segunda-feira, 21 de julho de 2014

Tome a espada e meus versos de presente! (soneto)


Receba esta lira e se quiseres pode jogar fora...
O amor e a agonia que passamos juntos,
Estrela miserável que inundou meus pensamentos -
Nunca mais aparecestes para esse teu defunto.

Fogo solitário queimou minha doida alma
Sorridente ficaste com a dor do meu passado
Rasgue esses versos e devore-os lado a lado,
Porque sei que teu negro coração já bate palmas.

Valente guerreiro trilhei envios caminhos
Lutando por ti, ó ingrata das horas abaladas!
Sonhei com a música mas o ódio devorou-me,

Nas destrezas da vida sobre o ninho -
Guarda mulher minha arma -, esta violenta espada!
E estes versos de presente pra ver se não esquece-me!
  
José Antonio Basto










sexta-feira, 18 de julho de 2014

Foi aprovada a PEC do Trabalho Escravo, nº 57-A, que luta pelo conceito de trabalho escravo. Como fica agora essa questão no Brasil e em especial no Maranhão?


Visita à Brasília-DF, 07/06
a esquerda escravos do passado; a direita escravos de hoje sob a vigilância de feitor
A proposta de emenda à Constituição que permite a expropriação de terras onde se verifique a existência de trabalho escravo foi votada e aprovada no Plenário do Senado Federal no dia 27 de maio de 2014. Apresentada em 1999 pelo então senador Ademir Andrade, a proposta estabelece que as propriedades rurais ou urbanas onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas ou exploração de trabalho escravo, isso é ilegal onde a vítima pode entrar em contato com orgãos de defesa dos direitos humanos e fazer sua denuncia. Essa medida foi fundamental para combater esse tipo de crime hediondo e também é importante saber que ela vem promover a “SEGUNDA ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL”. Nesse sentido como fica a questão da luta pela manutenção deste CONCEITO DE TRABALHO ESCRAVO no Brasil e em especial no Estado do Maranhão, um dos estados campeão na violação desse crime? Pois o estado brasileiro ainda tem essa fama no que se diz respeito à opinião pública, as manchas da escravidão ainda imperam em nosso meio, os mais de 300 anos de cativeiro que o chicote derramou sangue humano ainda não foram e tampouco serão esquecidos. Vale ressaltar que a abolição de 13 de maio de 1888 não resolveu os problemas da escravidão, nesse sentido dirigida à raça negra, sendo que esta lei colaborou com o acúmulo de milhares de escravos não apenas os negros mas também brancos vítimas da exploração e do preconceito social. Hoje são muitos os fazendeiros que usam dessas artes manhas para usufruírem das forças de mão de obra escrava no campo e na cidade, uma séria realidade dos trabalhadores rurais no interior do país que desenvolvem ofícios nas lavouras do corte da cana, nas colheitas de laranjas, nas carvoarias e nas fazendas de soja. Existe casos de trabalhadores que saíram de suas comunidades em busca de melhorias principalmente para a região sudeste do país, mas nunca conseguiram voltar para as suas famílias, endividados com o patrão são obrigados a permanecerem na fazenda sob a vigilância de capangas e pistoleiros. Quero acentuar casos de famílias inteiras de lavradores do leste maranhense que migraram para São Paulo com a promessa e a consciência de um dia voltar para suas áreas rurais, mas infelizmente nunca retornaram. Marcelo Carneiro, respeitado Professor e pesquisador universitário da UFMA – Universidade Federal do Maranhão tem uma obra “livro-cartilha” intitulada “Migrações Internas” onde ele aborda com ênfase o processo desse fenômeno na Região do Baixo Parnaíba e outras partes do Maranhão. A escravidão no campo e a pistolagem são barreiras que devem sim ser quebradas com a luta dos trabalhadores e dos movimentos sociais, rumo a um mundo melhor e vida digna para as famílias do campo: quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais, mas é verdade que o silêncio de muitos casos deixa à tona a experiência de um estado que durante sua formação desde o período colonial utilizou da violência para conter e suprir necessidades e interesses políticos e pessoais da classe dominante, colaborando com o avanço do capitalismo neoliberal e desumanidade com relação aos menos favorecidos. Precisa-se então estarmos de olhos abertos a cada momento nessa luta para que mais uma lei não passe despercebida e não seja cumprida, onde isso sempre foi de práxis em nossa legislação.

