quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

UM CERTO OLHO D`ÁGUA E A BICUÍBA


A bicuíba foi uma grota que criou muita gente. Pescava-se e desbrava-se nas entranhas de uma grota quando criança. A grota tinha tudo para oferecer: peixe, água e um clima agradável. Os porcos se banhavam nas margens da grota. Porque nessa época dos anos oitenta e noventa não existia devastação na cabeceira da grota da bicuíba. Os tempos mudaram e aquele riacho de água fria e cristalina hoje estar ameaçada. Por caprichos dos velhos herdeiros... sua cabeceira fora vendida – como comparar a natureza com o dinheiro? Alguns não aceitaram essa história, mas outros sim. Por isso, lá onde nós caçávamos, pescávamos e fazíamos nossas roças, nada quase, nada vemos. 

O antigo povoado Olho D´Água fora fundado por meus parentes: o Chico Rufino meu avô e o João Vidal seu primo-irmão e meu tio. Os dois chegaram com suas famílias no início da década de cinquenta (50) em Guabirabas, lugarejo esse hoje pertencente ao município de Anapurus, praticaram os caminhos de Buriti de Inácia Vaz e Brejo, adentrando outras comunidades, por esses antigos caminhos do sertão da Balaiada, os dois irmãos com suas famílias atracaram em Guabiraba, perto de um rio: muitas matas, água, caça... uma fartura na qual o Piauí nunca vira. Era a terra prometida, a terra do “Chiam”. A Terra boa. Mas essa terra não demorou muito para que outros retirantes viessem explorá-la. A terra de Guabiraba dos irmãos rufinos fora mudada para a “terra de Pirinã”- já próxima de Cajazeiras – município de Urbano Santos. As Cajazeiras foi um ponto certo para os irmãos Rufinos. Lá se estabeleceram e montaram suas roças. Meu pai, Gonzaga, nasceu em Guabirabas em 1955. Depois de alguns anos, de muitas lutas, perdas e vitórias, os suprimentos: matas, peixes e roças foram ficando escassos. Como isso, os patriarcas se preocuparam e tentavam um outro projeto rumo ao leste. Ouviam falar das terras férteis do leste, rumando para as margens do rio mocambo. As histórias não muito longínquos faziam suas mentes. Os babaçuais, as matas, tabocais, grotas (bicuíba) e a abundância de peixe no rio, os atraíram. As matas e capoeiras de roças já não supriam mais as necessidades para o sustento de suas famílias nas Cajazeiras. Os clãs cresceram e a as demandas também. A farinha seca e a caça já não davam mais para matar a fome dos moradores da tribo. Precisavam seguir como retirantes novamente, e daí pararam em Olho D`Água, como dissera, às margens do rio de aguas negras – o “Mocambo”. Era quase que a terra de canaã. Mas Canaã de Abraão fica muito longe do Baixo Parnaíba – do outro lado do mar, no Oriente Médio, uma terra de 3 mil anos de histórias em que Moisés através de sua fé em Deus guiou o povo hebreu por 40 anos no deserto e chegara com outros, depois à terra do nosso Deus que o prometera.  

O Olho D`Água – também foi a terra prometida dos irmãos rufinos. Eles chegaram em meados dos anos sessenta e lá se estabeleceram, e lá moraram e lá eu nasci. Fizeram suas roças, seus plantios, criaram, caçaram e pescaram. Fizera suas famílias e de lá de se espalharam pelo mundo afora. “Um certo Olho D`Água” fora prometido pelo destino dos tempos.

José Antonio S. Basto

V - I - MMXXVI

terça-feira, 15 de julho de 2025

De Urbano Santos a um certo Moçambique de Primeira Cruz-MA

Moçambique África! Moçambique Primeira Cruz, estado do Maranhão. Dois Moçambiques divididos pelo Atlântico e pelo Índico. Quem conhece o país Moçambique na África? Quem conhece o povoado Moçambique - zona rural de Primeira Cruz-MA? São dois lugares, um maior e outro menor com o mesmo nome. Mas o porquê do nome "Moçambique?" O nome de um lugarejo localizado em plenos campos arenosos na região dos lençóis maranhenses? Poucos se sabe dessas histórias, nem os próprios moradores do Moçambique maranhense sabe a história ancestral do nome do lugar onde vivem. O Viajante saia da sede da cidade de Urbano Santos, caminhava rumo ao Moçambique de Primeira Cruz. Era este, o ponto final de sua expedição. Viajar por aquelas bandas ele ainda não tinha feito. Mas naquele momento precisava conhecer o Moçambique dos lenções maranhenses, pois tinha curiosidade tanto pelo lugar, quanto pelo nome. O Viajante praticava sua rota pelas antigas estradas em que há mais de um século os negociantes vinham do Brejo e Campo Maior-PI para as regiões praieiras fazer seus negócios de trocas e vendas, isso no final do século XIX até meados do século XX. Ainda em 1849, foi construído uma ponte de madeira no lugarejo Mocambo I, onde hoje é a sede de Urbano Santos, ponte essa para facilitar a travessia das tropas de animais que transportavam mercadorias para as regiões praieiras como farinha, fumo, cachaça, rapadura e outros gêneros agrícolas. O Viajante seguia pela Vertente de Baixo – comunidade essa que já tem mais de cem anos. A Vertente tem característica de comunidade quilombola, assim, como quase todas as comunidades que se desenvolveram às margens do rio mocambo. Dali se atravessava o rio e chegava ao Lugarejo São Braz, que também é quilombola. Parava um pouco para descansar e beber um doce caldo de cana-de-açúcar no pé do engenho. Após algumas horas, seguiu viagem. Já era um final de tarde e ainda naquelas veredas quase fechadas, o sol já quase se pondo, as nuvens avermelhadas pairavam no horizonte como um quadro celeste... era hora de se preparar para passar a noite. Fizera uma fogueira e um abrigo; pegou seu frito que estava no Surrão que carregava e fez seu modesto banquete de jantar. Após uns goles de água de sua cabaça que carregava a tiracolo, descansou e dormiu ao som das cantigas dos grilos e dos pássaros noturnos. O sono foi longo e as cinco horas da manhã do dia seguinte acordara para continuar o trajeto até o Moçambique. Seguira contornando umas velhas fazendas, chegara na comunidade Cascudo, mas não parou para conversa, apressado, pois estava a pé, se deparou com cavaleiros e camponeses com suas cargas de mandioca carregadas por jumentos e burros, era tempo de farinhada. Passou por Prata dos Basílios, Santana dos Quirinos e Mosquito, mas não por dentro das vilas, mas ao redor contornando antigos caminhos dantes conhecidos. Entrou no povoado “As Galegas”, nos limites de Primeira Cruz e Belágua e também não muito longe da famosa Lagoa do Cassó. As Galegas tem esse nome em homenagem ao pássaro tradicional dessa região com o mesmo nome. Quase não se ver mais galega, quase em extinção, ninguém sabe o porquê, ou se sabe: impactos ambientais na região, talvez, elas migraram para longe. Conversou com velhos amigos, ali almoçou uma galinha caipira com arroz sucado no pilão. Após o almoço, o Viajante seguiu viagem pelos campos de areia. Atravessava lagos e lagoas passando pelos lugarejos Vargem Comprida, Tucuns e Faveira... desembarcara no último povoado antes do Moçambique, era o Brandura. Era já início da noite, se hospedou na casa de forno de um conhecido. Armou sua rede de tucum, jantou, bateu papo antes de dormir. A conversa variava de roças, caçadas, pescarias e chuvas. Chuvas essas que faz transbordar os rios, lagos e lagoas após as enchentes, quando começa a vazar as águas, vem a fartura de peixes, conhecidos como “peixe dos campos”. Já era tarde da noite, apagou a lamparina e dormiu sossegado. Pela manhã tomou um café com beijú de goma, se despediu e seguiu rumo ao Moçambique. A distância é considerável. Por fim chegara em no tal lugarejo Moçambique. Não conhecia ninguém, mas fez amizade. A comunidade Moçambique tem todas características de quilombola, pelas aparências dos seus moradores e pelos seus costumes e tradições. O Viajante presenciou manifestações culturais afro-brasileiras como o boi, capoeira, tambor e ciranda. Seu objetivo era checar e comparar o Moçambique de Primeira Cruz com o país africano de nome igual. Lá passara três dias, conversou, brincou, ensinou e aprendeu histórias do presente e do passado. Após sua missão cumprida, voltou para Urbano Santos pelos caminhos de acesso ao município de Belágua.

