segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Do leste ao norte

O viajante atravessaria o Baixo Parnaíba rumando para o Piauí, parava em Milagres do Maranhão nas margens do rio. Antes disso atravessaria campos e campos de soja dos chamados gaúchos nos municípios de Anapurus e Brejo. Sem falar na grande problemática dos eucaliptos de Urbano Santos e Santa Quitéria. Sozinho de moto, lembrava do filme “Diário de motocicleta”,  o drama biográfico sob direção de Walter Salles – que traça a viagem dos aventureiros Che Guevara e Alberto Granados que fizeram pela América Latina. Os dois jovens conheceriam ali os problemas de saúde e descaso social das várias comunidades rurais de nossa América, razão essa pela qual Che se tornaria o maior revolucionário do século XX, admirado até os dias de hoje em todo o mundo.
O programa do agronegócio no Baixo Parnaíba nunca supriu as necessidades das comunidades rurais. O capitalismo no campo utiliza da violência  e muitos outros desacatos sociais e morais dirigido às populações tradicionais. A derrubada de amplas áreas do cerrado, a extinção de nascentes e o desaparecimento de nossos recursos hídricos caracteriza um quadro de injustiças criando portando uma situação de vulnerabilidade das famílias camponesas que tanto sofrem com essa problemática. As grandes extensões de terras dessa região devastadas pela Empresa Suzano que planta eucalipto e as fazendas de gaúchos que cultivam soja são na verdade as responsáveis por um processo de mudanças socioambientais. A expropriação de terras rurais marcara o início dos vários conflitos agrários numa divisa do pensamento ideológico, tanto dos representantes dos investimentos do capital no campo, quanto de alguns segmentos do sistema de posse e latifundiários. Devemos entender que “o Estado por meio de seus diferentes aparatos burocráticos, assume um papel de mediador fundamental no controle de acesso à terra”. Enfatizando, portanto, situações nas quais são executadas políticas legitimadoras do conjunto de açambarcamento de grandes áreas de terras - antes públicas ocupadas há séculos por segmentos camponeses praticantes verdadeiros da agricultura familiar e extrativismo. O agronegócio passou a integrar patrimônios particulares, grilando essas terras de cobertura florestal nativa que são nossas chapadas.
O viajante voltava ouvindo os cânticos de comunidades numa marcha de São Bernardo à Santa Quitéria, os companheiros lutavam em defesa dos direitos humanos na temática do controle social. O agronegócio da soja muito tem transformado os modos de vida das populações tradicionais e urbanas dos municípios do Baixo Parnaíba. A exportação da soja para os mercados europeu e chinês diz que gera desenvolvimento para o estado e gera mesmo. Mas as   comunidades rurais nada sabem disso e não desfrutam de nada, elas provam do legado de destruição de suas áreas. São João dos Pilões em Brejo é um exemplo: o pequizeiro, matéria prima para a fabricação dos pilões, cuias e outros utensílios já não são encontrados mais, a soja tomou de conta de tudo. Os artesãos tem que importar toras de pequi de outros municípios, a forma sustentável que eles aparam o pequizeiro não agride o meio ambiente... cortam um e plantam outro no lugar, fabricam os pilões para vender na beira da estrada.
De volta, o viajante parava em algumas comunidades, quilombos e assentamentos para conversar sobre os movimentos sociais no Baixo Parnaíba maranhense. As ações ainda vem sendo feitas, não como há dez anos atrás onde o fogo da luta animava nossos encontros de comunidades em defesa da vida, onde dinamizava os congressos de trabalhadores e formações de lideranças. Ainda resta fumava e o fogo não apagou. O Viajante voltava para casa depois de alguns dias cansativos, trilhando pelo território livre, formando e informando o povo sobre direitos e deveres, sobre a problemática que enfrentam, com uma solução pregada no cartaz de esperanças de novos tempos.

José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sem terra não há vida, sem vida não há terra: o tempo é o nosso maior professor!