JOSÉ ANTONIO BASTO
*Poeta e militante dos direitos humanos no baixo parnaiba maranhense

terça-feira, 15 de julho de 2014

REOUVINDO A MÚSICA: "OLHOS QUE NÃO POSSO VER".


Quanto tempo sem te ver/ Hoje eu quero recordar/ Os seus beijos seus carinhos/ Que eu não consigo esquecer/ Eu não sei por onde andas / Talvez nem lembre o que passou / Mas eu não esqueci ainda / Serás sempre o meu amor. Refrão: “Vou vivendo/ E só te encontro nos meus sonhos / E cada dia mais distante / Dos olhos que não posso ver”.  Assim é a música de Bartô Galeno, um dos maiores ícones do brega romântico brasileiro. O “Eu” lírico adentra no mais profundo sofrimento amoroso, numa intensa saudade da mulher amada tentando recordar momentos vividos e não vividos quando juntos eram felizes. Os afagos do coração dilacerado pela saudade incontrolável deixa no ar as chamas do pranto derramado pela dor de não ter lutado em busca da felicidade junto a pessoa amada. A encarnação de não conseguir esquecer o único amor fica abismado e indeciso de acreditar se o seu amor ainda lembra de alguma coisa, pois o ser que clama e sonha com mais uma chance reafirma com pura convicção e sem medo de recordar que ainda ama de todo coração. Melancolicamente o “Eu” lírico tenta viver mesmo sabendo que há tempo foi condenado a penar por amor, a fantasia então nesse instante entra em cena na proporção em que o mesmo diz que só encontra a pessoa amada em seus sonhos, fazendo morada um ar de platonismo sobrenatural que aquela alma até então imaginada gêmea está a cada momento mais distante da ótica que o amante não pode ver. Para acentuar é importante saber que a coisa que se diz “amor” desde os primórdios da humanidade que é cantado por poetas e cantores, pois atire a primeira pedra quem nunca passou por essa experiência no que se diz respeito algum relacionamento. Temas como saudade, sofrimento, sonho, distancia... em fim são tijolos que compuseram e compõe a construção de uma boa poesia. Sabe-se de práxis que a tristeza amorosa se torna bonita em música. Quando se estuda o ensino médio, os alunos são obrigados a passar por vários períodos literários (escolas literárias e movimentos de épocas), são muitos no currículo, mas o curioso é que apesar de tantos períodos o mais marcante foi o “Romantismo” - com a melancolia de sempre, pode até ser chato ainda nos dias de hoje se falar em pessoas românticas que escrevam cartinhas de amor decoradas. Chegou um tempo em que os cavaleiros tratavam suas damas com respeito... era o tempo do tradicionalismo das serenatas nas calçadas e janelas, o tempo em que as músicas tinham letras, tempos estes que não voltam mais. Isso ainda se pode perceber na lírica de Bartô Galeno e de muitos nomes da MPB. A música romântica tem suas grandes diferenciações dos outros estilos e gêneros é um martelo que bate e zine no eco que o mundo inteiro ouve sua pancada. Em “Os olhos que não posso ver” esses conjuntos de virtudes estão interligados sobre um fio condutor que leva as personagens junto a um mundo de ilusão que pode ser tornar real dependendo da força de vontade para a realização desejada. Castro Alves -, poeta da terceira fase do romantismo no Brasil completa a temática dessa explicação em seus versos: “O coração é o colibri dourado / Das veigas puras do jardim do céu. / Um - tem o mel da granadilha agreste, / Bebe os perfumes, que a bonina deu. / O outro - voa em mais virentes balças, / Pousa de um riso na rubente flor. / Vive do mel - a que se chama – crença -,  / Vive do Aroma - que se diz – amor”. Esse é o poder da canção e das palavras amorosas que apesar da época em que nasceram atravessaram  as barreiras do tempo. E aí Camões estava certo quando escreveu: “Ah o amor... que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei por quê?