 

José Antonio Basto

(heterônimo – o Viajante do leste

Julho - 2025


sexta-feira, 4 de abril de 2025

O fogo


O Viajante vinha de lá para cá, numa carreira extrema! Carreira essa, em que a caminhonete corria! O fogo atravessaria a vereda com suas ferozes línguas! O carro parava, pensava-se em seguir ou não, aguardava-se um pouco... era arriscado; ou se arriscaria encarar o fogo no caminho, o dito caminho era estreito e aplainado. É normal o aplainamento dos caminhos de eucalipto e soja nessa região. Vinha-se de uma das muitas tarefas na luta pela terra. Mas o dito fogo não era tão mal assim... ele pegava com suas assombrosas labaredas atrapalhando a passagem, sendo que suas chamas pegavam nas plantações de eucaliptos e devoravam tudo pela frente, matava aquela “floresta verde que mata tudo”. A árvore eucalipto é boa de fogo, quase não se controla uma queimada em plantações dessa árvore. De um lado, o fogo na monocultura, do outro, a chapada ameaçada pelo eucalipto e também pelo fogo. Pensava-se pela última vez...  então decidira acelerar a caminhonete, numa disparada corajosa! Roncou o motor do carro, passou a primeira, segunda e terceira marcha... então o automóvel sumiu nas labaredas num risco entanto, mas com sorte saiu do outro lado. Então o fogo ficou para trás, de longe só se via fumaça. As aventuras do Viajante as vezes são arriscadas; mas valem a pena... elas tiram aprendizados  junto às comunidades tradicionais, viajando por estes velhos caminhos. Comunidades essas, ameaçadas pelo fogo no período do verão e pelo agronegócio do eucalipto e da soja em todas as estações. 

J. A. Basto

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A mulher que caça

Tereza caçando com seu cachorro
                                                                                

Eu só conheço uma mulher que exerce o ofício de caçadeira, ela é camponesa, mas gosta mais de caçar do que trabalhar na roça. Mas caçar para alimentação é uma tarefa culturalmente masculina regida desde tempos bem remotos na história das civilizações. O ofício de caçar para se alimentar é pré-histórico. As técnicas e tradições são repassadas de pais para filhos, no mesmo clã, na mesma família ou comunidade.

A Tereza, moradora da Comunidade Sítio do Meio, na Região do Baixo Parnaíba é essa personagem – uma figura extrovertida, dinâmica e interessante. Há muito tempo conheço a Tereza, desde as épocas dos encontros de comunidades e organizações das CEBs na região. A Comunidade em que ela caça é as Pedras, fica entre as chapadas do Sítio do Meio e Joaninha, seus moradores resistem as ameaças dos gaúchos que adentraram suas áreas – o espaço onde caçam para sobrevivência foi tomado por eucalipto, cercado para mais tarde dá espaço a soja. O riacho joaninha que nasce nas pedras também é ameaçado e sofre com a seca no período do verão, vítima do impacto direto da monocultura agressiva que invadiu o território.

A Tereza sabe desses problemas que maltratam sua comunidade, em suas caçadas de cachorro para pegar cotia, pensa nos problemas que seus filhos e netos um dia terão que enfrentar. A caça que alimenta sua família está ficando pouca, boa parte das chapadas que ficaram para sua família já foi vendida e/ou grilada. As terras das comunidades vizinhas também foram tomadas. O cerrado que se arrasta até as fronteiras do município de Barreirinhas já não é o mesmo. Barreirinhas tem leis próprias que proíbem o desmatamento do cerrado para o plantio de monocultivos -, acha-se que as caças que vivem nas áreas das chapadas e matas das Pedras e Sítio do Meio seja talvez as mesmas que se procriam nas comunidades de Barreirinhas.

A Tereza agradece seus filhos que lhe ajudam nessa tarefa, tanto na caça quanto na roça. Ela tem consciência que suas caçadas não agridem o meio ambiente, além disso ela protege as matas aos redores de sua casa e muito além de seu terreiro. A Tereza tem descendência de índios, talvez os Tremembés que habitaram nossa região há alguns séculos atrás. Boa parte dos moradores das Pedras e Sítio do Meio se parecem com indígenas – muitos deles nem sabem de sua história, os mais velhos contam passagem da vida dos índios. Permanecem com seus hábitos nativos de procriação, cultura agrícola, caça e pesca. As comunidades tradicionais e seus modos de vida merecem respeito dos órgãos competentes, os conflitos por terra e por água tem crescido bastante nesta região e em todo estado. Os trabalhadores rurais assim como a Tereza são os agentes de defesa da natureza e das praticas tradicionais que lhes ajudam nos meios de resistência e sobrevivência.

A Tereza caça porque gosta de caçar, seus pais lhe ensinaram o valor da vida e o respeito com o meio ambiente, ela repassa isso para seus filhos e netos. Os animais silvestres que ajudam na alimentação da família da Tereza estão migrando a procura de lugar seguro. A caça de subsistência é uma atividade comum das formas de atividades no dia-a-dia das comunidades tradicionais.

 José Antonio Basto


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Algum tempo na terra

 

Poucos sabem da terra em que moram, alguns nem pouco, nem muito, demoram para entender. Pra que vender uma terra que tanto deu trabalho para consegui-la? Todos devem ou deveriam saber ao menos do seu real valor. Eles lutariam juntos, ajudamos quando necessário e da maneira que pudemos ajudá-los. A ganância pelo dinheiro mudara o destino do vilarejo. O capitalismo às vezes acaba mudando o pensamento e a ideia do homem. Esquecem dos dias de labutas e batalhas, o capitalismo é um sistema que muito abusa. Pra que enriquecer? O homem simples do campo tem tudo que precisa quando tirando da terra que tudo dá... água, alimentos, frutos da mata e da lavoura. Precisam viver bem e a terra é sua grande mãe. Algum tempo passaria naquela terra e por que não passar! Se a terra donde moram há décadas, séculos fora sempre seu espaço de luta. Ela daria muito trabalho para adquiri-la judicialmente – um conflito fora travado contra os que diziam serem donos, resistiram a ferro e fogo, com unhas e dentes alcançaram a vitória, graças a resistência e a coletividade. Após dias – o vilarejo alcançara seu apogeu.

 Basto

 

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Pelas estradas de Laranjeiras

 


Saíamos da sede de Urbano Santos, exatamente da calçada do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, a viagem estava marcada para as seis horas da manhã – para sair no máximo sete, mas como de sempre, o carro do Federal atrasou, então só embarcamos às oito e meia.