Imagem J. A. Basto: (Cabeceira do Rio Preguiças) - B. Parnaíba
A vida é o bem maior de todos os seres, de todos que compõe uma biodiversidade. Todos necessitam desse bem comum. A natureza se reforma a cada dia, a cada situação em que os homens lhe agridem. Ela não fala nada, nem tudo. A terra é a própria sobrevivência é o canto dos pássaros, sãos migrações... São ninhos. Os rios correm sobre a terra, os mares se estreitam e se alargam, algo em comum! O camponês precisa da terra para plantar e dela sobreviver e as populações urbanas, só que de forma diferente. Um território só pode ser constituído com o devido respeito. Os frutos da terra que nos alimentam são formados do poder divino de transformação. A fé, a esperança de novos tempos enchem nossos sonhos de agonia para chegar logo essa nova era. Ainda há muitos entraves, o desrespeito dos mais fortes com os mais fracos. Os menores podem unir-se e formar um grande exército de combate, porque o sentimento de coletividade é o sentimento de união.  Alguém certa vez disse que as únicas desgraças cometidas sobre a “terra” são as mesmas desgraças com as quais nada aprendemos. Devemos ser humildes e não se aproximar da intolerância – julgando “ser” superior aqueles que nunca tiveram chances na vida, porque eles também são nossos professores assim como o tempo. Com isso um mestre dizia: “Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo”. Aquilo que colocarmos nela corre por nossa conta. Pois devemos viver em teoria, mas não esquecer que ela sempre acaba mais tarde assassinada pela experiência. As marchas geram frutos e os frutos são colhidos pelos que marcham e também pelos que não marcham. A sabedoria de Deus é superior a tudo; com seu grau de humildades faz chover nas roças dos bons e dos maus, porque ele não faz distinção de pessoas, cada um carrega sua cruz. No mundo espiritual cada um é o verdadeiro responsável por sua salvação. Um jovem poeta escreveu: “A razão de ser da vida é sua própria felicidade”. Precisamos navegar a cada momento, a cada mar, rios diferentes. Não podemos esquecer que, embora a alegria do presente exista, o futuro reserva outras a mais. Se antes a força do conjunto amparava as quedas, hoje estão preparados para aguentar as tramas da vida nem que tivemos que seguir sozinhos pulando as avalanches. Deixar para trás momentos plenos de união e companheirismo é doloroso, sabemos que é. Mas não podemos nos estagnar no tempo. É necessário seguir em frente, buscar nossos objetivos com muito esmero e dedicação, para encontrar o novo. Precisamos lutar lado a lado pelo bem maior de nossas vidas. A água. Sem água não há vida, então, certamente não conseguiremos sobreviver, a não ser que seja de forma desumana. Mas, não é uma incoerência tanta água na terra e muitas comunidades sem ela? Alguns podem se apressar em responder, não. Afinal, de toda água disponível no planeta, apenas algo em torno de 2,5% seria doce, ou seja, própria ao consumo humano. Pior ainda, desses 2,5% temos grande parte congeladas em geleiras, outra parte são águas subterrâneas, sobrando menos de 1% de água doce disponível em rios e lagos. A terra é nosso chão de batalhas. A vida está fincada na terra e a terra sob a existência dos tempos.

José Antonio Basto

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A FUMAÇA DA CARABINA “Um passeio pela Balaiada do século XIX – 170 anos de início da revolta popular”

     
          Eles rondavam o sertão a procura da terra, grandiosas faram suas batalhas e ideologias em defesa de um mundo melhor. Corajosos, saíram da Vila de Manga rumo ao Baixo Parnaíba, eram os vaqueiros rebeldes. Adentraram chapada a fora atravessando vilarejos, escondendo-se dos legalistas e formando o povo. Talvez tirasse da selva sua alimentação, suas famílias ficavam sob a proteção de guerreiros.
      
