quinta-feira, 17 de setembro de 2020

PASSAGEM DO VIAJANTE PELA SEDE DA CIDADE DE URBANO SANTOS PARA UM DEDO DE PROSA COM OS AMIGOS

O Viajante acordara de um longo e cansativo sono existencial. Ele vinha das bandas das terras dos campos arenosos de Humberto de Campos, por aquelas estradas cheias de lagoas. Saia de Santo Amaro e Primeira Cruz - pela zona rural, lembrando os antigos caixeiros nordestinos dos tempos passados. Praticara o caminho pela "Lagoa do Casso", por ser um final de semana, tinha uma grande aglomeração de banhistas naquele importante ponto turístico. Caminhava com seu "alforje de caçador" -, um surrão de pano com livros e outros papéis - documentos bem antigos; tinha também alimentos para as horas difíceis; parava de povoado em povoado para pedir um copo de água e as vezes um punhado de farinha, nada foi lhe negado pelos camponeses que ouviram falar de suas aventuras. Por causa da "Pandemia", seguiu caminho afora pela Comunidade Vertente de Baixo. Chegara na sede da cidade e procurava o Mercado Central de Urbano Santos, mais conhecido como Centro de Abastecimento de Alimentos. Ele conversava com amigos companheiros - estes, porventura moradores da Vertente, antes passara em "Mocambinho dos Balaios" e Vertente de Cima -, sendo estas, duas áreas de terra com o mesmo nome e reconhecimento. O Estado ainda deve demarcar estas terras, assim favorecendo os moradores com seus títulos de posseiros e arrecadações sumárias. Uma família tradicional de posseiros mantiveram o direito de propriedade com o documento do Título Comunitário, reconhecido pelo ITERMA e órgãos fundiários de outrora. Vertente de Baixo e Vertente de Cima São dois povoados em um só, de uma mesma família de posseiros tradicionais. A faixa de terra pega uma grande área de chapadas, carrascos e matas por onde desce o Rio Mucambo com seus riachos e afluentes. Vertente possivelmente fora um quilombo no passado, pelos vestígios e modos de vida dos moradores. A conversa fluía num boteco que fica em um dos bosques dentro do mercado, cujo dono do ambiente era um velho morador de Vertente de Cima. Ele disse que constantemente assina "Declaração de Proprietário" - para o reconhecimento do exercício de atividade rural daquela gente que as vezes precisam para requerimentos de benefícios previdenciários. Um momento a parte, modesto... quando se trata de benefícios da Previdência Social, principalmente neste momento conturbado da história do país e da perdas de direitos. O Viajante passeava pelas bancas do mercado por gostar de feira e do cheiro de peixe seco; conversava com cada um dos feirantes, mototaxistas, peixeiros e outros trabalhadores. Percebera de tudo, o que estava sendo comercializado ali, produtos da terra e regionais: mel de abelha, tiquira, cachaça, coco babaçu e da praia, camarão, farinha seca e de puba, grolado, azeite, macaxeira, juçara, galinha caipira, leitões, carne de bode e até uma banca de "livretos de cordel". A movimentação na feira de Urbano Santos é grande, em especial aos "dias de quinta", o povo acostumou fazer suas compras especificamente neste dia. A cada momento o Viajante falava com um conhecido, pegava na mão de um amigo, tocava no ombro de outro - cumprimentava-os com respeito e grande dedicação e, quase sempre as mesmas perguntas eram lhes dirigidas: "Por onde andara todo esse tempo, pelas matas e povoados?" Um peregrino aventureiro, desbravador do sertão e de lugarejos, fazedor de amizade com todo mundo. O Viajante demorou na cidade, quase o dia todo e ao se aproximar a noite partira na sua missão rumo às fronteiras do "Rio dos Pretos". De fato cumprira ali, por mera conscidencia do destino mais uma vez seu simples ofício e papel de repórter que tende registrar com palavras escritas as coisas simples da vida, sempre com humildade e respeito. 