A tarefa principal era fundar a Associação dos Produtores Bastos do Povoado Laranjeiras, além de visitas em algumas casas. Os membros do STTR, Francisca, Noemia, Paixão e Basto tinha essa tarefa para aquele sábado, 21 de setembro. A caminhonete seguia pela estrada de Cajazeiras: Fortaleza, Santa Maria, Raiz, Surrão, Pedra Grande, Todos os Santos e roncava o motor por aqueles chapadões de meu Deus. Avistava-se mais campos de soja e/ou campos para o preparo da soja do que chapadas vivas, as pouquíssimas chapadas que estão também na mira da gauchada da soja. Campos e mais campos – o cerrado todo desmatado, em algumas áreas só se via céu, terra e poeira, a floresta destruída, bacurizeiros, pequizeiros e outros frutos e árvores das chapadas ateadas no chão. Comentava-se entre os companheiros e corria uma tristeza imensa da situação em que se encontra essa região,


onde há vinte anos atrás ainda era diferente com muita fartura de frutos, pasto para o gado, água e terra para a agricultura. Hoje o agronegócio tomou de conta com grilagem e expropriação dessas terras, onde estão cercando num raio de trezentos e sessenta graus o município de Urbano Santos. Descíamos em Laranjeiras, o “Basto sem (s) nunca tinha ido na terra dos Bastos com (s), parentes – talvez; mas fora convidado para elaborar a ata de fundação e constituição daquela associação rural. Parava-se primeiramente na casa do mais velho dos Bastos – o irmão dos irmãos que muito se parecem, são vários irmãos na redondeza daquele vilarejo, tomávamos um cafezinho para aquecer os ânimos antes de começar os trabalhos. O ensaísta observa vários animais pastando livres no terreiro na casa como porcos, galinhas e bodes, coisa rara que quase não se ver mais hoje em dia. Pois as pessoas dos povoados que criavam os bichos soltos e as roças cercadas naqueles tempos, tem que prender seus animais – e as roças ficam no aberto. Precisa-se de reformas em tais leis. Pois acha-se que naquele tempo o bicho livre e a roça cercada a produção era diferente e como era até a carne dos animais. Mas, uma reflexão: esses bichos que comiam o buriti, tucum, fuçavam nos brejais e lagoas... se alimentavam do que as florestas e chapadas ofereciam, o que vão encontrar hoje? Quase nada! Tudo devastado! De campos e campos, alguns de quilômetros de distância. Quase nada, melhor ficar preso na ração mesmo. Os visitantes chegaram no ponto da reunião, aguardava-se os membros interessados para começar. Foram chegando de um a um – os Bastos. Já era dez horas, começou. A presidente do STTR explicou o teor da Associação, inclusive para adquirir o registro oficial da terra e acesso de outros projetos. Os assuntos foram expostos e a diretoria listada e apresentada, após alguns pronunciamentos, logo então foi aclamada a fundação e constituição da Associação acima citada. A ata foi lavrada, lida e aprovada. Ali nascia a Associação dos Produtores Bastos do Povoado Laranjeiras – (A.P.R.B.P.L).
Membros da Associação

Após outros assuntos particulares, chegava a hora do almoço na casa da Magda. O ensaísta pensava ser uma galinha caipira como tinha sido antes, não foi galinha caipira, mas foi cozidão e bife de fígado de boi caipira. Estava muito bom aquele almoço. Após alguns minutos de descanso e bate papo, tivemos que que dizer tchau e seguir rumo ao Bebedouro dos Calixtos para falar de um projeto para a Associação do P.A Bebedouro dos Calixtos. Ainda pensávamos de passar em Santa Rosa para visitar o velho Zé Sousa, mas não deu tempo, pois estavam em direção oposta. Arrastava-se e a poeira cobria nas chapadas devastadas e caminhos aplainados até chegar ao Bebedouro. Fomos direto para a casa de Dona Raimundinha para, tomamos água e até caldo de cana natural. A parada foi curta para algumas explicações e já contava no relógio três e meia da tarde, fomos também até a casa de outra moradora que fica do outro lado, ainda pensou-se em passar em cajazeiras para um evento, mas não deu certo. Então já bem cansados, voltamos para casa pelas velhas estradas do Povoado Bacabal chegando na cidade pelas vias do Bairro São José.

 

José Antonio Basto

Setembro - 2024       

sábado, 22 de junho de 2024

O caso do conflito que se arrasta na Comunidade Jussaral -, município de Urbano Santos-MA

 

Comunidade Jussaral e membros do STTR - UBS

O caso do conflito agrário na comunidade Jussaral – município de Urbano Santos não é novidade, nem coisas dos dias de hoje. Essa problemática já vem se arrastando desde os anos noventa, quando de início a empresa Florestal LTDA – que se transformara em Suzano Papel e Celulose se instalou no lugar, primeiramente no vizinho Povoado Todos os Santos e adjacências. Com o intuito de se apossar de grandes áreas de terras para o plantio de eucalipto. Empresas terceirizadas como a Marflora e Margusa, tiveram o ofício de desmatar a chapada e queimar suas árvores para a fabricação de carvão vegetal, depois o eucalipto. Eram chapadas, carrascos e matas, onde os camponeses faziam suas roças, caçavam e tiravam madeira e palhas da palmeira do babaçú para cobrirem suas casas. Viviam e vivem há décadas dessa cultura passada de geração em geração.

Com o aparecimento das empresas que prometiam desenvolvimento e ajuda financeira e de empregos para os moradores, gerou-se então os primeiros conflitos, não era de se acreditar! Dizimando a chapada não haveria de ter melhorias de vida, não caíram na conversa. Os lavradores, com o apoio do movimento social e da Igreja Católica, conseguiram então constituir a “Associação União dos Moradores do Povoado Jussaral”. Pois com o aparecimento da Associação as empresas instaladas se incomodaram. Pois constantemente os trabalhadores rurais estavam em reuniões e formações de base, sendo cada vez mais orientados da problemática. Tiveram a consciência de que aqueles grandes fornos de carvão construídos na chapada eram com certeza muito prejudiciais para eles e para toda biodiversidade do lugar: pois além da fumaça sufocar a população, também expulsava os animais silvestres e os riachos estavam secando – dali crescia cada vez mais a devastação da chapada pelos correntões, derrubando tudo pela frente: bacurizeiros, pequizeiros, candeias, murici, araçá... tudo que compõe a fauna e a flora estava cada vez mais desaparecendo.

Com as orientações sistemáticas do movimento social, os atores daquela luta na época montaram uma estratégia radical. “Sabendo que aquelas terras eram suas e foram tomadas e griladas” - se organizaram com outros companheiros de batalhas e marcharam rumo ao lugar onde estavam fincados os fornos de carvão. E com machados, foices e outros instrumentos de trabalho começaram a importante ação que ficara na história da luta agrária em Urbano Santos: DERRUBARAM, DESTRUIRAM TODOS OS FORNOS E BATERIAS DE CARVÃO. E mantiveram a resistência por muito tempo. Essa atividade teve papel importante, animando a ideologia de defesa da terra contra o programa do agronegócio na região. Há menos de dez anos atrás a comunidade Jussaral retornou a luta contra a Empresa Suzano Papel e Celulose que adentrou na área pertencente à Associação com seus plantios de eucalipto. A comunidade organizada e com o apoio de setores do movimento social conseguiu afastar a empresa e readquirir suas terras de volta. Com a apresentação de documentos científicos de estudos e pesquisas da Academia, reportagens, ações do movimento sindical e decisões do Ministério Público que mostrara com clareza e veracidade de que os problemas causados no meio ambiente e na economia da agricultura familiar eram culpas da Suzano no Baixo Parnaíba, esta decaiu no município de Urbano Santos e região. Vendendo ou arrendando as terras que antes eram campos de eucaliptos da Suzano, agora foram passadas para os chamados “Gaúchos da Soja”. Hoje em dia, a comunidade Jussaral tem enfrentado um de seus maiores desafios. Preocupados com os Gaúchos em tomar as terras por meio de falcatruas e documentos cartoriais, fizeram o CAR – Cadastro Ambiental Rural e o Georeferenciamento de suas terras: mais de 2.000 hectares, a maioria chapadas. Uma área de chapada de 800 hectares dentro dessas mais de duas mil, foram cercadas de arame doado pelo Fórum Carajás, afim de protegê-la de futuras invasões, foi o que aconteceu, inevitavelmente. Território esse onde os moradores praticam o extrativismo vegetal, principalmente do bacuri e pequi e outros frutos do cerrado, sendo rica em capim natural... também criavam animais na área cercada. Uma chapada abundante em tudo.