Balaiada - revolta popular - (13/12/1838)
Os heróis eram aqueles vaqueiros, quilombolas, caboclos, camponeses pobres, índios e artesãos que sob a coragem de lutar por um ideal desafiaram o poder provincial do país. Mas existem mentiras em algumas páginas da história, porque quem a escreveu às vezes foi quem torturou os mais fracos. Os papeis mostram que a insurreição começara em 13 de dezembro de 1838. Sabe-se que a população do sertão maranhense já vinha sofrendo e se revoltando muito antes do fato de Vila da Manga; houve na verdade várias balaiadas; muitas revoltas contra as atrocidades dos fazendeiros, latifundiários, escravocratas que herdaram a estrutura fundiária no interior do estado. O que foi a Balaiada? Uma “insurreição”, “rebelião”, “revolução”, “sublevação”, “guerra civil”, “movimento revolucionário”, “revolta” ...? Tudo isso ela foi. Foi na verdade a insatisfação do povo humilde, dos analfabetos, das camadas mais pobres e miseráveis do interior, atores que fizeram o movimento. A Balaiada foi uma guerrilha camponesa, um levante que durou quatro anos de lutas entre nossos irmão e as forças militares do império, indo de 1838 a 1842. Alguns tentaram tirar proveitos dos corajosos rebeldes -, os “bem-te-vis”, que acovardaram-se e no auge da radicalização da revolta caíram fora. Nossos heróis cravaram seus nomes no imaginário popular, como o povo poderia esquecer de tamanho feito em busca da liberdade e pela igualdade de direitos. Um salve aos nossos líderes incansáveis que sonharam um dia, entre esses vultos o Raimundo Gomes, o Balaio, o Negro Cosme e todos os outros que tombaram.
       O sangue que regou o chão das chapadas do sertão do leste maranhense ainda hoje clama por justiça nos esconderijos e mocambos. Tentaram apagar os feitos que os verdadeiros heróis deixaram, o legado de sonhos e esperança. O movimento teve como espaço o nosso sertão, as veredas por onde ouve muitos combates marcaram as embocaduras do litoral, as imediações do rio Parnaíba, do Itapecuru e do Munim, adentraram região do Baixo Parnaíba afora penetrando nos atuais municípios de Barreirinhas, Tutóia, Araioses, Brejo, São Bernardo, Buriti, Milagres do Maranhão, Chapadinha, Urbano Santos, Vargem Grande, Nina Rodrigues, Icatu e Umberto de Campos. Muitas pelejas, vestígios ainda restam em valas e boqueirões. Os rios estão lá para contar o que passou.
       Guerreiros balaios de ontem e de hoje, os tempos se foram, as lutas continuam as mesmas. Os problemas de desumanidade, de desacatos aos direitos humanos, de impactos ambientais que atinge os camponeses e camponesas são os mesmos ou até piores do que os daquela época. O chão é o mesmo, as comunidades também. As armas se transformaram, outras continuam sendo os bacamartes e granadeiros de sempre. Aqueles heróis foram os pioneiros que num grito de dor utilizaram da força do braço e do pensamento para construir suas bandeiras em busca de respeito e dignidade. Esse capítulo importante está gravado no panteão dos mártires e na “fumaça da carabina” que se perpetuou nos ventos da história.

José Antonio Basto



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

As barreiras do sagrado chão

     Um dia o viajante passara por aquela região denominada Baixo Parnaíba, um lugar sagrado na mais distante geografia do leste. Ao chegar, ficou ali sua bandeira de lutas, o estandarte que se perpetuou de geração para geração. A terra era vermelha... tudo que se plantava procriava numa fartura entanto. Muitas matas por onde já tinha acontecido guerras e combates sangrentos em busca da conquista da terra séculos atrás, tempo em que leis não valiam nada, exceto para os poderosos! Os rios perenes desembocam um a outro assim formando bacias importantes -, justamente nesses rios que apareceram esconderijos cavados sob grutas e grotas. Um dia passeando pelo cerrado ouvi o ronco da espingarda!  Gritou seu tiro para outras bandas, eram caçadores das comunidades tradicionais que vigiavam as variantes defendendo seu território de coletas de frutos e agricultura.
      O imaginário era o próprio chão – pois a terra se interligava com as ações dos povos que residiam ali... pessoas que sobretudo eram suas protetoras. Esperam respeito e valorização de direitos garantidos, mas não aplicados. Hoje tudo mudara... a ganância, a arrogância e o avanço do capitalismo que vem para destruir aquele espaço cultural é o que nos preocupa. Grandes batalhas haverão de dá início na briga pelo bem maior dos seres humanos: a água. O líquido valioso que ninguém consegue fabricar e necessita dele diariamente para beber, lavar, cozinhar... para viver, o corpo humano é derivado de água. Este bem maior, carência de todos nós desaparece a cada momento, com a culpa da mão do próprio homem que não pensou no passado para viver no futuro. O que faremos para rebater tamanho desastre contra o meio ambiente? Fica uma incógnita para formulação de nossa consciência.
      O viajante pegava seu alforje, sua máquina de escrever, papeis, livros... seus pertences e sua mala, seguia pelas veredas do sertão arenoso saindo da chapada, adentrando nos portais dos lenções de lagoas cristalinas e cajueiros deitados sobre o chão. O Oceano Atlântico findava no horizonte sob a ótica poética com sua imensidão poderosa capaz de fazer pensar em novos tempos de esperanças.  Ali anoitecia e amanhecia, virou-se portanto uma morada e um mausoléu do artista, tendo como sua fortaleza “As barreiras do sagrado chão”.

