terça-feira, 23 de abril de 2019

PESQUISA SOBRE A [BALAIADA] -, "FAZENDA MANGABEIRA BACELAR", ANTIGA FAZENDA SÃO JOSÉ DAS MANGABEIRAS – ZONA RURAL DE URBANO SANTOS-MA.

José Antonio Basto - (poeta e pesquisador).

Uma curiosidade que tem como prova concreta de existência da Balaiada nesta fazenda é um ofício de época do Prefeito do Brejo ao "Vigário da Freguesia Mangabeira", datado de 1839 – que trata da denúncia da fabricação de pólvora caseira no lugar "São José das Mangabeiras". É sem dúvida um veículo da memória viva dos acontecimentos que por ali passaram. Segue na íntegra o referido ofício digitado obedecendo as normas gráficas do original:
 "DOC. Nº 30...
DO PREFEITO DO BREJO
AO: VIGÁRIO DA MESMA FREGUEZIA
Ilmo. E Reverendíssimo Senhor Vigário
Jerônimo Antônio de Proença Ribeiro
Foi-me denunciado que João Pereira Caldas, pessoas da casa de V. S., está na fazenda de V. S., denominada São José das Mangabeiras “fabricando pólvora”; e porque seja esta manufatura expressamente por lei proibida, acrescendo, ainda mais nas atuais circunstancias o ser bastante perigoso, segundo a proximidade em que estão os rebeldes da dita fazenda de V. S., e onde pretendem, segundo as noticias que se tem obtido, estacionarem-se; assim o levo ao seu conhecimento, para sua inteligência, a fim de que se inutilize semelhante fábrica, desonerando-se assim da responsabilidade que, aliás, tem V. S. perante o Governo legal do Senhor D. Pedro II.
De amor e zelo que V. S. tem pela tranquilidade pública, espero a mais rápida providencia.
Deus aguarde a V. S.
Prefeitura da Comarca do Brejo, 30 de dezembro de 1839.
Severino Alves de Carvalho
Prefeito da Comarca".
Tacho de ferro - (antigo engenho de cana de açúcar da fazenda). 
Uma possível fábrica de pólvora não é algo comum nesta região – é algo extraordinário; um tão pouco difícil e quase que inédito; todavia demonstra que nossa história ainda tem muita coisa pra ser descoberta, ainda desconhecida por essas matas e lugarejos.
José Antonio Basto
Poeta e pesquisador popular da Balaiada – Urbano Santos-MA.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A FONTE


I
Fonte linda de se ver

De banhar e de sonhar
De sorrir e ilustrar...
Um poema na memória, 
Resiste aos dias e noites,
Sol, chuva... Tempestades
Parada, fala com os astros -
Em noites de alegria -
Receba minha poesia 
Revivendo tua história.





II
Cantava os pássaros vibrando
No lindo dia raiando 

Na matutina beleza...
Sobre o roncar da magia 
Nas teclas da poesia 
No livro da natureza.
III

As flores rugem na curva 

A pétala vértice recurva
Quando a luz se jogou!
O gaturamo em seu canto
Nos grotiões e recantos
A nobre voz ecoou.
IV
Na lira das alvoradas

Estas águas consagradas 
Sobre a floresta imortal
Rebramando entre as matas
No horizonte desata!
O canto descomunal.

José Antonio Basto
Março - 2019.