Deixa que ao lado dessa área é um grande campo devastado do Gaúcho, sendo, portanto, visada por ele para o desmatamento e plantio de soja. A Associação manteve a luta, recebendo dois importantes seminários agrários com participação do STTR de Urbano Santos, várias outras entidades e do Ministério Público, onde tratou especificamente desse assunto, na elaboração de uma lei de proteção ambiental com o aval final do Ministério Público. O caso entre a Associação e o Gaúcho foi para justiça. Associação ganhara prestígio e demandas na justiça agrária que de alguma forma barrara a entrada de soja em seu terreno.

 Terça-feira a tarde, 18/06/2024, a comunidade foi surpreendida por policiais que diziam fazer a segurança no momento; Gaúchos e seus jagunços chegaram mostrando uma certa decisão judicial, segundo eles, os favorecendo, dizendo que a terra era deles, segundo o documento não dava-se o direito de cortar arame e derrubar as cercas. Assim como em outros lugares a presença oficial nessas ações são frequentes para assim mostrar o poderio militar e de intimidações psicológicas aos posseiros. As estacas foram derrubadas de tratores e todo arame que cercava a área cortado em pedaços como mostram registros de vídeos e fotos feitos por celulares dos moradores na hora. Houve embate quase direto e por pouco não veio o pior, a situação ficou dramática, os moradores foram todos para o local onde estava acontecendo o problema. Logo em seguida a “Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Urbano Santos” esteve no local também para orientação pacífica no que diz respeito ao processo judicial, assim evitando danos maiores e violência, ajudando na proteção dos agricultores, que quase desesperados, lamentavam-se, não era pra menos. Os jagunços ameaçaram os camponeses que estavam na retaguarda de defesa do seu território tradicional, dados esses que foram catalogados por agentes da SEDIHPOP - Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e COECV - Comissão Estadual de Prevenção à Violência no Campo e na Cidade, onde depois esteve naquele lugarejo conversando com seus moradores sobre a questão, com o intuito de formular essas denúncias na tomada de medidas emergenciais como também solicitar a abertura  de processos de investigação para averiguar as violações relatadas de ameaças e desmatamento ilegal. O CASO DO CONFLITO QUE SE ARRASTA NA COMUNIDADE JUÇARAL, ainda estar na justiça. Os advogados da “Associação União dos Moradores do Povoado Jussaral”, estão tentando reverter a situação que ainda se encontra cada vez mais tensa. Os tratores do Gaúcho continuam desmatando a chapada dia e noite. Pede-se justiça e toda solidariedade aquela gente humilde e trabalhadora.

 

J. Antonio Basto

* Movimento Social  

        

 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

A abolição inacabada

 

          Hoje, 13 de maio de 2024, (136 anos da abolição dos escravos no Brasil). Será que a abolição da escravatura nesta data, resolveu todos os problemas de milhares de escravos no Brasil? Os movimentos abolicionistas pregavam a liberdade por completa e não apenas pela metade como aconteceu. Nomes como os de Joaquim Nabuco, José de Patrocínio e o poeta Castro Alves foram vultos da história que merecem ser lembrados pela grande contribuição a respeito da liberdade dos negros e negras deste país, além de muitos outros líderes que se doaram à causa da luta contra o mais horrível e hediondo dos sistemas que perseguiu a humanidade, principalmente o povo negro africano.

          Os problemas sociais no Brasil, em especial o da escravidão negra, foram mazelas e feridas que ainda hoje não cicatrizaram e continuam na alma e na lembrança dos afro-brasileiros. Os mais de trezentos anos de cativeiro negro e indígena que perdurou em nosso país – dizimando o continente africano, foi sem dúvida uma das maiores vergonhas e manchas desta pátria. Uma coisa não é lembrada: os escravos nunca aceitaram a escravidão, fugiam e formavam quilombos, resistiam aos ofícios não fazendo os trabalhos ordenados pelo patrão, quebravam instrumentos de trabalho, as mães num momento desesperador até abordavam seus filhos para não vê-los futuros servos dos senhores brancos, em fim... A luta dos negros foi acirrada: Zumbi foi assassinado, Negro Cosme enforcado em praça pública para assim mostrar o poderio do estado repressor. Mais de 18 milhões de africanos foram deportados da África para o Brasil, a Lei Eusébio de Queirós proibira o tráfico de escravos da África para o Brasil, mas isso também não valeu a pena, porque o tráfico de negros continuou na clandestinidade por um bom tempo.

            O período literário do “Romântico” no Brasil principalmente a terceira fase, (condoreira), foi um dos alicerces para que grupos de intelectuais influenciados principalmente na Revolução Francesa formassem grêmios com o intuito de discutir uma política de apoio aos escravos. Esses grupos deram origem às chamadas “Sociedades Abolicionistas” – essas organizações tinham o objetivo de alforriar escravos, esconder negros fujões das fazendas até que conseguissem achar um quilombo. Uma campanha foi idealizada, mas quando deu certo não foi cumprida porque muitos negros após o 13 de maio de 1888, continuaram sendo escravos do preconceito e da discriminação racial até os dias de hoje. A abolição de 13 de Maio foi inacabada porque a D. Isabel apenas assinara com um traço de pena a Lei Áurea, uma vez que ela nunca realmente lutou por uma bandeira abolicionista. Assinara por pura pressão social. A abolição foi inacabada porque os afro-brasileiros ainda apresentam os maiores índices de analfabetismo, as favelas, guetos e cortiços em suas grandes maiorias são habitados (as) por negros; morre mais jovens negros no Brasil do que jovens brancos; há quem diga é porque são pobres, sim a escravidão negra sempre mostrou essa face criminosa do desamparo, da angústia, desrespeito e pobreza, são pobres e são negros. Uma sociedade com problemas de escravidão não tem como avançar no que diz respeito à economia e o progresso. A História do Brasil é uma história feia, são páginas de opressão e sofrimentos, um sujeito só faz um serviço com gosto se realmente for remunerado, claro que o progresso se estende através do trabalho assalariado e livre. A escravidão negra ainda nos reflete um quadro obscuro e sem escrúpulos, as lutas sociais, a rebeldia dos jovens e os sonhos de um dia ter uma vida melhor, foram as bandeiras que hasteadas para o sol nascente alcançaram a vitória de uma luta que durou mais de três séculos. Essa luta que esteve na imprensa e nas linhas dos poemas calorosos de Castro Alves, anunciara com muito otimismo a “A abolição Social” dos negros e negras dos nossos dias atuais. Queremos ouvir o som do berimbau, do atabaque e do agogô...Queremos cantar e brincar em homenagem às flâmulas que conseguiram a abolição mesmo pendente. Essa luta é de todos nós! O Brasil precisa erradicar urgentemente a escravidão social das páginas de nossa história. 

 

“Minha alma ainda treme de frio e indignação quando se lembra da chibata que assolou o couro dos meus irmãos cativos.”

(anônimo)

José Antonio Basto

13/05/2024

 

 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

O BACURI DE BEBEDOURO

 


O Viajante depois de mais de quinhentos dias fora de área voltara a escrever em sua velha máquina de datilografia. Pensava-se muito nas lutas proletárias e agrárias a qual fez parte. O problema da terra atormentava seu pensar, sua memória e sua inteligência. O sistema do capitalismo tenta resolver isso, mas nada se resolve – o que resta é apenas um sonho de uma “SOCIEDADE SOCIALISTA – sem exploradores e explorados”, mas não resolve nada, nada. Ou se aguarda resolver ainda. Romântico.  

O Viajante esteve numa certa reunião às margens do Rio Preto, ficava para aquelas bandas de um Bebedouro, do outro lado do rio ficava o Porção, outro grande povoado do mais importante município deste baixo parnaíba maranhense (Chapadinha). A terra era boa: muito coco babaçú, muitas matas, criações e caças. O Viajante esteve lá e apreciou as belezas naturais que aquela terra oferecia. Bebedouro fica entre o rio dos pretos e a chapada do “Marçal dos Onças”. Mas porque esse nome: “ Marçal dos Onças”? Fica a dúvida da nomenclatura da chapada. Talvez porque lá muito antigamente existiam onças? Não se sabe ao certo e nem o porquê.  O Marçal existe e é todo cercado por campos de gaúchos que plantam soja. A chapada que servia de espaço social da “onça” – agora foi substituída por grandes plantações de soja. Além disso, os sojicultores matam todo e qualquer animal que andam perto de seus arames.