José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

As palavras do índio Apinajé em defesa do seu território sagrado - (Seminário Nacional “MATOPIBA: conflitos, resistências e novas dinâmicas de expansão do agronegócio no Brasil” – Brasília, novembro de 2016)

José Antonio Basto e Antonio Apinajé - (CONTAG - Brasília-DF)
Antonio Apinajé é o nome dessa personalidade das florestas do Tocantins. Um homem inteligente, intelectual e, sobretudo informado das notícias que rondam o mundo, com seu rádio, sua TV, seus livros e jornais. Ele fazia sua fala no início do Seminário Nacional “MATOPIBA: conflitos, resistências e novas dinâmicas de expansão do agronegócio no Brasil” – realizado de 16 a 18/11/2016, na sede da CONTAG em Brasília-DF. Transcrevia sobre uma “abordagem histórica das ameaças e impactos ambientais sobre as comunidades tradicionais”. O MATOPIBA seria o ponto principal de sua indignação; um programa de autos investimentos estrangeiros e nacionais que visa ocupar a região do cerrado brasileiro com suporte no avanço incontrolável do capitalismo sobre o campo, sobretudo as especulação e espoliação de terras que são por direito dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Mas essa política não é coisas dos dias atuais, o cerrado já tinha sido visado por programas do capital estrangeiro desde a década de setenta. Governos passados pretendiam a ocupação desse território, a exemplo do PRODECER – (Programa de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados), assinado entre o Brasil e o Japão. O programa durou por mais de 35 anos. Hoje o cerrado, conhecido como berço das águas, onde se encontram cabeceiras dos principais rios brasileiros, estar sendo devastado pelo agronegócio e criação de gado. Esse espaço cultural deve ser protegido pelos povos que tiram sua alimentação da terra e das águas, precisam do cerrado para se reproduzir cultural e socialmente, segundo dados de algumas pesquisas de universidades e do movimento social afirmam que: 52% deste bioma já foi destruído, 62 litros de agrotóxicos são consumidos por ano pelas pessoas no Mato Grosso, 901 espécies da fauna e flora estão ameaçadas de extinção, o agronegócio expulsa os povos e comunidades tradicionais protetores da biodiversidade do cerrado, 6 bacias hidrográficas brasileiras são abastecidas pelas águas do cerrado, 80 etnias indígenas estão na região do cerrado. Esses são alguns índices que marcam a grande problemática das mudanças socioambientais no cerrado; sem a preservação desse bioma não teremos chuva para abastecer nossos rios, água para beber e lavar, nem alimentos da agricultura familiar em nossas mesas. O Seminário foi encabeçado pela Campanha nacional: Sem cerrado, sem água, sem vida. Durante o evento cheguei a conversar com o Antonio Apinajé, ele contara sobre sua experiência vivida na aldeia Areia Branca – município de Tocantinópolis –TO, suas crenças e modos de vida. Contara como nasceu seu povo apinajé há milhares de anos atrás: duas cabaças fora jogada no rio Tocantins e dali nascia o homem e a mulher, procriaram e deram frutos para a grande nação Apinajé que cresceu nas margens do Rio na região do Bico do Papagaio.  O sábio índio Apinajé informava que das 26 aldeias que compõem a reserva, uma das mais antigas e importante é a sua, a Areia Branca. Falava com gosto e convicção, muito participou das intervenções durante os três dias de seminário. Em todos os momentos, naturalmente ele compartilhava frações de sua sabedoria nata, os participantes silenciavam durante sua voz, ficávamos impressionados com tamanho grau de pura sabedoria. “Não somente sobre a vida indígena, mas também um lado politizado e informado – tanto no cenário nacional quanto internacional – que atropelaria o discurso cansado de qualquer intelectual de sala de aula”. “Não impressiona que um índio seja tão inteligente, pois pensar isso seria colocá-lo como um inferior o que realmente não é”, pois ainda temos muito que aprender com os indígenas, com os povos e comunidades que residem nesses territórios. “É de uma grandeza natural a inteligência do homem por si só, seja índio ou não”. Eis aí um grande clichê completamente desmantelado: a mídia e outros setores que tentam bagunçar a luta dos povos, sustenta o discurso intolerante de que o índio só sabe dos segredos da natureza”. Uma grande desinformação! A partir do contato com Antonio Apinajé e outras lideranças durante o seminário, índios e quilombolas -, percebi que a preocupação em estudar, buscar novos conhecimentos, manter-se atualizado e ligado nas mobilizações sociais que acontecem reserva e quilombo afora é de boa parte deles e delas. Como bem disse um deles, durante uma das nossas conversas, “eu cursei a universidade da vida, do cabo da enxada”, em outro momento, lista os inúmeros livros que leu ultimamente. As comunidades tradicionais que entre aspas são protegidas por lei, ainda tem muito que lutar pelos seus direitos. Algumas pequenas conquistas foram esquecidas pelos governos e ainda mais agora nesse momento de transformação política. A terra como instrumento de capital e poder, em especial tratando sobre o cerrado, hoje em dia passa por um processo de recolonizarão, desrespeito e desacatos aos direitos humanos. Existe um desafio para as Aldeias Apinajé, que é manter suas formas de vida tradicional em meio ao grande crescimento dos vários problemas em suas áreas que vai da grilagem de terras por parte de fazendeiros ao avanço do agronegócio por empresas desconhecidas.
José Antonio Basto
Militante em Defesa dos Direitos Humanos e da Vida
E-mail: bastosandero65@gmail.com
(98) 98607-6807







sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CONSCIÊNCIA NEGRA XI - (Zumbido pela liberdade)




I
Cantavam um canto ecoando
Nos braços da luz voando...
O mais nobre sentimento,
Era um grito de agonia
Soando o som da magia
Contra as correntes do tempo.

II
A voz ainda gritava!
- Meu Deus onde eu estava!
Quando desapareci!
Os rastros pelo sertão
Combatentes da nação
Mudai as regras. Entendi!

III
Muitos papéis enrolaram
Trezentos anos se foram
De chibata e desrespeitos
Busquemos de longe o valor
De três séculos de dor
Maior tragédia defeitos.

IV
Cansados! Nunca, jamais!
- Cadê meus filhos e pais?
- Perguntava a voz outra vez
Sobre uma face estridente
Como as águas correntes
Emblemava a sensatez.

V
Ainda há sonhos por vir
Em leis que hão de florir
Na mão, na marra ou na dor!
Para que ainda esperar!
Se a vontade de lutar
É quem nos une em fervor.

VI
Fumaça corre nas ruas
A Constituição acentua
O direito unificado,
Companheiros de batalha
Aguçam e amole as navalhas...
- Capoeira vai gingando.

VII
Povos bisnetos dos “Bantus”
Acelerai os seus cantos...
Em agogôs e tambores,
Resgates dos ancestrais
Tocais os seus berimbais!
Denunciando os horrores.

VIII
Da carabina ao fuzil
Em moléculas que sentiu
Nada pode mais dizer,
Companheiros de batalhas
Preparai suas navalhas!
Porque nós vamos vencer!

IX
Jorra o sangue da história
Em atropelo a memória...
Nas terras do coração!
Nisso tudo o que mudou?
Nada na linha passou...
Ainda existe escravidão.

X
Neste enredo das vozes
Desafiaremos os algozes
Com fé, batalha e verdade,
Jovens, adultos e crianças...
Companheiros da esperança
Zumbidos da Liberdade”.

José Antonio Basto
Brasília-DF, 18 de novembro de 2016.
- Militante em defesa dos direitos humanos na Região do Baixo Parnaíba maranhense
(98) 98607-6807

- Essa é uma voz do povo negro brasileiro. Em homenagem ao “Dia Nacional da Consciência Negra” – 2016. Ao Seminário Nacional sobre os problemas socioambientais do MATOPIBA, realizado de 16 a 18/11/2016 em Brasília e, sobretudo aos 321 anos do assassinato de Zumbi dos Palmares. Acentuando ainda em especial a luta atual dos negros e negras rurais e urbanos, suas lutas e desafios em busca da concretização dos seus direitos civis. Autor.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O que enche nossos sonhos de esperanças no chão de luta em que vivemos