quinta-feira, 21 de março de 2019

A chuva não atrapalhara a visita


A primeira reunião não dera certo. Não por causa da chuva, foi pelo contratempo. Estava quase tudo certo para a reunião do Fórum Carajás no P.A Baixão / Bacaba, zona rural de Urbano Santos. Os membros do Fórum Carajás conversariam com os moradores do assentamento naquele dia, com o intuito de ajudá-los através de um pequeno projeto de galinha caipira financiado pela ONG – “ASW da Alemanha”. Esses projetos espalhados por toda região do Baixo Parnaíba tem como principal objetivo fortalecer a renda familiar e a segurança alimentar das famílias camponesas – principalmente aquelas que vivem próximos às plantações de eucaliptos e soja - vítima do impacto direto do agronegócio. Visam também dá uma injeção de ânimo naqueles que lutam pela permanência física e cultural em seus territórios tradicionais, ou melhor dizendo, os que lutam pela terra. Uma iniciativa muito importante onde se trabalha com pouco, mas o suficiente para levantar e manter erguida a bandeira da agroecologia na região. Os desafios são grandes; experiências que dão certo e as vezes não. A intenção de ajudar os menos favorecidos gera “ciúmes” em alguns momentos, em algumas situações. Entidades como o Fórum Carajás são consideradas importantes para as comunidades tradicionais, outra reunião fora marcada com o mesmo objetivo. Informar aos assentados do Baixão/ Bacaba sobre a situação da realidade agraria no Brasil. Os problemas de acesso aos projetos para assentados e assentadas da Reforma Agrária. Conversaríamos sobre a questão do “Programa Minha Casa Minha Vida Rural”, donde eles tem demandas. É só uma questão de tempo. Além do Programa “Pronaf Mulher” e Projeto Agroextrativista  na Reserva Ecológica separada pelo INCRA – obedecendo a lei. A Comunidade Baixão dos Loteros tem uma historia  voltada para a colonização dessas terras, assim como a maioria das comunidades tradicionais habitadas por sertanejos há séculos neste pedaço de chão que é o Baixo Parnaíba maranhense. Quando o Baixão começou a ser colonizado partiu da construção de um curral para botar gado, depois veio a casa de fazenda que foi feita por uma das “famílias influentes”. Conta-se que possivelmente fora um “Quilombo de Negros” escravizados no passado. Por ficar em uma área estratégica entre a chapada e a mata – por onde passa um riacho batizado com o mesmo nome do povoado. Ali se desenvolvera a cultura de criação de gado e a produção de farinha – esta ultima, permanecendo e transformando o Baixão  em um vilarejo dos mais respeitados na fabricação de farinha de puba em Urbano Santos. Os conflitos sempre existiram nesta região. O saudoso Nonato Valentim na década de 80 foi um dos líderes da luta pela terra. Período esse um tão pouco difícil por ser ainda na ditadura militar. Os Camponeses tinham o apoio das Comunidades Eclesiais de Base  - (CEBs), que até então surgia na historia como um “Novo Sujeito Popular” e orientação sociopolítica e religiosa da Igreja Católica. A história se contradiz nas entrelinhas de quem a escreve. Poucos se escreve sobre conflitos fundiários – muito menos colocando o campesinato como figura importante no cenário político de transformação social e econômica. Mas na verdade quem assegura o alimentando na mesa dos brasileiros? Quem protege o pouco que resta das matas e cabeceiras de rios? Quem está preocupado com a água que abastece as comunidades e as cidades? A agricultura tem ajudado no entendimento de muitos em saber que a saída para melhoria de nossas vidas é a conquista, ocupação e produção da terra. Reunião dera certo – 27/02/2019. Avisava-se com tempo. Apesar da chuva foi possível uma reunião com os moradores do Baixão dos Loteros. Para melhores esclarecimentos sobre a vida da comunidade e a parceria de ajudar nesse processo de solidariedade e esperança.

José Antônio Basto
       

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A formiga em busca de direito

Pov. Formiga - "Seminário Direitos Humanos".

Dona Eva -, moradora da comunidade formiga - zona rural de Anapurus, convidava os companheiros do STTR de Urbano Santos para participar de uma reunião sobre Direitos Humanos. Dona Eva, o Izaias e a Francisca fazem o "Curso de Formação de Agentes Populares de Direitos", eles convidariam o José Antonio Basto, militante social para ajudar na transmissão das informações burocráticas sobre o que é "Direito Humano". Os três concluíram o “II Módulo do Curso”, este que é organizado pela SMDH - Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos. A Associação preparou o ambiente com símbolos ligados à luta da comunidade pela posse da terra, materiais importantes como: coco babaçú, palhas, cofos, cabaça, fruto do buriti, linho do buriti e muitas frases coladas no painel sob o fundo de um banner com o nome do evento. 
A Comunidade Formiga é um dos povoados mais isolados de Anapurus, por ficar exatamente numa linha de transição entre dois municípios – Urbano Santos e Anapurus, seguindo o nível do rio que passa pelo Povoado Bom Fim. Ali se desenvolveu o patriarcado de famílias influentes que tinha como poderio o domínio das terras e o comercio local. Durante toda história, os agregados levavam uma vida de servidão e consideravam comum.
Preparação antes do Seminário.
O Coronel e/ou fazendeiro, proprietário dominava seus agregados que viviam humilhados e trabalhando em situações análogas à escravidão. Formiga compõe o conjunto de fazendas do século XIX, "Ciclo das Fazendas", assim como as fazendas vizinhas Bom Fim, Boa União e Palmira. Alguns posseiros e pequenos proprietários das heranças se vê hoje acusados pelo programa do agronegócio. São proibidos de exercer suas atividades rurais e de colher os frutos da chapada. A terra está em questão e existe um processo jurídico tramitando na justiça envolvendo famílias camponesas a Empresa Suzano Papel e Celulose. Os agricultores pretendem construir um
Ornamentação do Seminário.
campo agrícola dentro da área para melhorar a produção, mas estão com medo da Suzano barrar o serviço. Nesse caso somente eles devem manter a resistência, assim como fez a vizinha Comunidade Bracinho em 2011.
Pequizeiro do Pov. Bela Vista.
 