O Viajante passava na caminhonete avistando os bacurizeiros. Pensava-se em parar para fotografá-los. Decidia-se parar! Mais na frente em meio a chapada estava lá um pé de mangaba. Mangaba é fruto raro na região. Do mês de janeiro a março é sua safra. Muitos animais degustam a mangaba. A arvore dá um leite que segundo a tradição desta região de Maranhão e Piauí se fazia bolas de futebol. E eram muito ligeiras. Ao lado das mangabas estavam os pés de bacuris cheios de frutos ainda verdes, mas quase maduros. O Bebedouro é um P.A  do INCRA e é uma das comunidades que compõe o acordo de preservação da chapada assinada pelo Ministério Público na Audiência Pública que aconteceu  no Povoado Juçaral. Acordo esse que foi assinado por todas as comunidades (associações) daquela região

O Bacuri de Bebedouro é raro. Um fruto diferenciado pelo volume de massa. A comunidade também é diferenciada por suas posições de pensamentos. O trabalho daqueles camponeses vai da produção de farinha de mandioca, caça silvestre, pesca e criações de animais como porco, galinha, gado e bode.

José Antonio Basto

Jan – 2024.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Do Mocambo ao Rio dos Pretos

 

Mocambo e Rio dos Pretos – dois nomes incomuns. O primeiro representa uma antiga denominação dos aldeamentos de escravos fugidos das fazendas, Mocambo na “Língua Kimbundu” – ainda falada na África na região do noroeste de Angola-África, quer dizer “esconderijo ou refúgio para as matas”, o mesmo que “quilombo”. Ainda acentuando, Kimbundu é umas das línguas nacionais de Angola – “do povo banto. O Português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos durante a colonização portuguesa no território angolano e através dos escravos angolanos que vieram para o Brasil

Mocambo também é o rio que corta a cidade de Urbano Santos, foi muito importante na época da insurreição dos Balaios no século XIX. O Viajante saia da sede de Urbano Santos rumo ao Povoado Bebedouro que fica sob as margens do Rio Preto – ou “Rio dos Pretos”, como era chamado antigamente. Teria uma tarefa na “Associação dos Trabalhadores Rurais do Povoado Bebedouro” – um Projeto de Assentamento para fins de Reforma Agrária que beneficiará 32 famílias camponeses que vivem do trabalho agrícola e do extrativismo. A terra de relevo, chapadas e carrascos – limitam com o “Rio dos Pretos”. Muitas criações de diversos animais, mas o que predomina é a de cabras e porcos. Do outro lado se observa a serra da Comunidade “Porções” – município de Chapadinha. Povoados e territórios trilhados há cento e setenta anos atrás pelos Balaios que por ali se escondiam das forças da legalidade. O “Mocambo” se interliga com o “Rio dos Pretos”, algo se interliga com a história nas duas nomenclaturas: “Preto e Mocambo”. Os dois fazem parte da “Bacia hidrográfica do Rio Munim” – este também que assistiu muitos combates da Balaiada. O Viajante refletia sobre todos esses assuntos, mas a direção do pensamento inquietava, se reuniria com os moradores de Bebedouro para falar do processo da terra e dos programas sociais de habitação rural. A “Reforma Agrária é a reorganização da estrutura fundiária com o objetivo de promover e proporcionar a redistribuição das propriedades rurais, ou seja, efetuar a distribuição da terra para a realização de sua principal função social. Romanticamente a terra é de todos e para todos. Houve um dia em que as sociedades primitivas faziam do trabalho um feito para suprir as necessidades básicas e imediatas do grupo familiar; não havendo preocupação com acúmulos ou sobras, portanto a terra pertencia a todos e não havia escravidão. Os tempos mudaram e as sociedades partiram para o capitalismo. O território de “Bebedouro”, “Juçaral” e “Todos os Santos” muito tem sofrido com problemas socioambientais que vai da expropriação de terras, conflitos e impacto direto nas comunidades tradicionais. Os trabalhos seriam realizados na sede da associação. Dona Raimundinha - antiga militante das CEBs e filha do Sr. Calixto - primeiro morador do Bebedouro, fala dos grandes desafios que os morares enfrentam no dia-a-dia. Comunidade carente, mas consciente da luta pela terra. Receberam o titulo de desapropriação e agora partem para outros projetos. As casas cobertas de palha e paredes de taipa – ainda deixa escrito nas veias do tempo que as desigualdades sociais ainda é constante em nossa sociedade.   

O Viajante retornava pelos caminhos aplainados e cobertos de eucaliptos que sumiam no horizonte. As flores de bacuri e pequi enfeitavam as chapadas, sinal de uma boa safra dos frutos no ano quem vem. Marcava-se no mapa a trajetória do “Mocambo ao Rio dos Pretos”. E vice-versa; a terra avermelhava o chão da chapada. 

 

José Antonio Basto

 

 

 

 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Cerrado do Tocantins

O ônibus passava com rapidez

Da janela avistavam-se as copas

Das matas por cima dos carrascos

Sobre a luz do sol que morria

Numa ultima visão da floresta

Os campos de capim-dourado reluzentes

Eram como esteiras de ouro que clamavam

Por um espaço natural assim como antes...

Os gados pastavam nas fazendas -

Podia se avistar aldeias indígenas

Na beira da estrada...

Povos que antes tiravam do cerrado o

Necessário para suas sobrevivências

A natureza que morrera pela mão do homem

A natureza que chorou e continua chorando

Que implora por dias melhores.

Para ultima lembrança do viajante

Ficara o quadro do Rio Tocantins

Com suas águas azuis correndo rumo a Amazônia

E que também não escapara

Do impacto da barragem.

               

José Antonio Basto

Tocantins, 13 de agosto de 2015

 

 

 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

A chuva não atrapalhara a visita

A primeira reunião não dera certo. Não por causa da chuva, foi pelo contratempo. Estava quase tudo certo para a reunião do Fórum Carajás no P.A Baixão / Bacaba, zona rural de Urbano Santos. Os membros do Fórum Carajás conversariam com os moradores do assentamento naquele dia, com o intuito de ajudá-los através de um pequeno projeto de galinha caipira financiado pela ONG – “ASW da Alemanha”. Esses projetos espalhados por toda região do Baixo Parnaíba tem como principal objetivo fortalecer a renda familiar e a segurança alimentar das famílias camponesas – principalmente aquelas que vivem próximos às plantações de eucaliptos e soja - vítima do impacto direto do agronegócio. Visam também dá uma injeção de ânimo naqueles que lutam pela permanência física e cultural em seus territórios tradicionais, ou melhor dizendo, os que lutam pela terra. Uma iniciativa muito importante onde se trabalha com pouco, mas o suficiente para levantar e manter erguida a bandeira da agroecologia na região. Os desafios são grandes; experiências que dão certo e as vezes não. A intenção de ajudar os menos favorecidos gera “ciúmes” em alguns momentos, em algumas situações. Entidades como o Fórum Carajás são consideradas importantes para as comunidades tradicionais, outra reunião fora marcada com o mesmo objetivo. Informar aos assentados do Baixão/ Bacaba sobre a situação da realidade agraria no Brasil. Os problemas de acesso aos projetos para assentados e assentadas da Reforma Agrária. Conversaríamos sobre a questão do “Programa Minha Casa Minha Vida Rural”, donde eles tem demandas. É só uma questão de tempo. Além do Programa “Pronaf Mulher” e Projeto Agroextrativista  na Reserva Ecológica separada pelo INCRA – obedecendo a lei. A Comunidade Baixão dos Loteros tem uma historia  voltada para a colonização dessas terras, assim como a maioria das comunidades tradicionais habitadas por sertanejos há séculos neste pedaço de chão que é o Baixo Parnaíba maranhense. Quando o Baixão começou a ser colonizado partiu da construção de um curral para botar gado, depois veio a casa de fazenda que foi feita por uma das “famílias influentes”. Conta-se que possivelmente fora um “Quilombo de Negros” escravizados no passado. Por ficar em uma área estratégica entre a chapada e a mata – por onde passa um riacho batizado com o mesmo nome do povoado. Ali se desenvolvera a cultura de criação de gado e a produção de farinha – esta ultima, permanecendo e transformando o Baixão  em um vilarejo dos mais respeitados na fabricação de farinha de puba em Urbano Santos. Os conflitos sempre existiram nesta região. O saudoso Nonato Valentim na década de 80 foi um dos líderes da luta pela terra. Período esse um tão pouco difícil por ser ainda na ditadura militar. Os Camponeses tinham o apoio das Comunidades Eclesiais de Base  - (CEBs), que até então surgia na historia como um “Novo Sujeito Popular” e orientação sociopolítica e religiosa da Igreja Católica. A história se contradiz nas entrelinhas de quem a escreve. Poucos se escreve sobre conflitos fundiários – muito menos colocando o campesinato como figura importante no cenário político de transformação social e econômica. Mas na verdade quem assegura o alimentando na mesa dos brasileiros? Quem protege o pouco que resta das matas e cabeceiras de rios? Quem está preocupado com a água que abastece as comunidades e as cidades? A agricultura tem ajudado no entendimento de muitos em saber que a saída para melhoria de nossas vidas é a conquista, ocupação e produção da terra. Reunião dera certo – 27/02/2019. Avisava-se com tempo. Apesar da chuva foi possível uma reunião com os moradores do Baixão dos Loteros. Para melhores esclarecimentos sobre a vida da comunidade e a parceria de ajudar nesse processo de solidariedade e esperança.

