![]() |
| Assembléia com participação popular |
![]() |
| Bispo Dom Valdecir e J. A. Basto |
![]() |
| Francisca, Drª Luzia e J. A. Basto |
![]() |
| Drª Luzia, Raimundo e Francisca - (STTR) |
![]() |
| roda de conversa |
Brejo,
13/09/2021.
# PROSA POÉTICA SOCIOAMBIENTAL, ENSAIOS, QUESTÕES AGRÁRIAS NA REGIÃO DO BAIXO PARNAÍBA MARANHENSE E DIREITOS HUMANOS.
![]() |
| Assembléia com participação popular |
![]() |
| Bispo Dom Valdecir e J. A. Basto |
![]() |
| Francisca, Drª Luzia e J. A. Basto |
![]() |
| Drª Luzia, Raimundo e Francisca - (STTR) |
![]() |
| roda de conversa |
Brejo,
13/09/2021.
Será que a abolição da escravatura de
13 de maio de 1888, resolveu os problemas de milhares de escravos no Brasil? Os
movimentos abolicionistas pregavam a liberdade por completa e não apenas pela
metade como aconteceu. Nomes como os de Joaquim Nabuco, José de Patrocínio e o
poeta Castro Alves foram vultos da história que merecem ser lembrados pela
grande contribuição a respeito da liberdade dos negros e negras deste país,
além de muitos outros líderes que se doaram à causa da luta contra o mais
horrível e hediondo dos sistemas que perseguiu a humanidade, principalmente o
povo negro africano.
Os problemas sociais no Brasil, em
especial o da escravidão negra, foram mazelas e feridas que ainda hoje não cicatrizaram
e continuam na alma e na lembrança dos afro-brasileiros. Os mais de trezentos
anos de cativeiro negro e indígena que perdurou em nosso país – dizimando o
continente africano, foi sem dúvida uma das maiores vergonhas machas desta pátria.
Uma coisa não é lembrada: os escravos nunca aceitaram a escravidão, fugiam e
formavam quilombos, resistiam aos ofícios não fazendo os trabalhos ordenados
pelo patrão, quebravam instrumentos de trabalho, as mães num momento desesperador
até abordavam seus filhos para não vê-los futuros servos dos senhores brancos,
em fim... A luta dos negros foi acirrada: Zumbi foi assassinado, Negro Cosme enforcado
em praça pública para assim mostrar o poderio do estado repressor. Mais de 18
milhões de africanos foram deportados da África para o Brasil, a Lei Eusébio de
Queirós proibira o tráfico de escravos da África para o Brasil, mas isso também
não valeu a pena, porque o tráfico de negros continuou na clandestinidade por
um bom tempo.
O
período literário do “Romântico” no Brasil principalmente a terceira fase,
(condoreira), foi um dos alicerces para que grupos de intelectuais
influenciados principalmente na Revolução Francesa formassem grêmios com o
intuito de discutir uma política de apoio aos escravos. Esses grupos deram
origem às chamadas “Sociedades Abolicionistas” – essas organizações tinham o
objetivo de alforriar escravos, esconder negros fujões das fazendas até que
conseguissem achar um quilombo. Uma campanha foi idealizada, mas quando deu
certo não foi cumprida porque muitos negros após o 13 de maio de 1888,
continuaram sendo escravos do preconceito e da discriminação racial até os dias
de hoje. A abolição de 13 de Maio foi inacabada porque a D. Isabel apenas
assinara com um traço de pena a Lei Áurea, uma vez que ela nunca realmente
lutou por uma bandeira abolicionista. Assinara por pura pressão social. A
abolição foi inacabada porque os afro-brasileiros ainda apresentam os maiores
índices de analfabetismo, as favelas, guetos e cortiços em suas grandes maiorias
são habitados (as) por negros; morre mais jovens negros no Brasil do que jovens
brancos; há quem diga é porque são pobres, sim a escravidão negra sempre
mostrou essa face criminosa do desamparo, da angústia, desrespeito e pobreza,
são pobres e são negros. Uma sociedade com problemas de escravidão não tem como
avançar no que diz respeito à economia e o progresso. A História do Brasil é
uma história feia, são páginas de opressão e sofrimentos, um sujeito só faz um
serviço com gosto se realmente for remunerado, claro que o progresso se estende
através do trabalho assalariado. A escravidão negra ainda nos reflete um quadro
obscuro e sem escrúpulos, as lutas sociais, a rebeldia dos jovens e os sonhos
de um dia ter uma vida melhor, foram as bandeiras que hasteadas para o sol
nascente alcançaram a vitória de uma luta que durou mais de três séculos. Essa
luta que esteve na imprensa e nas linhas dos poemas calorosos de Castro Alves,
anuncia agora com muito otimismo a “A
abolição Social” dos negros e negras dos nossos dias atuais. Queremos ouvir
o som do berimbau, do atabaque e do agogô... Queremos cantar e brincar em
homenagem às flâmulas que conseguiram a abolição mesmo pendente. Abaixo os 131
anos da falsa abolição nesse 13 de maio de 2019, essa luta é de todos nós, o
Brasil precisa erradicar urgentemente a escravidão social das páginas de nossa
história.
“Minha
alma ainda treme de frio e indignação quando se lembra da chibata que assolou o
couro dos meus irmãos cativos.”