Os moradores da Formiga são desprovidos de uma série de direitos mínimos, como educação e saúde, a comunidade já teve um caso de despejo de famílias. Eles trabalham na agricultura, criam gado e pequenos animais. O interessante é que quase todas as famílias produzem o linho do buriti, extraem dos brejais, secam no sol, armazenam e vendem para compradores de Barreirinhas. Eles ajudam no comércio sustentável do artesanato que movimenta uma grande renda no setor de turismo na região dos lençois, no país e no exterior. Talvez, os tiradores de linhos de buriti nem sabem disso, pois a maioria são analfabetos e vendem um quilo de linho no valor de R$ 8,00 reais. Durante a roda de conversa discutia-se os pormenores principais do entendimento sobre o que é "Direitos Humanos": partindo para os assuntos da Declaração Universal dos Direitos Humanos que completou 70 anos em 2018, Constituição Federal de 1988, Direitos e Deveres dos cidadãos, Reforma Agrária, Direitos Coletivos, Direitos Individuais, Pedagogia da Proteção e Direitos Socioambientais. Uma injeção de ânimo na luta camponesa que durante séculos conquistara seus direitos,
J. A. Basto, Sr. Calixto e Dona Maria - "Pov. Bebedouro".
hoje ameaçados pelas reformas trabalhista e da previdência. Foi feito uma reflexão sobre a luta dos primeiros líderes nesta região, a exemplo dos Balaios liderados pelo vaqueiro Raimundo Gomes, o agricultor Francisco Manoel dos Anjos (Balaio) e o quilombola Negro Cosme Bento das Chagas. Estes que diga-se de passagem, deram os primeiros passos em busca da Reforma Agrária, conquista de direitos fundamentais para os sertanejos do interior do Maranhão e sobretudo a liberdade. 
A reunião terminava meio dia. Um almoço fora oferecido pelos donos da casa: porco caipira, com sobremesa de jaca tirada fresquinha do pé no quintal. Nós ainda tínhamos um compromisso de ir buscar um
"P. A Bebedouro dos Calixtos".
bode no “Assentamento Bebedouro” que ficava do outro lado do rio. Nos despedimos e seguimos caminho, uma chuva tinha caído naquela madrugada daí as estradas estragava o diferencial da caminhonete. Cortamos as chapadas voltando pelo Bom Fim, passava em Centro Velho, Bela Vista, Bacaba, São Cosme, Cajazeiras, Todos os Santos até o Bebedouro. Visitava os amigos de luta: Dona Raimundinha - Delegada Sindical, seus filhos que lhe ajudam na luta e o Velho Calixto - patriarca da comunidade. Negociava-se o preço do bode, depois de muita conversa com o Seu Ananias decidimos comprar o animal.
Zé do Bebedouro, alimentando seus animais. 
Que vai dá fruto a um "artigo" em prosa mais na frente. Já estava anoitecendo e tínhamos que voltar para casa e, ainda mais pelos caminhos aplainados da Suzano, mas os campos de eucaliptos estão passando pelo corte e os caminhos ficam invisíveis, facilitando a desorientação e até em alguns casos os viajantes se perderem. Voltamos pela estrada do Quilombo Bom Sucesso, Pedra Grande, Lambuso,
Surrão, Raiz, Santa Maria e Fortaleza até chegar em nossas residências. Mais um dever cumprido.

José Antonio Basto



quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A COLONIZAÇÃO DO CERRADO BRASILEIRO E A RESISTÊNCIA DOS POVOS DESSE CHÃO