 

José Antônio Basto

       

terça-feira, 20 de junho de 2023

Pelas trilhas do assentamento

     Pensava-se num trabalho, um tão quanto literário –, quase crítico, mas não tanto assim. O “Programa Jovem Saber” da Contag e Fetaema – em parceria com os STTRs, convidara-nos para uma pequena pesquisa na casa de um morador do “P.A – Projeto de Assentamento do Povoado Estiva da Mangabeira”, em Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense. Friviar por aquelas bandas é relembrar o passado histórico do processo de dominação das terras de famílias influentes que detinham do poder cartorial e da estrutura agrária herdada pelos portugueses desde o império do Brasil - para suas elevações econômicas. Pois terra sempre foi sinônimo de capital e poder. Isso é fato.

    Três companheiros seguiram numa manhã cedo de inverno para desenvolver as pesquisas e aproveitar para visitar velhos amigos de lutas durante o percurso. Eram seis horas da manhã, quando o carro buzinava convidando para seguir cortando os povoados: “Bacaba, Frankylândia, Palmeirinha, Cacimbinha, Baixa do Cocal I e II, Ingá, Santana, São Felipe, Primavera, Mangabeira Velha até Estiva da Mangabeira (Fazenda São Paulo). O “6º Módulo de estudo do Programa Jovem saber”, convidou-nos para uma experiência sistemática, prática e teórica sobre o entendimento do processo de Reforma Agrária no município onde vivemos, suas indiferenças, sonhos e utopias. Um romantismo pregado que se alicerça no pensamento e que algum dia possa chegar como direitos, poeticamente no canto: “Nosso direito vem”.. [...]. Convidava para uma reflexão sobre a participação da juventude na “política de sucessão rural”. Na participação como agentes sucessores da Reforma Agrária, críticos e voluntários de um trabalho de seus avós que começaram há muito tempo atrás e que eles devem entender sobre a continuação desta obra. As brigas de terra para aquelas bandas e em toda região próximas ao rio preguiças são bem antigas – porque remontam o ciclo das fazendas de cana; assim também como em boa parte dos territórios que ligavam as estradas de acesso à cidade de Brejo e Vila de Miritiba. Na narrativa que se tratava das primeiras lutas na área que foi desapropriada pelo Incra, retrata a resistência dos trabalhadores rurais em não aceitar a pagar mais uma parte de sua produção para os donos da terra. O capítulo é bem antigo desde a habitação dos caboclos sertanejos na época da Balaiada em meados do século XIX. Mas só começaram de fato se organizar na luta pela terra na década de 60 e 70 – anos esses em que o “movimento camponês” ganhava notoriedade no cenário nacional, principalmente no Nordeste, sendo esta, a mais velha categoria e movimento - MSTTR, que tardou tanto para se organizar. Isso vale lembrar a grande participação dos padres e o papel da Igreja Católica na MEB – (Movimento de Educação de Base) e da fundação das CEBs - (Comunidades Eclesiais de Base) – no leste maranhense. A luta organizada dos camponeses resultou depois de quinze e vinte anos na desapropriação do complexo de “Assentamento Mangueira / Data Mangabeira” na década de noventa. Foi o inicio de uma batalha que deu os primeiros passos com relação à posse da terra e a construção de pequenas e rudimentares casas para as famílias cadastradas. O morador o qual nos recebeu falava do problema da comunicação social naquela época, que para se deslocar até a cidade de Urbano Santos ou tinha que ir a pé ou de animal... na maioria das vezes andavam de trinta a quarenta quilômetros para resolver seus negócios na cidade. Ele faz uma autocrítica sobre a realidade da reforma agraria, que não é apenas nos assentamentos de Urbano Santos, mas em todo país – principalmente agora com o retrocesso de transformações politicas do atual governo central: “No Brasil não existe reforma agrária, existe apenas uma pequena política de assentamentos fundiários e agora infelizmente ameaçado, explica”. Dá-se ao entender que no entendimento daquele assentado a reforma agraria não é simplesmente assentar famílias camponesas no meio da chapada seca sem água e sem assistência técnica para a agricultura, sem os meios necessários para sobreviver. Deve no mínimo se ter infraestrutura básica, saúde, assistência técnica, educação e outras politicas de desenvolvimento social que completam o verdadeiro sentido da Reforma Agraria, que estão muito longe de nossa realidade.

    A família mora e produz na terra: pimenta malagueta, coco da praia, farinha de puba e criam pequenos animais para a alimentação. Sobre as laterais da casa tem um grande morro com árvores preservadas, além de um riacho de águas claras que passa na frente da moradia. O trabalho foi concluído até meio dia. Será editado e enviado para a coordenação da Fetaema e em seguida para a Contag para avaliação. Foi muito válido o aprendizado para conhecer mais de perto a realidade da historia do assentamento. Página essa que as vezes, ou talvez, a maioria dos moradores não conhecem. Voltamos pela mesma trilha com mais uma das tantas tarefas cumpridas.

 

José Antonio Basto

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Havia uma chapada que lutava

Ela cantava junto aos passarinhos, junto ao céu azul... seu chão avermelhado clamava pela vida, o campo era denso, os capins com suas lágrimas e orvalhos lutavam pelo bem de todo seu povo, de toda sua biodiversidade. Ela lutava pelas comunidades que habitam seu espaço territorial. Aquela chapada ficava nos confins do leste maranhense, no Baixo Parnaíba, terra de conflitos e problemas socioambientais. Outrora sua realidade era totalmente diferente, havia muitos animais por lá... pedras que jorravam água em suas cabeceiras. O sonho não terminara, apesar da problemática da monocultura que invadiu suas áreas de florestas e brejos; talvez a esperança possa inundar o pensamento de otimismo sobre a calmaria de uma cabeceira de rio; uma nova história será contada com as verdadeiras personagens desse teatro real, no cenário dos desprovidos que batalham por direitos sociais. Os bacuris daquela chapada reclamam até os dias de hoje, pois o mundo em que moram estar devastado pela ganancia da monocultura. As comunidades agroextrativistas viajam pelo cerrado, em seus afazeres na colheita dos frutos, em seus roçados, em suas caçadas – a mãe natureza suprem as necessidades do bem comum de todos que acreditam e lhes protegem, ali “Havia uma chapada que lutava” na esperança de novos tempos.

