazenda do século XIX – donde por lá os Balaios tinham passado há 139 anos atrás. Aquela fazenda tinha sido construída por uma família influente de descendência portuguesa – a faixa – (gleba), de terra, fora uma doação do presidente da província naquela época – hoje um Assentamento do Incra. Foi destinada a um padre – que pusera nome de santo naquele povoado. Poucos sabem ou se sabe ao menos do processo dessas terras na região de chapadas. A “Sociologia do domínio e das sesmarias” fizera com que os brancos herdassem grandes quantidades de terras, toda uma estrutura fundiária – (terras soltas e /ou devolutas). Uma comarca bem distante conseguia comandar comunidades de outras regiões. A casa da fazenda relembrava os casarões tombados pelo patrimônio histórico - obra de arte – que demonstra a capacidade arquitetônica de outros tempos. Sairia cedo rumo ao destino planejado – com o intuito de se conversar a respeito de algumas questões referentes à situação da terra. A conversa que prenunciava o almoço partia e se desdobrava para outros lados. O Viajante gosta de história e de livros, então encontrou uma pessoa que fala a mesma língua - daí fluía assuntos e mais assuntos – um tão pouco demorados, desde tempos de insurreições perdidas na história. Chegava a hora do almoço – tudo tinha sido preparado com muito carinho e respeito para receber o Viajante – um cardápio variado de comidas típicas, doces e bolos, lembrara as mesas fartas das telenovelas de época; valendo lembrar: “carneiro ao leite de coco, leitoa assada, sarapatel, galinha caipira e o angú de escravos”, – iguaria essa um tão pouco conhecida. Provava-se de tudo que tinha na mesa -, valendo acentuar como especial o “carneiro com leite de coco e o sarapatel de carneiro”. Avistava-se ali muitos pássaros nas gaiolas – uns cantavam de alegres – outros de tristeza. Os paredões da velha casa pareciam fortalezas e muralhas – um retrato vivo da imortalidade da história, esta, portanto perdida sobre o tempo. Tudo acertado sobre a questão da terra – que beneficiaria quase 50 famílias assentadas da reforma agrária.
Os caminhos abriram-se com o sol que inclinava para o nascente – com certeza anunciando muita chuva na parte da tarde. Por isso acelerava-se a conversa. Problemas surgiam entre erros e acertos de ambos os lados, normalmente é comum entre partes que disputam áreas de terra. O Viajante demorava, pelo papo literário - histórico que fugia do assunto principal. A viagem virou uma prosa falada e escrita ajudando na construção do entendimento teórico do passado. Em tempos difíceis muitos lutaram, alguns tombaram... Poucos viram a luz da liberdade. Nascia ali um diário sobre a pena que narrara sutilmente e surrealmente, cabendo à interpretação de cada um.

José Antonio Basto

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Santa Rosa Bacabal: a luta em vossas mãos...

