sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Do Mocambo ao Rio dos Pretos


José Atonio Basto - Pov. Sapucaia - "Encontro do Mocambo com o Rio Preto". 

Mocambo e Rio dos Pretos – dois nomes incomuns. O primeiro representa uma antiga denominação dos aldeamentos de escravos fugidos das fazendas, Mocambo na “Língua Kimbundu” – ainda falada na África na região do noroeste de Angola-África, quer dizer “esconderijo ou refúgio para as matas”, o mesmo que “quilombo”. Ainda acentuando, Kimbundu é umas das línguas nacionais de Angola – “do povo banto. O Português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos durante a colonização portuguesa no território angolano e através dos escravos angolanos que vieram para o Brasil. 
Mocambo também é o rio que corta a cidade de Urbano Santos, foi muito importante na época da insurreição dos Balaios no século XIX. O Viajante saia da sede de Urbano Santos rumo ao Povoado Bebedouro que fica sob as margens do Rio Preto – ou “Rio dos Pretos”, como era chamado antigamente. Teria uma tarefa na “Associação dos Trabalhadores Rurais do Povoado Bebedouro” – um Projeto de Assentamento para fins de Reforma Agrária que beneficiará 32 famílias camponeses que vivem do trabalho agrícola e do extrativismo. A terra de relevo, chapadas e carrascos – limitam com o “Rio dos Pretos”.

Rio Preto ou "Rio dos Pretos"- Comunidade Bebedouro - Urbano Santos-MA.
Muitas criações de diversos animais, mas o que predomina é a de cabras e porcos. Do outro lado se observa a serra da Comunidade “Porções” – município de Chapadinha. Povoados e territórios trilhados há cento e setenta anos atrás pelos Balaios que por ali se escondiam das forças da legalidade. O “Mocambo” se interliga com o “Rio dos Pretos”, algo se interliga com a história nas duas nomenclaturas: “Preto e Mocambo”. Os dois fazem parte da “Bacia hidrográfica do Rio Munim” – este também que assistiu muitos combates da Balaiada. O Viajante refletia sobre todos esses assuntos, mas a direção do pensamento inquietava, se reuniria com os moradores de Bebedouro para falar do processo da terra e dos programas sociais de habitação rural. A “Reforma Agrária é a reorganização da estrutura fundiária com o objetivo de promover e proporcionar a redistribuição das propriedades rurais, ou seja, efetuar a distribuição da terra para a realização de sua principal função social. Romanticamente a terra é de todos e para todos. Houve um dia em que as sociedades primitivas faziam do trabalho um feito para suprir as necessidades básicas e imediatas do grupo familiar; não havendo preocupação com acúmulos ou sobras, portanto a terra pertencia a todos e não havia escravidão. Os tempos mudaram e as sociedades partiram para o capitalismo. O território de “Bebedouro”, “Juçaral” e “Todos os Santos” muito tem sofrido com problemas socioambientais que vai da expropriação de terras, conflitos e impacto direto nas comunidades tradicionais. Os trabalhos seriam realizados na sede da associação.
Rio Mocambo - Urbano Santos-MA.
Dona Raimundinha - antiga militante das CEBs e filha do Sr. Calixto - primeiro morador do Bebedouro, fala dos grandes desafios que os morares enfrentam no dia-a-dia. Comunidade carente, mas consciente da luta pela terra. Receberam o titulo de desapropriação e agora partem para outros projetos. As casas cobertas de palha e paredes de taipa – ainda deixa escrito nas veias do tempo que as desigualdades sociais ainda é constante em nossa sociedade.   

O Viajante retornava pelos caminhos aplainados e cobertos de eucaliptos que sumiam no horizonte. As flores de bacuri e pequi enfeitavam as chapadas, sinal de uma boa safra dos frutos no ano quem vem. Marcava-se no mapa a trajetória do “Mocambo ao Rio dos Pretos”. E vice-versa; a terra avermelhava o chão da chapada. 
José Antonio Basto





quarta-feira, 25 de julho de 2018

MOCAMBO

Rio Mocambo - Urbano Santos-MA.
Nascia um novo caminho
Pregando a nobre verdade
Corria as águas em chama
No fogo da liberdade.

Era o Mocambo de lutas
Escrito em um cartaz
Balaios que desejaram 
Pão, terra, água e paz.

Na epopéia dos tempos
Disparava no sertão...
Bacamarte a tiracolo
Estrondava n`amplidão!