(anônimo)
José Antonio Basto
Há muitos anos atrás quando eu era
menino, ainda não muito interessado por pesquisas, lembro que conversei com o
velho saudoso e já falecido, o Sr. Chico Quilarindo, uma figura extremamente
misteriosa e cheia de sabedorias, usava um relho de couro de boi e dizia que
era para surrar lobisomem. Ele parecia com aqueles magos dos contos de fadas
medievais, usava barba e cabelos compridos, Chico era morador da comunidade
Porto Velho, em uma de suas narrações, lembro que contara que seu avô tinha
participado de uma certa guerra naquelas imediações, conhecida como “Guerra do Bem-te-vi”. Então eu ficava
curioso e como sempre gostei disso perguntava pra ele que guerra era essa. Foi
daí que recordei e acabei descobrindo que a tal guerra foi realmente a Guerra
da Balaiada ou talvez os cacoetes que restaram desse movimento conhecido também
como insurreição dos balaios (1838-1842).
Uma coisa interessante que achei em
minhas pesquisas foi a citação no livro álbum “Quilombo – Tradições e cultura da resistência” na parte que explica
sobre as comunidades remanescentes de quilombos demarcadas no território
nacional, onde encontrei o nome da comunidade “Porto Velho” -, município de Urbano Santos-MA, na Região Nordeste,
na tabela de numeração nº 701, página
193, onde também Belágua, antes está
citada na numeração 700 e que poderia ter sido um quilombo do município de
Urbano Santos quando a cidade ainda era uma vila: Mocambinho ou Ponte Nova, Belágua
foi emancipada em 1997, sendo que a mesma foi povoado de Urbano Santos por
muito tempo. Mas tratando-se de Porto Velho, Chico contava a história de um pai
e um filho que moravam lá onde hoje em dia é um bar de propriedade do Sr.
Dondim, no local percebe-se ainda um ar de lugar antigo com valas e taperas. Eles
dois pai e filho moravam sozinhos, o velho pai sabia de mandingas e mágicas,
era o período da guerra, o velho era todo marcado de balas, seu corpo segundo
as afirmações do Chico, era marcado por golpes de facas e furos de balas -, mas
ele não sentia nada. Contara que o velho desaparecia nos meios dos caminhos e
fazia sair água das bocas das espingardas e revolveres que eram apontadas para
ele, em fim... coisas místicas que dava até medo em ouvi-las. Muitos pés de
mangas, babaçu e azeitona existem por lá, o lugar das antigas moradias parece
mesmo centenário. Um fato interessante que aconteceu nesse lugar foi a história
do Zé Loló -, um senhor filho da antiga proprietária do lugar, a Dona Loló; Zé
um dia foi arrancar minhocas para pescar e ao cavar ele descobriu uma caixa de
cobre próximo às margens do Rio Mocambo, dentro da caixa tinha cascas de balas,
uma arma muito antiga e já enferrujada, petecas de chumbo e um canivete... tudo
coisas de séculos passados. Esses objetos foram vendidos muito baratos para certa
pessoa que por lá apareceu e com certeza viu o valor histórico e cultural que
as peças tinham. A outra questão que coincide o fato de Porto Velho ter tido a
presença de escravos no período da Balaiada é porque o povoado é vizinho da
outra comunidade conhecida como “Escuta”,
mas por que esse nome? Chico contara que o nome escuta devia-se o fato dos
insurretos escutarem o barulho das embarcações sobre o Rio Mocambo que estavam
a procura dos rebeldes, os revoltosos escutavam e avisavam os companheiros do
perigo, adentravam-se então nas matas, amocambavam-se, daí o nome do rio “mocambo” e escondiam-se dos guardas
legalistas do império, entrincheirando-se. Paralelo com o Povoado Escuta do
outro lado do rio está a comunidade Baixa Grande, onde existe um cemitério
secular que pode ser uma das provas consistentes da memória de outras gerações
em nossa região.
A comunidade tradicional de Porto
Velho hoje não é vista como quilombola, mas tem ligações ancestrais no que se
diz respeito ao memorial do nosso povo. Os atuais moradores vivem da roça de
subsistência, da criação de gado e outros pequenos animais como galinhas,
capotes e porcos num sistema de desenvolvimento rural sustentável na
agricultura familiar, tem áreas de brejais com muitos buritizeiros, nas margens
do rio, podemos encontrar espécies raras de plantas e frutos como o murici da
beira do rio, olho de boi, pitomba-de-leite e cajuí. Porto Velho fica situado
há poucos quilômetros da sede de Urbano Santos, sendo uma das comunidades mais
próximas, mas a estrada que lhe dá acesso ainda é rudimentar. A comunidade tem
um valor importante completando-se nos breves encontros e desencontros de nossa
tão rica e ainda desconhecida historia de Urbano Santos e Baixo Parnaíba.
Poeta e
pesquisador
Urbano Santos-MA, 09/09/2014
Poucos sabem da terra em que moram,
alguns nem pouco, nem muito, demoram para entender a ancestralidade. Pra que
vender uma terra que tanto deu trabalho para consegui-la? Todos devem ou
deveriam saber ao menos do seu real valor. Eles lutariam juntos, ajudava-se
para orientação quando necessário e da maneira que se podia ajudar. A ganância
pelo dinheiro mudara o destino do vilarejo. O capitalismo às vezes acaba
mudando o pensamento e a ideia do homem. Esquecem dos dias de labutas e
batalhas, o capitalismo abusa de um sistema, porque são iludidos. Pra que
enriquecer? O homem simples do campo tem tudo que precisa quando tirando da
terra que tudo dá... água, alimentos, frutos da mata e da lavoura. Precisam
viver bem e a terra é sua grande mãe. Algum tempo passaria naquela terra e por
que não passar! Se a terra donde moram há décadas, o tempo foi sempre seu
espaço de luta. Ela daria muito trabalho para adquiri-la judicialmente –, então,
um longo conflito fora travado contra os que diziam serem donos, a associação
camponesa resistiu a ferro e fogo, com unhas e dentes e então por fim
alcançaram a vitória desejada, graças a resistência e a coletividade dos
trabalhadores rurais.
José Antonio Basto