Reunião com a Associação

Somos militantes em defesa dos direitos humanos. Ter acesso a terra é um direito humano e um direito social. Como militantes em defesa da luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, apoiamos uma reforma agrária certa como deve ser feita – ou pelo menos como deveria, com gente e desenvolvimento sustentável, com agroecologia. Por isso apoiamos sempre os menos favorecidos e quase sempre também esquecidos e desprovidos de direitos de nossa sociedade. A luta parte da organização social camponesa em seus meios de produção agrícola cultural, com uma pedagogia simples, eficiente e popular falando a língua das comunidades e mostrando os caminhos para que elas possam seguir em marcha rumo à liberdade.
Casa em Bacabal
Com fundamentação jurídica na “Lei das Comunidades Tradicionais” e na Constituição Federal de 1988 – nossa carta magna, sabe-se que a terra é de quem mora e trabalha nela, pois uma terra improdutiva que não cumpre sua função social, esta deve ser desapropriada para fins de reforma agrária beneficiando as famílias que lá vivem e a utilizam como instrumento de sobrevivência. Mas a concentração, grilagem e expropriação de terras no Brasil ainda é um problema comum que deve ser combatido, esse fenômeno repetitivo vem suprindo as necessidades individuais e financeiras de latifundiários e empresas do agronegócio que olham a terra como instrumento de lucro, capital e poder. O Estado do Maranhão ainda é o segundo na lista nos índices de conflitos no campo, atrás apenas do Pará.
Protocolo do "Embargos de Declaração" -, Associação e STTR
Ultimamente, há pouco mais de três anos de Governo Flávio Dino, o Maranhão tem diminuído o número de despejos e reintegração de posse; pois não se resolve também um problema secular como este nem em quatro ou oito anos de mandato. É importante acentuar e lembrar que nos antigos “Diálogos pelo Maranhão”, nasceu no Governo Flávio Dino a “Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular - Sedihpop” -, entidade que tem tratado e demonstrado interesse nesses casos, um tão pouco polêmicos. Infelizmente nesse sentido de ameaças de despejos de famílias camponesas ainda existe inseguranças da parte dos lavradores – é normal; como é o caso da Comunidade Santa Rosa Bacabal – zona rural do município de Urbano Santos, Região do Baixo Parnaíba.
Zé Sousa e seu neto -, vítimas de despejo no Pov. Prata 
Que ultimamente assistiu e sofreu na pele um pedido de antecipação de tutela movido pelo imóvel “Fazenda Santa Rosa Agropecuária”, onde a Comarca de Urbano Santos determinou que as mais de 30 famílias moradoras do Povoado Santa Rosa Bacabal abram mãos de suas posses e vão embora deixando suas 1.500 hectares de terra que a família proprietária se diz dona. O prazo foi de um mês para os camponeses saírem do lugar onde sempre viveram levando os seus pertences e, para onde vão, não se sabe; pois a justiça brasileira nunca fez questão de apoiar os agricultores familiares, muito menos saber de suas vidas. “Aí estar a injustiça e a insensibilidade” – dizia um amigo jornalista e militante social. O advogado da “Associação dos Pequenos Agricultores Rurais do Projeto de Assentamento Santa Rosa Bacabal”, apresentou o documento “Embargos de Declaração”, que visa suspender e alterar a sentença do processo no primeiro momento.
Jose Antonio Basto e o casal Zé Sousa e D. Maria vitimas de despejo no Pov. Prata
O Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Urbano Santos esteve dia 20/04/2018, numa calorosa reunião de apoio aos companheiros e companheiras agricultores (as), onde os mesmos se mostraram convictos e orientados a manter a resistência de qualquer formar, pisando firme na terra onde moram e trabalham desde tempos remotos.  

José Antonio Basto
Militante social pela reforma agrária

terça-feira, 10 de abril de 2018

O reconhecimento da obra de Sebastião Salgado e o reencontro de um camponês com seu passado de lutas

"Foices ao alto" - (foto: Sebastião Salgado)