Solo vermelho ficara 
Nas trincheiras lá da serra
Insurretos corajosos 
Que lutaram nesta terra.

E o rio vai descendo 
Testemunhando a certeza
Entre matas e brejais 
Compondo a mãe natureza.

Pujante o sonho de ontem
Resplandecia em glórias 
Escrevendo seu capítulo
No “panteon” da história.

José Antonio Basto 
*Em memória aos valentes insurretos que encontraram refúgio seguro sob as margens do Rio Mocambo no final da Balaiada, entre 1841 a 1842. Iniciando-se a partir de então a origem do primeiro vilarejo chamado Mocambinho, depois Mocambo, mais tarde Ponte Nova, hoje Urbano Santos.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

RIO PRETO E OS BALAIOS

"Rio Preto" - Comunidade Bebedouro, Urbano Santos-MA

O Rio Preto – ou “Rio dos Pretos” – como era chamado antigamente, nasce numa região de brejos e chapadas na localidade de “Saquinho” no município de Buriti de Inácia Vaz – no meio do Baixo Parnaíba, servindo de divisa entre os municípios de Anapurus, Mata Roma e Chapadinha... Desaguando no Rio Munim. Lugar esse que abrigou os valentes Balaios liderados por Negro Cosme e Raimundo Gomes. O Rio Preto foi muito importante no processo da construção de esconderijos e extralegais militares dos insurretos que viviam fugindo das perseguições das forças legalistas do exército imperial.
"Criação de Cabras" - Com. Bebedouro - U. Santos-MA.
Possivelmente no inicio de tudo, este rio tenha sido descoberto pelos Índios Anapurus, da Tribo e tronco Tupi, sendo estes os primeiros habitantes da desta região. Segundo alguns historiadores, os índios Anapurus eram nômades, chegaram a ocupar terras litorâneas e do interior do nordeste e meio norte, mas em razão do choque cultural com os colonos europeus, se dividiam em pequenos grupos que procuraram migrar para várias regiões além do litoral marítimo. Baseados nesses fatos, todos os historiadores acreditam que os habitantes primitivos da cidade de Chapadinha por exemplo devem ser os índios Anapurus e seus descendentes da Tribo Tupi. Em face da topografia plana e da cor das mulheres primitivas que habitavam o local, daí o povoado era conhecido como “Chapada das mulatas”. O Rio Preto que tem águas barrentas e não escuras como o Rio Mocambo de Urbano Santos, foi batizado com esse nome por causa da presença de quilombos em suas margens na época da Balaiada, como por exemplo o “Quilombo de Lagoa Amarela” liderados por Negro Cosme e o “Quilombo de Bom Sucesso dos Pretos”,  entre Mata Roma e Urbano Santos – que é uma “Terra de Preto”. Sua água é apropriada para matar a sede do gado, acreditando ser nutritiva para as reses se desenvolverem, diferente de outras águas – fato esse que se configura na presença de muitas fazendas no decorrer das formações dos Povoados. As comunidades tradicionais usufruem das águas do Rio Preto também para pescar; plantam culturas básicas da agricultura familiar nas baixas após a passagem do inverno.
Sr. Raimundo - fabricante de jacás - (cestos) - Bebedouro
Ao longo de seu percurso as encostas laterais são cobertas de matas rasteiras e arvores todas, morros e vales – apropriados para a criação de bodes (cabras) e outros animais que serve como fonte de renda e alimentação para as comunidades rurais. Um município do Território do Baixo Parnaíba recebeu o nome em homenagem ao rio que corta a cidade: “São Benedito do Rio Preto”.

José Antonio Basto





terça-feira, 3 de julho de 2018

Águas belas... Belas águas

Riacho da Comunidade Rural de Pau Ferrado - Belágua-MA.

Águas que brotam na fonte
Nascem além do horizonte,
Cortam a mata e passa a ponte
Da terra sempre jorrar
Enfeita a natureza...
Sorrindo na correnteza
Brilhando com sua beleza
Numa noite de luar
"Águas claras, águas claras
São tão belas...
Belas águas do cantar".




A sombra bate na areia
Chuva que engrandece a cheia
Tão clara que encandeia...
No manto crepuscular,
Águas que se vão correndo
Deslizando e lhe dizendo
Mesmo não compreendendo
Na palavra a conversar...
"Águas claras, águas claras
São tão belas...
Belas águas do cantar".