Reunião da CPT e entidades envolvidas no projeto - São Luís, 29/01/2019.
Quando se fala no processo de colonização de terras no Brasil, imaginamos  logo de imediato na memória os antecedentes criminais de quando e como a questão das terras brasileiras foram colonizadas e exploradas, primeiramente pela "Coroa Portuguesa", em seguida pelo Império e, mais tarde pelo sistema político adotado pelo "Coronelismo" no início da República Velha. Sendo os portugueses e seus descendentes - os herdeiros da estrutura agrária deixada no interior das entranhas de um "Brasil de Mãe Preta e Pai João" . Ficara para trás, sem piedade, um legado de violência contra os índios, agricultores, sertanejos, assentados, quebradeiras de coco, pescadores, e tantos outros grupos de negros aquilombados que sofreram mais de 300 anos de cativeiro em situações desumanas. Essa herança de dor, desrespeito, desacato e expropriação das terras se refletem com clareza no espaço que compõe hoje o maior e mais rico bioma que é o "Cerrado Nacional", se estendendo por vários estados e regiões diferentes. Ocupando aí, um grande território riquíssimo em biodiversidade de fauna, flora, minério e sobretudo água. As grandes bacias hidrográficas dos principais rios do país estão no "CERRADO". Sendo assim, botando em disputa no leilão econômico do mundo a cobiçada "Caixa D'água" que abastece a nação e alguns países da América Latina. O Cerrado há algumas décadas atrás tem sido ocupado e colonizado de forma veloz e avassaladora pelo grande capital nacional e estrangeiro, por via das "políticas de commodities" flexibilizando a balança e bolsas de valores de países ricos da Ásia, Europa, África e América. Representado e financiado pelo agronegócio da soja, eucalipto, criação de gado, construção de barragens e mineração. Botando então em jogo a vida dos povos e comunidades tradicionais que sobrevivem diretamente dos recursos naturais tirados da terra, das florestas e das águas desde séculos remotos. São muitos os casos de conflitos fundiários que vem se perpetuando ao longo do tempo e, ainda mais agora onde os sistemas políticos e administrativos, principalmente a esfera federal têm apresentado uma "filosofia prática" de criminalização dos movimentos sociais, com favorecimento ao latifúndio e as grandes empresas que vêem a terra como um simples instrumento de capital e poder. O Maranhão se enquadra nesse jogo como o viés principal de produção, exportação e escoamento de produtos através de seu posicionamento geográfico privilegiado de PORTOS  como o "Itaqui". Com a mudança sistemática de governo, o movimento camponês tem sofrido com contínuas ameaças sistemáticas de reformas e MPs que visam destruir conquistas memoráveis desse seguimento tão importante que foi escrito com muita luta e derramamento de sangue dos heróis companheiros e companheiras que nos dão forças pelo que fizeram em vida. Com esse espírito fraterno, modesto e solidário a "Comissão Pastoral da Terra" - (CPT) - num evento realizado em São Luís, dias 29 e 30 de janeiro de 2019, lança com participação de várias entidades e seguimentos sociais a primeira edição da "Revista Cerrados" e o documentário "Cerrados: Rostos, vidas e identidades". Com o intuito desse veículo servir como instrumento de luta contra as adversidades apresentadas nesse momento um tão pouco complicado da histórica do país.

José Antonio Basto

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

UM CERTO GUIMARÃES

Mayron Regis, jornalista, cronista, ensaísta, assessor de comunicação do Fórum Carajás e sobretudo ambientalista... Talvez não seja um Guimarães Rosa da vida, autor de "Grandes Sertões: Veredas". Ele ainda não escrevera sobre os Sertões do Norte Minas - talvez. Mas ver com veemência os problemas sociais e socioambientais do Baixo Parnaíba Maranhense e de outras partes do Maranhão. Ele escreve bíblia, como dizia o amigo sociólogo Iran Avelar. Suas bíblias, ironicamente não falam da religião hebraica, mas falam das fronteiras do agronegócio no estado do Maranhão, ou em partes de suas fronteiras. Mayron escreve sobre o sertão... Sobre a resistência das comunidades em defesa das chapadas e dos bacuris... Dos territórios. Mayron escreve sobre gente, sobre bichos, árvores e frutos. Um escritor de cunho social que não se preocupa com as normas e estilos literários, nem com escolas de épocas, tanto pelos seus críticos, muito menos pelos seus leitores, ele não se importa... Ele tenta mostrar o que é certo e o que é errado. Escreve o que vem do coração. Sua prosa, um tão pouco poética nos faz refletir quando se ler as obras de Caminha e José de Alencar... E o próprio Guimarães. Viajar pelo sertão do Maranhão e descrever seus problemas não é tarefa muito fácil e, ainda mais, quando se vive a tarefa. É uma questão de determinação. Este jornalista ambiental faz isso com mestria, como Camões escrevera seus magníficos Sonetos e os Lusíadas. Regis, além das letras é um comunicador que também entende de criações de galinhas. Seus trabalhos são respeitados, não pelo estilo, mas pela narrativa e originalidade da obra, da qual tem haver com o dia-a-dia no campo. 

José Antonio Basto. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Soneto de ano novo


As luzes brilharam lá no céu!
A estrela vésper no oriente acendeu
O canto do galo ao norte respondeu
Uma mensagem gravada no papel.

A obra maior de um menestrel
É o "Novo Ano" que o amanhã amanheceu
De cima a glória então desceu...
Vindo sonhos escritos em doce mel!

Tantos dias se passaram  em sombra oculta...
Tantas coisas... Mentiras e verdades!
Consciência é a maior de todas as consultas...

Foram trezentos dias de saudades!
Vem mais trezentos dias de labuta...
Desejo-vos muitas e muitas felicidades.

José Antonio Basto
31/12/2018.