     O destino do viajante que coordenara os representantes das comunidades do município de Urbano Santos era a cidade de Brejo. A velha cidade que no tempo de vila se tornara “quartel-general” dos corajosos rebeldes da insurreição dos balaios, ainda em 1839. Mas agora os tempos são outros. A reunião em 07/11/2016 seria uma audiência pública com os representantes do ITERMA – “Instituto de Terras do Maranhão” – em nome do Governo do Estado, com as comunidades que necessitam das regularizações fundiárias na Região do Baixo Parnaíba maranhense. Essas comunidades que já não aguentam mais esperar pelas vontades de quaisquer governos, desde os que passaram, o atual e os que hão de vir. Leonardo Boff, escritor, ativista ambiental e pai da Teologia da Libertação, dizia que “A luta pela Reforma Agrária é uma luta pela vida”. “Quando se trata da luta pela terra, pela água, pela segurança, por uma sociedade justa, igualitária e fraterna, estamos tratando da luta pela vida”, acrescentava Pe. Chagas, Pároco do município de Buriti de Inácia Vaz e coordenador do Fórum em defesa da vida do Baixo Parnaíba.
     A audiência começou com as várias e velhas denúncias dos representantes das comunidades dos municípios de Urbano Santos, Beláguas, São Benedito do Rio Preto, Chapadinha, Brejo, Milagres, Santa Quitéria, São Bernardo e Anapurus. Muitos problemas em todos os aspectos no que diz respeito às terras devolutas do Estado, terras soltas que esperam ser arrecadadas desde décadas passadas, são os trabalhadores e trabalhadoras rurais que moram nelas, por isso merecem respostas concretas do governo. O Território do Baixo Parnaíba, suas chapadas foram engolidas pelo agronegócio da soja e do eucalipto, basta olhar os grandes campos na estrada que liga Chapadinha à Anapurus e Brejo, o que antes era chapada, hoje só se ver deserto, aquelas áreas das comunidades tradicionais foram griladas por gaúchos e por outras empresas. A comunidade São João dos Pilões em Brejo que vive do artesanato do da fabricação de pilões, cumbucas e outros utensílios da madeira de pequi expostos na beira da estrada para a venda, não encontra mais a árvore em suas chapadas, suas áreas foram desmatadas pelos gaúchos, por isso compram troncos de pequi de outras regiões para a demanda dos pilões. O processo burocrático da conquista da terra pelos camponeses não é uma questão fácil, pois a luta não depende somente da vontade e da coragem dos lavradores, o Estado é o responsável pelo processo técnico e pela garantia da segurança e proteção dos homens e mulheres do campo.
     Os antecedentes de nossa história não marcam uma página bonita de se ver na luta pela terra no Estado do Maranhão – principalmente quando se fala dos camponeses pobres das comunidades rurais e quilombolas. Esse sentimento não é coisas de nossos dias atuais. Quando olhava o sertão da janela do carro que nos levou a Brejo, lembrava de quando o grupo do vaqueiro Raimundo Gomes e de Francisco dos Anjos (líderes da Balaiada (1838-1842), já se deslocavam de um lugar para outro combatendo naquela época com os grandes proprietários de terra, coronéis, latifundiários e o governo que oprimia os menos favorecidos e desprovidos de direitos. Os balaios lutavam por respeito, dignidade, pela vida, contra a escravidão... pela liberdade. Desafiaram o Império Regencial, mas como sempre, nosso estado repressor utilizou da força militar para massacrá-los. Restou em nosso meio a história de coragem dos caboclos rebeldes que deram os primeiros passos dessa batalha que se trava até os dias de hoje. A reunião foi proveitosa, no espaço de muitos encontros e eventos organizado pelas entidades de apoio ao movimento social, local esse que me refiro é o “Salão do Centro Diocesano de Brejo” – Seminário Santo Antonio. Em suas paredes estão mensagens de eventos e frases de solidariedade à nossa luta, a que mais me chamou a atenção foi o cartaz da Campanha da Fraternidade 2017, com o tema: “Biomas brasileiros em defesa da vida”. O evento terminava com as frases ecumênicas e românticas do Bispo D. Valdeci, que apelava para a organização dos trabalhadores, dos menos favorecidos, sustentando teses que lia na bíblia e contextualizando nas vivencias do dia-a-dia. Suas palavras e a experiência da coletividade nesta luta renhida travada desde séculos remotos é “O que enche nossos sonhos de esperanças no chão de luta em que vivemos”.  
 









José Antonio Basto
Militante em defesa dos direitos humanos pela Reforma Agrária

E-mail: bastosandero65@gmail.com