Nuvens brancas lá no céu,
Compondo neste papel
Pássaro que canta fiel
Gorjeando sem parar
Chuva que desaba forte
Trazendo a grande sorte
Não teme medo da morte
Frutificando o pomar,
"Águas claras, águas claras..
São tão belas...
Belas águas do cantar".

Os velhos buritizeiros 
São os eternos guerreiros
Que vigiam o tempo inteiro,
Toda história a escutar!
Guardam as águas da alegria
Estão lá todos os dias
Compondo a poesia
Numa obra secular!
"Águas claras, águas claras
São tão belas...
Belas águas do cantar". 

José Antonio Basto







bastosandero65@gmail.com

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Um dedo de prosa com a água

Riacho do Assentamento Mangabeira - Urbano Santos-MA 

Conversava-se com a água, uma conversa sem palavras. O inverno fora muito bom! Chovia bastante de janeiro ao início de junho; talvez acima do limite esperado – mas a água do céu suspendera um pouco, o sol tem castigado ultimamente! Chega-se o período da colheita do arroz... Tempo de assar abóbora na fogueira de São João Hábitos e costumes que aos poucos vão se perdendo no tempo empoeirado pelas tradições culturais. Rios e riachos encheram e transbordaram em todas as regiões – alargaram-se além das margens, gerando grande fartura de peixes – esperando um futuro de tão poucos bons frutos na lavoura. A força acrisoladora da natureza é extraordinária – mãos medem forças... Acumulam e explodem na criação e no acreditar do “ser e escrever” o mais nobre dos cantos. A água não reclama! Reclamar pra quê? Recupera-se no contar dos dias marcados pela ampulheta. Há muitos séculos ela se formara – trilhando caminhos e léguas pelas florestas, descendo pelo sertão até chegar noutro afluente. Em fim a água completara seu ciclo; tornara prosa porque folheava e compunha sua própria história caminhando pela terra. Se foi... Esvai-se para nunca mais voltar.