José Antonio Basto

 

domingo, 28 de novembro de 2021

A casinha do Balaio

 


Lá estava ela, a casinha do balaio!

À beira do caminho nas veredas do sertão...

De palhas de coco e bem humilde!

Sobre a mesa uma lamparina clareava a escuridão.


Lá o pote no cambito, uma forquilha!

Nos terreiros das folhas o vivo jasmineiro

O carrapicho alegre jogava sua semente...

E brotava do ofício um ancião mensageiro.


O balaio carregava sua cabaça a tira-colo!

E voltava com a espingarda de uma caçada 

_ Nem um tiro! E nada nestas matas!

Roncava a liberdade nas chapadas. 


Rio dos pretos, águas barrentas na folhagem...

Cantavam as galinhas, ao longe um latido!

Escutava-se a pancada do velho machado...

E o babaçú nas palmeiras um batido. 


Quebradeiras numa técnica sem igual...

A panela cozinhava um tatú...

De longe da Lagoa Amarela se ouvia:

Pela madrugada o cantar do cururu.


A casinha do balaio lá estava com seus brilhos!

Bem plantada numa terra de memória!

Balaiada quase dois séculos já escrita 

No livro do panteon da história.


José Antonio Basto

Novembro - 2021.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Casa de taipa abandonada


velha casa
Voltei pra rever a casa

Onde fui nascido e criado

Nada vi o que deixei
Tudo estava transformado
Chorei buscando lembranças
Nas emoções do passado.

Ainda chorei magoado
Vendo a casinha singela
Onde meus pais e irmãos
Moravam lá dentro dela
É triste entrar numa casa
Sem ninguém morando nela.

Senti o cheiro de vela
Quando cruzei o batente
Um oratório sem santo
E as flores murchas na frente
Talvez querendo dizer:
_ "Aqui não mora mais gente".

E na parede da frente
Marcas do panhol de milho
O lugar do pote velho
E as formigas fazendo trilho
E o papero que a mãe
Fazia o mingau do filho.

Vi copo e colher sem brilho
Abandonados também
Achei a panela velha
Que cozinhava os terens
Depois que mamãe se foi
Não ferveu mais pra ninguém.

Vi desprezados também
O cepo e a mão de pilão
O espeto de assar carne
E as panelas no fogão
"Queimei as últimas lembranças
Na luz da recordação".

Por: José Antonio Basto

"A alegria da família é de ouvir em versos a velha casa dos pais feita de taipa, onde os irmãos foram nascidos e criados com alegria, em meio à mais pura simplicidade".

































segunda-feira, 4 de outubro de 2021

As Santas Rosas


Mística com a comunidade Santa Rosa

As Santas Rosas! Santa Rosa dos Garretos e Santa Rosa do Moisés. Algo em comum com as duas comunidades tradicionais que estão localizadas na região central do Baixo Parnaíba maranhense / são dois vilarejos com situações de conflitos parecidos, estão numa área de transição entre municípios do Baixo Parnaíba maranhense. Porque muitos povoados ainda carregam consigo o nome do proprietário, da pessoa que se dizia o antigo dono? Os Garretos remonta uma família de proprietários de muitas faixas de terras de Mata Roma, Anapurus e Urbano Santos, herdaram terras além da conta – terras soltas, terras – chapadas sem fim que até então não tinha dono... terras devolutas do estado que abarcaram e registraram como suas. Essas terras foram sendo ocupadas ao longo do tempo e ao mesmo tempo sendo palco de conflitos agrários, como o de Santa Rosa dos Garretos que se iniciou em 2012 e continua até hoje. O velho Zé Souza que já foi vítima de despejo é um dos moradores que ainda resiste essa situação de conflito. Santa Rosa do Moisés – fica mais um pouquinho adiante da dos Garretos. A mesma região cortada pelo riacho e pelo Brejo, apenas com cognomes / sobrenomes diferentes. Santa Rosa do Moisés, um conflito novo. Dona Maria José – que foi nascida e criada lá, hoje com 78 anos, contara
  sua história, que o nome do aldeamento remonta o de um dos primeiros proprietários – “o velho Moisés” – que depois de sua morte a terra tradicionalmente na linha hereditária ficou para seu filho Dé Amorim e que este deixara para Neifran - filho mais velho que pretende vender para os chamados gaúchos que também já compraram parte de Bacabal. São 551 hectares de terra, no vilarejo moram e trabalham de roça 12 famílias camponesas, vivem há muito tempo, os mais velhos nasceram e criaram seus filhos e netos naquela área, continuam lá trabalhando de roça, caçando e pescando numa vida pacata. Certo dia, há não muito tempo atrás, chegou uma pessoa estranha no povoado dizendo que aquela terra já estava vendida e que os moradores tivessem a compreensão de que nada tinham mais ali, apenas receberiam 1 hectare de terra para não ficarem desobrigados. Naquela manhã, os homens estavam pra roça... as mulheres foi quem recebeu a indelicada visita e mensagem por parte do homem que anotava seus nomes num computador notbook. Era mais pra um grileiro do que um comprador de terra. Ficaram apavoradas, inquietas e sem ação naquele momento. O forasteiro ainda disse que se não aceitassem, perderiam tudo. Quando seus maridos chegaram das roças receberam a noticia; preocupados, fizeram uma pequena reunião e decidiram recorrer ao órgão responsável por essas questões agrárias: o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Urbano Santos. Precisariam saber de quanta hectares um trabalhador tem direito numa terra onde nasceu e foi criado há mais de 50 anos -, esta negociada em acordo extra-judicial. E se o Sindicato estava sabendo dessas pessoas que foram comprar a terra de Santa Rosa do Moisés. Era um dia de reunião do Conselho Deliberativo, mas achou-se um tempo curto para ouvi-los. Após as falas, foi-se marcado uma reunião urgente na segunda-feira, 30/08/2021 – o que aconteceu. Para melhores esclarecimentos a respeito da terra e do conflito futuro ou já bem presente. No inicio da tarde a diretoria do Sindicato se dirigiu àquela comunidade, que até então era um lugar novo onde o Sindicato ainda não tinha ido. A toyota cortava as chapadas da conhecida estrada de Bacabal e Santa Rosa... descia uma íngreme ladeira, adrenalina certa... chegava-se no riacho que divide as “Santas Rosas”. O Carro balanceava, vídeos e fotos foram gravadas. As primeiras casas foram avistadas: uma coisa chamava toda atenção em relação aos outros povoados por onde se anda constantemente: “a limpeza!” Todos os quintais muito bem limpos, nada de sacolas no chão, não se viu nenhum saco de suquinho, a terra limpa dos quintais e as cercas de camas que refletiam um ar de pureza. A reunião fora marcada para 3 horas da tarde, chegamos com alguns minutos atrasados, mas por causa da estrada. Enquanto o povo chegava pra reunião, os companheiros e companheiras foram treinar quebrando coco babaçu para distrair. Todos chegaram e a reunião começou com a fala da presidente do Sindicato, Francisca Maria que apresentou sua comitiva da direção sindical: Maria Noemia, Desanilde, Francisco, Seu Jorge, Ronaldo, José Antonio e Izaias. E prosseguiu com uma breve apresentação dos nomes dos trabalhadores presentes. Uma breve fala e depoimentos foram frisados com o intuito de dá uma injeção de ânimo nos moradores, explanações sobre problemas fundiários e socioambientais. Orientados para não fazer acordos sozinhos, para não aceitarem apenas 1 hectare para cada morador, que se associassem no Sindicato para ter mas forças e sobretudo para se manterem sempre unidos nas decisões. Procuraram o Sindicato porque tendem um acordo justo com terras suficiente para trabalhar e sustentar suas famílias. A região central em que as “Santas Rosas” estão localizadas é a região central do Matopiba. Região essa, sendo a última fronteira agrícola do cerrado do Baixo Parnaíba e um das poucas do Maranhão, invejada e desejada pelo agronegócio de chineses, japoneses, americanos e outros estrangeiros que com seus modos de produção avançadas tendem agredir com veneno e agrotóxico o meio ambiente e as famílias vulneráveis da região. Os moradores talvez não sabiam disso, mas após a importante reunião com as explicações, ficaram curiosos e sabendo mais sobre sua terra, seus direitos e sobre também quem deseja suas áreas de matas, águas, chapadas e todos os recursos naturais. A terra para os ricos é sinônimo de capital e poder. Para os pobres é mãe. Eles devem resistir até o fim, primeiramente eles, as entidades de defesa estão para as orientações. Depois da troca de experiências e informações, foi feito uma linda mística no pátio debaixo do pé de manga. E Após cantar a música de comunidade “Irá chegar” – todos se despediram. A reunião acabava ali e ficava como encaminhamento o acordo justo de mais de 200 hectares para os trabalhadores rurais e quando fosse feito que seria naquele lugar na presença dos moradores, do Sindicato e dos nossos advogados. Voltamos para casa com a sensação de dever cumprido.