José Antonio Basto
julho - 2020

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Batuque do pilão em Santa Rosa

Quando se anda pelas chapadas se ouve muitos sons: pássaros, cigarras, insetos, cantos de galos, gritos de caçadores, latidos de cachorros acuados e tiros de espingarda. O Viajante solitário adentrava as chapadas e cerrados ao nível do Rio dos Pretos, com o intuito de visitar alguns velhos amigos que por ali deixara. As chuvas densas tem castigado os caminhos daqueles vilarejos, esbarrocando e deixando marcas. Sem muito compromisso, a viagem a cada momento se tornava interessante, primeiro pelo fato da ideia de ter um dedo de prosa com os amigos camponeses sobre a questão da terra – polêmica terra; depois para matar a saudade de andar por as matas sentindo o cheiro do chão e da natureza em busca de novas aventuras. A motocicleta atolava a cada obstáculo de lama, para complicar a situação levantava para o nascente as nuvens carregadas que prometiam um grande temporal desses de fevereiro. As chuvas dessa época não respeitam e nem aguardam por ninguém, ela desaba do céu sem muita piedade e quem estiver debaixo que se cuide. Então a santa água caiu com gosto e com força. O Viajante se encostara a um pé de bacuri para se proteger daquele temporal repleto de relâmpagos e trovoadas. Já era tardinha, por volta das cinco horas ou mais. A chuva foi passando e o tempo como se diz, limpando. Pensava-se de voltar, mas não desistira da viagem, ligava a moto e acelerou; uma zuada! A nambu de pé "encarnado" cantava à beira do caminho; os gritos de camponeses chamando uns aos outros ecoavam, desciam de suas roças e seguiam para suas casas. As estradas dos vilarejos do Baixo Parnaíba se modificam pela ação do agronegócio. Por isso para quem as não conhecem fica muito fácil se perder pelos caminhos aplainados da Suzano. Uma ladeira de pedra dava acesso ao "Riacho Santa Rosa" que mais em seguida descia no pequeno povoado. O Viajante se aproximava devagar por uma ladeira de pedra, pois em áreas de conflitos se deve ter cuidado quando se chega. O pilão roncava com suas batidas fortes tirando a palha do arroz, batida de pilão é coisa antiga – e bota antiga nisso. Dona Maria e Zé Souza - donos da casa, davam as boas vindas ao amigo de lutas e convidava-o para jantar um capote ao leite de coco, que coisa boa e, ainda mais com o arroz natural da roça sucado no momento. Como recusar um convite desses. O Viajante ficava por ali mesmo, antes de seguir para as outras bandas da Comunidade Porção subindo as cabeceiras do Rio dos Pretos rumo ao "Quilombo de Lagoa Amarela", quartel general do Negro Cosme do tempo da Balaiada.