Ele se reconheceria na famosa fotografia “Foices ao alto” do renomado fotógrafo Sebastião Salgado – este artista mineiro que foi internacionalmente reconhecido recebendo praticamente todos os principais prêmios de fotografia do mundo como prova de seu importante trabalho. Salgado que tem marca registrada nas técnicas em “preto e branco”. Quem diria aquele camponês se reconhecer em uma das fotos mais divulgadas e antigas de Salgado! Não se esperava um momento emocionante do velho Sr. Francisco Lopes dos Santos – vulgo Chico Mambira, rever-se novamente naquela fotografia, ele é o segundo da esquerda pra direita de chapéu com punho cerrado / braço erguido. Reconheceu-se e foi buscar sua esposa para lhe ver.
José Antonio Basto e Chico Mambira -, o mesmo da foto de Salgado
A foto foi utilizada como domínio público na capa do meu slide que prenunciava a “História da memória camponesa no Brasil”. Não fora por acaso que planejamos o Seminário de Formação Sindical com os Trabalhadores Rurais Agricultores (as) Familiares do humilde município de Belágua, Região do Baixo Parnaíba Maranhense, realizado em 16 de Março de 2018 – orientado e executado pelo “Grupo de Formadores Sindicais do Baixo Parnaíba”: Lúcia Vieira – Secretária Agrária da FETAEMA; José Antonio Basto – pesquisador e educador popular de Urbano Santos; Maria  Dapaz – Educadora Popular de São Benedito do Rio Preto e Desanildes Valentim – Educadora Popular de Urbano Santos. Levamos um tema um tão pouco polêmico e desafiador – uma provocação: “Terra, luta, Memória e Resistência do MSTTR”.
SLIDE
Durante o evento realizado na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores (as) Familiares de Belágua, tivemos um número suficiente de homens e mulheres do campo, a maioria da zona rural. Avançava-se nas análises de conjuntura com base na memória camponesa; pontos e trocadilhos do pensamento reflexivo que envolvia a situação atual das políticas sociais no Brasil – principalmente questões agrárias e trabalhistas. Acentos importantes foram apresentados em documentos de época no que diz respeito às ações camponesas nas décadas de 40, 50, 60, 70 e 80. Utilizando dados coletados pela CPT-MA, com fundamentação em duas grandes e históricas obras do Professor Alfredo Wagner: “Conflito e lutas dos trabalhadores rurais no Maranhão”, publicado em 1982 e, “Autonomia e Mobilização Politica dos Camponeses no Maranhão”, este com uma edição mais recente,
Livro I - do Prof. Alfredo Wagner
ilustrando um rico acervo de imagens e dados de conflitos agrários daquele tempo – um momento em que a luta começava na base e por terra; hoje se tem a terra, mas estamos perdendo os direitos conquistados lá no passado. O assunto abordado gerava um rico debate por parte de velhos militantes do movimento sindical e da (MEB – Movimento de Educação de Base) da Igreja Católica, levando em conta os acontecidos como os casos de violências e superação dos conflitos no campo nesta região Baixo Parnaíba -, inclusive o chocante assassinato de Zecandoca na década de 80 em Belágua e Bina Ramos do Povoado Surrão em Urbano Santos.
Ele se emocionara. E por pura ironia do destino reconhecer-se-ia na foto. Fez uma busca no passado e falou daquele episódio de 45 anos atrás -, durante a “Romaria da Terra” na Paraíba do Norte. Chico Mambira mora na Comunidade Pirinã – zona rural de Belágua, não detém de meios de comunicação tecnológica, reside num lugar distante de difícil acesso; vive com sua família da lavoura e dos frutos da terra, não sabe ler nem escrever é claro que também não sabia que aquela “fotografia” do qual faz parte, estaria disponível na internet, porém teve a humildade de pedir ao educador José Antonio Basto que a imprimisse para botá-la em um quadro e guardá-la como forma de boas lembranças das verdadeiras lutas de outrora.
Livro II - do Prof. Alfredo Wagner
Chico Mambira não conhece o Sebastião Salgado e nem Salgado lhe conhece, obviamente –, talvez uma ironia esta comparação, apesar de devermos entender do potencial cultural de cada um de nós, independentemente de fama, glória ou classe social. A foto está no “Museu de Maceió - AL e em outro “Museu de Paris”, mostrando a luta dos povos camponeses trabalhadores da terra – “a soberania política da organização social do campesinato na América Latina”. Tudo isso partindo do filme-documentário “O Sal da terra” dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, o documentário retrata o talento nato do fotógrafo, sua trajetória que mudara para sempre a fotografia no mundo, com um “jeito de olhar as coisas simples, enxergando seu grande valor”. Durante uma de suas importantes fases artísticas, Salgado concentrou-se na documentação do trabalho manual em todo o mundo, inclusive ”Os garimpeiros de Serra Pelada” e os indígenas do Brasil, publicada sob o nome de “TRABALHADORES RURAIS”, prestando serviço em várias agencias do Brasil e da Europa.

Participantes da formação 
Não caberia ali naquele momento entrar em detalhes sobre a vida e obra de Sebastião Salgado, apenas deixá-los a vontade desfrutando uma imagem forte e perseverante que representa, sobretudo a força do “Movimento Camponês” em seus parâmetros de organização social e política – seguido do conteúdo abordado. Um desafio aparecia para ser encaminhado em outras capacitações de camponeses pelo Maranhão. “Foices ao alto”, já tinha sido utilizada em diversos seminários e cursos de formações; possivelmente poucos sabiam do significado da foto. Chico Mambira se reencontrou com seus amigos de batalhas apenas na lembrança – viajava na linha do tempo sobre sua ótica há 45 anos atrás. Pois graças ao reconhecimento imortal da obra de Sebastião Salgado o velho camponês se reencontrou com seu passado de lutas.

José Antonio Basto
Assessor de Formação Agrária – STTR de Urbano Santos-MA
E-mail: bastosandero65@gmail.com