 

José Antonio Basto

30/08/2021.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O DIREITO À TERRA É DE QUEM TRABALHA NELA

Assembléia com participação popular

As palavras do poeta dizia: “O direito a terra é de quem trabalha nela / A terra, ela é sagrada pra quem trabalha a terra/ Enquanto haver ternura, haverá esperança/ Enquanto a canção tocar, haverá outro lugar/ Enquanto nossas ações chegar às multidões, haverá pão para matar a fome dos oprimidos/ Enquanto existir a vida... Haverá esperanças/".
Bispo Dom Valdecir e J. A. Basto

A terra para o agronegócio, para as grandes empresas é sinônimo de capital e poder, a terra para esse sistema capitalista é um espaço sem gente... sem vida, para eles interessa somente os lucros... O dinheiro. Já a terra para as comunidades rurais é algo sagrado... É vida... Uma reforma agrária com gente e participação popular, necessita-se da terra como uma mãe precisa de filho. Esta é a reforma agrária que os camponeses brasileiros sempre quiseram, sempre sonharam com o “Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário”. Eles acordavam cedo para a viagem de Urbano Santos a Brejo que mede em torno de 119 km: a Francisca, o José Antônio Basto e o Raimundo do Juçaral. Tinham sidos convocados para participarem do “ENCONTRO DE COMUNIDADES RURAIS SOBRE QUESTÕES AGRÁRIAS NA REGIÃO DO BAIXO PARNAÍBA”, realizado no Salão Diocesano do Seminário Santo Antônio, na cidade de Brejo-MA, em 13/09/2021. A problemática foi levantada especificamente sobre os impactos agrários e socioambientais nos povoados  tradicionais deste imenso território, principalmente causados através do agronegócio da soja e eucalipto.
Francisca, Drª Luzia e J. A. Basto

O encontro que é parecido com uma audiência pública / (ouvidoria), acontecera em dois momentos: o primeiro pela manhã com uma abordagem geral - análise de conjuntura a respeito das situações fundiárias no Brasil e Maranhão coordenado pelo Advogado Agrário - Dr. Diogo Cabral que presta assessoria jurídica para a Fetaema e Diocese de Brejo e pelo Pe. Chagas do velho “Fórum em Defesa da vida do Baixo Parnaíba”. E o segundo momento foi uma ouvidoria e troca de experiencias com a presença da Juíza Agrária (Vara Agrária do Maranhão), Drª Luzia Medeiros que se apresentou como Juíza Agrária desta instituição jurídica implantada em 2019 em São Luís, mas atende todo estado do Maranhão. Ela explanou que a Vara Agrária é o melhor caminho para promover e dar celeridade aos julgamentos dos processos que tratam de conflitos fundiários, conciliando e julgando os dissídios coletivos que tratem de demandas relativas à propriedade, posse e uso da terra.
Drª Luzia, Raimundo e Francisca - (STTR)

Drª Luzia disse que passou a se empenhar na “área jurídica agrária” para melhor entender e ajudar nos andamentos de processos antigos que vem tramitando há alguns anos. Explicara que mais de 50% das terras do Estado do Maranhão não tem definição no que diz respeito à sua devida titulação e regularização de áreas devolutas, também chamadas de área nebulosas (sem registro), terras sem dono. Disse que aprendeu dentro do sistema processual reconhecer a luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais nessa pespectiva da luta por um pedaço de chão para se trabalhar com dignidade. Frisou ainda que, se o cidadão trabalhador rural mora há mais de 10 anos na área é possível requerer a posse da terra pelos processos burocráticos de (usucapião – “aquisição de propriedade móvel ou imóvel pela posse prolongada e sem interrupção, durante o prazo legal estabelecido para a prescrição aquisitiva”), de registro, principalmente.
roda de conversa

Onde parte das vias cartoriais, emissão de certidões negativas, requerimento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), declaração de atividade rural do STTR reconhecendo a posse e o tempo em que os agricultores vem trabalhando e outros documentos... Assim, toda documentação estando pronta é possível a titulação e regularização fundiária dos imóveis. A lista de presença contabilizou 75 pessoas de 21 municípios – representantes de diversas entidades que compõe o movimento social, onde muitas dúvidas foram tiradas a respeito da temática um tão pouco polêmica, principalmente na região do leste maranhense em centenas de conflitos agrárias envolvendo fazendeiros, grupos empresariais e famílias camponesas.

 Texto e fotos: José Antonio Basto

Brejo, 13/09/2021.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

PARTIU ZÉ MARTINS! UM DOS ÚLTIMOS GUERREIROS DE COMBATE DAS CEBs, DOS DIREITOS HUMANOS E DO MOVIMENTO SINDICAL. SE FOI UM FILHO DE URBANO SANTOS. (Saudações em memória ao grande companheiro).


JOSÉ FERREIRA DA SILVA, vulgo Zé Martins. Foi um grande lutador, o último dos guerreiros de combate, assim como Manoel da Conceição que também partiu esta semana desta vida para outra, os dois tem histórias parecidas nas páginas das lutas populares. Zé Martins muito ajudou no movimento das Comunidades Eclesiais de Bases, graças ao seu empenho e de outros nomes que os Povoados de nosso município tem histórias de resistência e fé. E também foi um dos maiores construtores  do "Movimento Sindical Rural" em Urbano Santos e região, engajado nas lutas pelos direitos humanos no Baixo Parnaíba. Agricultor, militante do PT, católico, pai de família. Ainda nas décadas de sessenta e setenta ajudou na criação das primeiras CEBs em Urbano Santos e região, como a primeira CEB no Povoado Santo Amaro, apoiado pelos Padres Xavier e Zé Antônio. Com destaque na luta popular se tornou pregador da Teologia da Libertação e com sua grande inteligência defendia o socialismo, os pobres e desprovidos de direito. Os coordenadores de comunidades decidiram então  apostar em Zé Martins como candidato a vereador, onde foi eleito, na câmara sua voz era a voz dos oprimidos. Ainda na década de setenta defendeu os Padres, que até então estavam sendo interrogados e detidos pela Polícia Federal em São Luís acusados de subversivos, simplesmente por defender a terra e os pobres, onde teve êxito nesse feito de muita coragem.Viajou, ensinou e aprendeu muitas lições de vida, sempre com humildade. "FOI UM AMIGO, UM LUTADOR... UM VELHO GUERREIRO" que deixou um legado importante enquanto viveu. Sua história remonta as lutas populares em defesa da vida, com relação ao meio ambiente, a reforma agrária e melhorias de vida para os desprovidos de direito. Merece uma grande homenagem, quem sabe um "livro com sua biografia extraordinária" e acima de tudo ser sempre lembrado em nossas mentes, para que a luta que ele começou dê continuidade com as nossas forças. "Nosso sentimento de pesar à família!" Siga por um caminho de luz e paz. Saudações eternas.