José Antonio Basto

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A panela preta

Na hora da foto ela ficara com vergonha de sua famosa "panela preta" ser vista por outras pessoas, além da gente que é acostumada em sua casa. E ainda mais, quando se trata de postagens na internet que mais tarde pode virar domínio público. Explicava então que tomaria todos os cuidados necessários caso permitisse a publicação do texto e da imagem da panela, pois muita gente gosta de ler e apreciar as tradições e coisas da roça. Mas ela não sabia da importância de se possuir uma [panela preta] daquelas que tem seus mais de meio século de existência, pertencera sua avó, depois seus pais, ultrapassara as barreiras do tempo até a terceira geração. Panela de ferro no fogo de lenha, o tempo lhe deixara preta pelo excesso de fumaça das "trempes de pedras" - (três grandes pedras que servem de fogão). Pensara-se numa prosa, quando o Viajante voltasse de seu ofício. Há dias não caminhara por aquelas bandas. Resolveu então mudar o trajeto da viagem, saíra do leste e fora para o oeste. Regiões diferentes pelo clima e pelas vistas, matas e florestas... lagoas e alagadiços... opostos, com situações socioambientais incomuns. O objetivo da escrita não era aquele, os desafios fazem parte da vida humana desde a criação do homem; mas as vezes é preciso falar de novas esperanças para um mundo novo - mesmo que esse pensamento seja utópico ou venha cair num romantismo. A prosa se ensaia em direção às vivências dos povos tradicionais, sua cultura e tradições que alimentam a vida, seus problemas agrários, as belezas naturais numa dose de poetização sociocultural e socioambiental. O Viajante abancara ali naquela moradia, seus anfitriões o convidara para degustar um prato de "quibebe de abobora", feito na velha panela de ferro. [Quibebe é um prato de origem africana, típico da culinária brasileira preparado principalmente nos quilombos rurais e comunidades tradicionais da Região Nordeste. É um purê de abóbora que acompanha, geralmente, carne, frango, camarão ou peixe. A palavra "quibebe" é um termo originário da língua (“quimbundo kibêbe” -, que significa angu ou massa de tubérculos, mandioca, abóbora, batata...etc...). Esta língua ainda é falada em algumas regiões da África Oriental. Chegou ao Brasil com os negros que foram escravizados. Um dedo de prosa! Enquanto os pratos esfriavam na mesa. Falava-se nas roças de verão, na produção e preços da farinha de puba que teve suas elevações pelos fenômenos anteriores. A hora era chegada, ouvia-se o chamado, a carne e o peixe seco estavam na brasa... chiando... acompanhariam o quibebe, o cheiro era bom. Cedo da manhã, uma dose de energia certa após uma "pratada"- de mingau de abóbora com leite de coco babaçu e carne assada. Lembrava-se dos tempos antigos quando tudo era diferente nas comunidades rurais do interior; quando os mais velhos se alimentavam bem com produtos naturais e orgânicos; viviam longo tempo porque sabiam disso. Alguns modos de vida foram caindo no esquecimento ao longo das décadas, infelizmente, uma perda para a cultura. Deve-se manter o que ainda restou. E a panela preta? Uma foto apenas com o purê de abóbora que estava ao fundo. Ela não sabia da repercussão e valorização dos que visualizaram a imagem da panela e do quibebe! A famosa panela que também torra café de coco, esquenta a água para pelar leitão, cozinha peixe ao leite de coco e arroz na palha de banana. Incrível suas utilidades... orgulho de sua dona. Após a merenda extraordinária o Viajante seguira rumo aos campos arenosos em busca de novas aventuras e conteúdos para seus pedaços de prosa. Ele voltaria para mostrar aquela Senhora a curta, simples e modesta matéria, fruto do seu talento e manutenção dos modos de vida dos povos que moram, trabalham e vivem nas comunidades tradicionais.

José Antonio Basto


terça-feira, 30 de junho de 2020

A trilha

("Basto - Pov. Bebedouro")

Viajaria pelas velhas trilhas e veredas dos antigos e valentes guerreiros insurretos, por estreitos caminhos, subindo serra e descendo ladeira – o vilarejo se chamava “Bebedouro” – à margem esquerda do Rio dos Pretos, município de Urbano Santos. O Baixo Parnaíba é um território diferenciado que liga de norte a sul a chapada (cerrado) ao Oceano Atlântico – de leste a oeste o Rio Parnaíba ao Portal dos Lençóis maranhense. O Viajante trilhava pelas comunidades tradicionais daquela bela região –, aventurando-se, dirigindo, cavalgando, pilotando e até a pé. O tempo estava seco – o sol escaldante, muito fogo nas chapadas; a chuva suspendera o ciclo. As chapadas estão verdes e os bacurizeiros floridos – sinal de uma boa safra mais na frente. Acampava-se ali o “Viajante do Leste” naquela província, sobre as margens do Rio Preto e/ou “Rio dos Pretos”, assim melhor chamado. Em algum lugar exatamente na fronteira de Urbano Santos com Chapadinha. Terra onde seus irmãos Balaios possivelmente passaram em suas empreitadas contra as tropas legalistas do governo imperial; próximo aos quilombos de Bom Sucesso dos Pretos (Mata Roma) e Lagoa Amarela (Chapadinha). Décadas se passaram, séculos... O registro ficara e a prosa também. A história testemunhara a geografia, relações sociais e modos de vida deste povo, enxergados de longe a cada momento em que se passa por dentro ou perto de suas palhoças. Seguia caminho o Viajante rumo a um destino reservado de acontecimentos, experiências de ensino-aprendizagem... Composição... Leitura... Vivências.

José Antonio Basto

domingo, 24 de maio de 2020

AS DORES DO MUNDO!

Basto - [ autor ]
Canta-se cantando a amarga melodia
Tristes lágrimas de sangue ainda caem
Dos guetos e comunidades a cada dia
Os filhos da terra choram e se distraem.

Tristes histórias rodeiam tantas vidas
Sonhos destruídos na agrura ao fio dor
Rancores do vento no sopro da partida
Uma voz suplica o destino e o valor!