José Antonio Basto



terça-feira, 19 de junho de 2018

O solo e o sol em Guaribas


O solo do Baixo Parnaíba é rico em tudo. Uma terra preta onde o que se planta dá com fartura. Há alguém que afirmara viajar pelo sertão do Baixo Paranaíba, sendo a dinâmica de aceitar desafios; poucos se arriscam perder-se por aquelas matas, chapadas e florestas de eucaliptos... Caminhos aplainados. Uma luta renhida, aventura - quando se decide escrever e lutar por alguma coisa – a escrita teórica se completa no monólogo prático de vivencias na íntegra – por isso a prosa sai quase que poética. Não se sabe o gênero, tampouco as formas de construção de palavras – pouco se sabe! Talvez as narrações apresentem ambiguidade e paradoxos – parecidas e inspiradas em “Grandes sertões: veredas” – do Guimarães Rosa, este o mais importante dos livros regionalistas que naquela época de forma romanesca já se narrava as coisas do cerrado brasileiro. O cerrado de Rosa pode ser interpretado como qualquer lugar do mundo – apresentando a vontade de descrever o que se pensa – sendo isto clássico ou não. Uma causa nobre em defesa dos menos favorecidos, esquecidos e desprovidos de direitos, falo dos camponeses.
Saia-se cedo da sede de Urbano Santos, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais tinha uma grande missão naquele dia: fundar duas delegacias sindicais nas duas Guaribas –, se passava pela primeira, parava-se na volta, porque a Guaribas III é mais distante já quase limitando com as fronteiras de Barreirinhas –  a Guaribas I que também é conhecida pela nomenclatura de São Bento,  fica mais próxima de sede da cidade – mas com muito mais problemas fundiários para resolver. O sol rachava e os vultos dos eucaliptos flechavam a vista. Há dias não se pisava na comunidade Guaribas – houve outros tempos; as situações politicas passam – as amizades e a terra ficam para sempre – muda-se apenas os atores. A caminhonete roncava por aquela estrada – podíamos ter adentrado via assentamentos Mangabeira e Mangueira – ficava muito longe; pois o edital da eleição da delegacia marcava a primeira chamada para 9:00h -, atrasava-se no sindicato por motivos maiores. As terras da Guaribas III compõe um território de cabeceiras de rios e riachos. O principal é o Rio Guaribas que passou por um processo de assoreamento e falta d´água. Vale ressaltar que as plantações de eucaliptos ficam bem próximas das casas – causando aí uma ameaça às famílias camponesas. O agronegócio tem uma parcela de culpa nesse impacto, ou seja a maior parcela – muitas comunidades no Baixo Parnaíba sofrem desse mal. A terra fértil de Guaribas III já criou muita gente – povoado de base histórica na formação das comunidades tradicionais - área de transição entre as chapadas e os campos de areia dos lençóis maranhense. Guaribas é o portal de entrada para os lençóis, ainda é esquecida e a situação de seu povo é rudimentar. Conhecida como grande produtora de farinha e tiquira de mandioca, o povoado merece destaque nas áreas de produção agrícola; as técnicas de subsistências são mantidas como sustentação da permanência ancestral.
O Zé Moura recebia democraticamente 44 votos de mais de 70 eleitores que lhe escolheram como delegado sindical e representante das causas sociais naquele povoado. O almoço de carne de porco foi preparado com grande carinho pela esposa do Raimundo – liderança comunitária e amigo de lutas pela reforma agraria desde muito tempo. O papel do delegado é interligar o Sindicato à comunidade – levantar os problemas do povoado e achar saída para solucioná-los: nas contribuições sindicais, questão de roças, criações e meio ambiente. Os buritizais da Guaribas III asseguram uma biodiversidade limpa e distante de monocultivos e agrotóxicos. As crianças acreditam no sonho de tempos idos, o rio de águas claras ainda tem muito peixe e diversas espécies de plantas aquáticas. As famílias camponesas usam a terra como fruto de subsistência levando em conta o respeito e proteção da mesma.
Após as atividades sindicais, partíamos de volta por outros caminhos descendo no Baixão dos Loteros - assentamento do INCRA, comunidade marcada no mapa de terras quilombolas no Baixo Parnaíba. Um pedaço do Baixão vem sendo negociado para ser comprado via Programa Nacional do Crédito Fundiário (PNCF) – beneficiando os jovens filhos de assentados. Cartávamos as veredas até sair na estrada de Barreirinhas. Anoitecia e o cansaço já tomava conta do corpo e da mente. Pois o dia foi recheado de grandes acontecimentos de nossa luta – apesar de termos sofrido um pouco com o sol escaldante que batia no chão de Guaribas III – aquecendo e frutificando o solo e o sonho desta militância em defesa dos direitos humanos e da vida. Sensação de dever cumprido.

José Antonio Basto

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Fazenda Mangabeira e a história perdida dos Balaios em Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense

José Antonio Basto - (pesquisa em Mangabeira - Urbano Santos-MA)