JOSÉ ANTONIO BASTO
Poeta

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SÃO RAIMUNDO, BAIXO PARNAIBA MARANHENSE: UM PEDAÇO DO MUNDO


Mayron do Fórum Carajás, eu e Dona Francisca - degustando pato ao molho pardo: iguaria tradicional.
Visitar a comunidade tradicional do Povoado São Raimundo – zona rural do município de Urbano Santos é muito gratificante, as pessoas de São Raimundo nos prendem toda a atenção, pessoas estas humildes, honestas e trabalhadoras. Sábado passado cinco de julho, fui visitar a comunidade porque bateu uma saudade de degustar as comidas típicas da região e rever velhos amigos de lutas como Francisca -, a presidente da associação do povoado. Para minha sorte é tempo de peixe no rio que passa no povoado, assim que cheguei soube que o Zé, esposo da Francisca estava pescando e conseguiu alguns peixinhos que Francisca fez moqueca para o jantar. Após a janta fomos conversar sobre as questões referentes à luta pela terra, os projetos do Povoado levados pelo Fórum Carajás e a militância da comunidade em defesa das chapadas e preservação das espécies vegetais do bioma. Por mera consciência o Irmão Francisco corajoso presidente da Associação do Povoado Bracinho foi passando no momento e parou para a conversa. Irmão Francisco me perguntou como tinha sido a viagem e o evento do Encontro e Feira dos Povos do Cerrado que aconteceu em Brasília-DF, de 05 a 06 de junho desse ano, do qual eles eram para participar também, mas por algum motivo maior não puderam se deslocar de suas comunidades para a viagem do dia 03/06. Em fim, expliquei o que aconteceu durante o evento que para mim foi uma grande experiência e aprendizado, no entanto. Surgiu uma ideia de fazermos um seminário sobre a luta das comunidades tradicionais em defesa das chapadas incluindo então moradores representantes dos dois povoados (Bracinho e São Raimundo), ficando a principio a hipótese do seminário acontecer na comunidade Bracinho. Vamos alimentar esse ponto para dar subsídios e encorajar cada vez mais a luta pela reforma agrária na região em especial São Raimundo, Bom Princípio e Bracinho. Ficou algumas coisas acertadas e outras para concluir com o tempo, mas a data deste futuro seminário deve acontecer em agosto deste ano. Irmão Francisco se despediu e pegou a estrada, já era por volta das vinte horas. Eu estava bastante cansado e com a janta deliciosa bateu um sono adormecedor. Dormi no silêncio da noite e com o cantar dos caburés para o lado de cima da mata, tudo quieto e diferentemente da cidade, pude relaxar a noite inteira. Acordei acho que duas vezes pela madrugada frienta. Pela manhã cedo levantei da rede com uma preguiça para tomar café, Francisca acordou cedo, pois mãe de família sempre acorda cedinho para passar o café. Ovos de galinha caipira e moquequinha de peixes que ficou foi a iguaria do café da manhã, muito bom... tudo caipira e preparado com gosto. Fiquei mais algumas horas da manhã de domingo 06, mas tinha que voltar para Urbano Santos e a estrada não estava muito boa. Despedi-me de Francisca e do Zé... peguei a estrada de volta. Ficou na lembrança os momentos que passei em São Raimundo aquele pedaço de mundo que tem ponto importante na história de hospitalidade e generosidade para com as pessoas. Conscientes de um mundo melhor para todos, a coletividade desta gente vem superando desafios internos e contra latifundiários. Sempre batalharam e através de formações descobriram que são importantes numa região de conflitos fundiários: o Território Livre do Baixo Parnaiba Maranhense, que já foi palco de lutas desde tempos remotos nos reflexos dos combates dos índios tremembés e a insurreição dos balaios no século XIX. Esse pedaço de chão apesar da grande diferença social é uma terra que quem a conhece não esquece jamais.  
  
(JOSÉ ANTONIO BASTO)
Julho de 2014

segunda-feira, 7 de julho de 2014

TROVAS DA VIDA E DO TEMPO


Passa tão rápido o tempo,
Como uma feroz tempestade
Correndo contra a vontade
Nas surdas asas dos ventos.

É tempo de contra tempo
Nos reflexos da esperança
Na inocência de uma criança
Entre as páginas do aposento.


Configura-se um evento
Insistindo na partida
Chore, cante e curta a vida
Preparando seu acento.

Os reflexos de um relento
São vozes e águas passadas
O que não vale mais nada
Não tem mais consentimento.

A riqueza não contenta
Seja mais sabedoria -
Escrevendo poesia -
Divulgo o simples talento.

Que viva o mundo em documento
Que a paz venha imperar
E tudo isso mudar
Sem mais nenhum ferimento.

Esteja de olhos atentos
Em tudo que lhe rodeia
Grave o título na aréia
Trovas da vida e do tempo”.

(José Antonio Basto)