Uma criança desnutrida, abandonada, implora!
Com fome, sem pai, sem mãe... sem lar!
_ Na sombra de um sobrado solitária se apavora!
E de sede e angústia no seu quarto vai chorar.

Os filhos nascem de um único ventre nobre
Se separam e se unem ao mesmo tempo
Em ouro, prata, diamante e cobre,
Entre a sorte e a fado no próspero firmamento.

Avalanche passa na música com otimismo
Em meio às grandes chuvas e violentas tempestades
Como a água se consagra no poder do batismo
Ó Senhor Deus! Tenha pena da humanidade.

José Antonio Basto
Maio - 2020.
° "Esperança de novos tempos".

sexta-feira, 15 de maio de 2020

A barreira que não deixara seguir até Bacabal

A caminho - [Basto]

Na reunirão  - [Basto]

Cortava-se a Chapada do Meio. O jornalista Mayron Régis, que mais se parece um sertanista marcara aquela viagem e uma possível pequena e não demorada reunião. Era tempo de inúmeras chuvas na região, inverno pesado e bom criador dos frutos da roça. Os caminhos nessa época costumam a se modificar. Estava tudo certo pra reunião em Bacabal e Santa Rosa; os dois povoados se resumem em um só. Os moradores de Santa Rosa enfrentam um conflito com os garretos há tempos. José Antonio, escritor, em nome do Sindicato dos Trabalhadores Rurais fez a intermediação entre o fórum Carajás e a Associação de Moradores -, estava convicto da conversa e troca de informações entre ambos. Mas não saíra como planejara. A estrada cheia de lama não deixou o carro passar, era um carro pequeno. Ainda se tentou por outros lados via chapadas e arrodeios, mas nada, a lama vermelha imperava no caminho, uma ladeira lisa que o carro podia até descer na ida mas teria dificuldades de subir na volta. Basto ficara penando na dívida com esta reunião, decidira então seguir viagem no dia seguinte. Um sábado de Aleluia. Seguiu! Dia esse um tão pouco complicado para reuniões, mas Bacabal e Santa Rosa merecem créditos. Santa Rosa recebeu um mandato de despejo por parte do Fórum da Comarca de Urbano Santos. O Zé Souza, agricultor, modista do chapéu de palha mora em Santa Rosa e por coincidência já sofrera dois despejos em Prata do Hilton onde morava ele e sua família de mais de dez filhos. O Zé estar com medo e, com razão. Os moradores de Santa Rosa e Bacabal vivem da produção do campo, são lavradores criadores de pequenos animais, caçadores e coletores; lembram muito os moradores de outro povoado -, o São Raimundo. Existe um rio por nome "Rio dos Pretos", objeto de disputa entre o cara de São Paulo que se diz dono da terra e quer doar apenas 200 hectares pra mais de 30 famílias e os camponeses que moram, trabalham e pescam lá há décadas para assim garantir o sustento de suas familias. A terra toda em Bacabal mede 623 hectares, que antes, muito antes, com certeza, era terra devoluta e sem dono. 

José Antonio Basto.



quarta-feira, 6 de maio de 2020

DIAS DIFÍCEIS: ESPERANÇAS DE NOVOS TEMPOS!


Vamos de sorrisos e não tristeza!
Dias difíceis descer a correnteza
Insistir na força e na certeza
De bons sonhos vir ao vento_
Neste brilho do olhar a cada dia_
Otimistas lutando com energias
Resistência magnífica em magia
Acreditando em novos tempos.


Foi uma época em que tudo era verdade
Sem sofrer nos mistérios da maldade
Vivia-se com felicidade...
Pois não se tinha bola de cristal!
Mas o mundo virou-se em agonia
Atingido por tantas epidemias
Levando muitos à laje fria!
Num golpe único e fatal.


Senhor Deus! Misericórdia deste mundo!
No piscar do olhar de um segundo
_ Com o poder maior e mais profundo
Sobre a ótica divina lá dos céus!
Tenha pena dos mais necessitados!
Os humildes desprovidos de cuidados
Ajude nesse tão pesado fardo...
Imploramos a ti! Oh SENHOR DEUS.

José Antonio Basto
Maio-2020.