1839, em pleno apogeu da “Insurreição dos Balaios” – (Guerra da Balaiada) – a região do Baixo Parnaíba maranhense vivia sob intensos conflitos fundiários – e isso já vinha acontecendo desde tempos remotos, causados pela insatisfação do povo pobre do sertão. No inicio o movimento – que mais se parecia com uma guerrilha camponesa foi liderada pelo vaqueiro Raimundo Gomes e o artesão Francisco Manuel dos Anjos, além de muitos outros líderes de destacamentos que sustentavam as ideias da revolta popular, levando-as para além das fronteiras do Maranhão. O ponto de glória da insurreição é acentuado com ênfase na tomada da cidade de Caxias neste mesmo ano. A cidade de Brejo tornara-se quartel general dos revoltosos. A área geográfica pertencente ao município de Urbano Santos, naquela época era da Comarca de Brejo, como também Chapadinha, Anapurus, Mata Roma e Santa Quitéria. As fazendas importantes do território de Urbano Santos –, (ciclo das fazendas), que em sua maioria eram estabelecidas nas margens do Rio Preguiças: Boa União, Palmira, Bom Fim e São José das Mangabeiras, estas eram visadas tanto pelos insurretos, quanto pelas ações das forças legalistas do Exército Imperial que pretendia eliminar de qualquer jeito o movimento.
Canhão da fazenda Boa União, peça da Balaiada - Urbano Santos-MA
No ano seguinte e
m 1840, o governo solicitava anistia e a rendição de mais de dois mil Balaios, infelizmente, assim inviabilizando o corajoso e valente exército camponês. Poucos resistiram, a maioria foram derrotados – vítimas das táticas militares de Lima e Silva. A sublevação estava quase chegando ao fim – é nesse momento que o Negro Cosme entra na luta – 1840 - 41; o último líder rebelde que comandava mais de três mil negros e tinha como quartel general o seu “Quilombo Lagoa Amarela”, localizado na cabeceira do Rio Preto em Chapadinha.
Mapa da campanha de Caxias contra os Balaios
A Fazenda Mangabeira, em Urbano Santos – hoje um assentamento do Incra – naquele tempo era chamada de São José das Mangabeiras, de propriedade da “Família Bacelar”- que muito antes pertenceu a um Padre – sendo uma faixa de terra doada através da “Carta de Sesmarias” – com o nome “São Felipe das Mangabeiras”, por isso - São Felipe – nome dado ao Povoado Vizinho. Um casarão antigo que remonta a história perdida de mais de duzentos anos atrás.
Dona Marly entrega fontes de pesquisa a José Antonio Basto
A estrutura arquitetônica da casa é de origem portuguesa como o piso de ladrilhos, a varanda da recepção e as paredes revestidas de pedras. Relíquias são encontradas em decomposição dentro do mato no quintal da casa grande –, como um tacho de ferro do centenário engenho; sendo a prova viva da produção de açúcar, cachaça e melaço de cana fabricados em Mangabeira. Um fato curioso que tem como prova a existência da memória é um ofício do Prefeito do Brejo ao Vigário da freguesia Mangabeira, datado de 1839 – que se trata da denúncia da fabricação de pólvora caseira no lugar São José das Mangabeiras. É sem dúvida uma grande prova dos acontecimentos que por ali passaram. Segue na íntegra o referido ofício:                
DOC. Nº 30...
DO PREFEITO DO BREJO
AO: VIGÁRIO DA MESMA FREGUEZIA
Ilmo. E Reverendíssimo Senhor Vigário
Jerônimo Antônio de Proença Ribeiro
Foi-me denunciado que João Pereira Caldas, pessoas da casa de V. S., está na fazenda de V. S., denominada São José das Mangabeiras “fabricando pólvora”; e porque seja esta manufatura expressamente por lei proibida, acrescendo, ainda mais nas atuais circunstancias o ser bastante perigoso, segundo a proximidade em que estão os rebeldes da dita fazenda de V. S., e onde pretendem, segundo as noticias que se tem obtido, estacionarem-se; assim o levo ao seu conhecimento, para sua inteligência, a fim de que se inutilize semelhante fábrica, desonerando-se assim da responsabilidade que, aliás, tem V. S. perante o Governo legal do Senhor D. Pedro II.
De amor e zelo que V. S. tem pela tranquilidade pública, espero a mais rápida providencia.

Deus aguarde a V. S.
Prefeitura da Comarca do Brejo, 30 de dezembro de 1839.
Severino Alves de Carvalho
Prefeito da Comarca.
Panelão de ferro do antigo engenho - Fazenda Mangabeira - Urbano Santos-MA
Uma possível fábrica de pólvora não é algo comum nesta região – é algo extraordinário; um tão pouco difícil e quase que inédito; todavia demonstra que nossa história ainda tem muita coisa pra ser descoberta, ainda desconhecida por essas matas e lugarejos. A Balaiada na história de Urbano Santos está ligada não apenas na formação da comunidade Mocambinho, no final da guerra e os últimos acontecimentos em 1842, depois Mocambo e em seguida “Ponte Nova”, mas é sustentada cientificamente sobretudo pela existência do canhão da fazenda vizinha Boa União, a “Chapada dos Balaios” entre os povoados Bom Princípio e Areias e a estrutura da antiga fábrica de pólvora caseira da Fazenda Mangabeira, antes, São José das Mangabeiras.
Ladrilho da casa grande - Fazenda Mangabeira - Urbano Santos-MA.
Pontos importantes que merecem uma atenção especial levando em conta e consideração a construção de levantamentos e fatos da permanência histórica no município. Daí pode-se citar as linhas do cronograma (mapa), da campanha de Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), contra dos Balaios – quando este general foi promovido presidente da Província do Maranhão. As linhas ligam Icatú a Miritiba; Tutóia a Brejo e a São Luís; Itapecuru a Vargem Grande e Coroatá a Chapadinha e a Caxias, cortando então o território do atual município de Urbano Santos, servindo como prova das trilhas e combates de uma guerra que pode ser transformada em cartão turístico na região nordeste do Estado do Maranhão.    

Texto e imagens: José Antonio Basto
E-mail: bastosandero65@gmail.com