sábado, 22 de junho de 2024

O caso do conflito que se arrasta na Comunidade Jussaral -, município de Urbano Santos-MA

 

Comunidade Jussaral e membros do STTR - UBS

O caso do conflito agrário na comunidade Jussaral – município de Urbano Santos não é novidade, nem coisas dos dias de hoje. Essa problemática já vem se arrastando desde os anos noventa, quando de início a empresa Florestal LTDA – que se transformara em Suzano Papel e Celulose se instalou no lugar, primeiramente no vizinho Povoado Todos os Santos e adjacências. Com o intuito de se apossar de grandes áreas de terras para o plantio de eucalipto. Empresas terceirizadas como a Marflora e Margusa, tiveram o ofício de desmatar a chapada e queimar suas árvores para a fabricação de carvão vegetal, depois o eucalipto. Eram chapadas, carrascos e matas, onde os camponeses faziam suas roças, caçavam e tiravam madeira e palhas da palmeira do babaçú para cobrirem suas casas. Viviam e vivem há décadas dessa cultura passada de geração em geração.

Com o aparecimento das empresas que prometiam desenvolvimento e ajuda financeira e de empregos para os moradores, gerou-se então os primeiros conflitos, não era de se acreditar! Dizimando a chapada não haveria de ter melhorias de vida, não caíram na conversa. Os lavradores, com o apoio do movimento social e da Igreja Católica, conseguiram então constituir a “Associação União dos Moradores do Povoado Jussaral”. Pois com o aparecimento da Associação as empresas instaladas se incomodaram. Pois constantemente os trabalhadores rurais estavam em reuniões e formações de base, sendo cada vez mais orientados da problemática. Tiveram a consciência de que aqueles grandes fornos de carvão construídos na chapada eram com certeza muito prejudiciais para eles e para toda biodiversidade do lugar: pois além da fumaça sufocar a população, também expulsava os animais silvestres e os riachos estavam secando – dali crescia cada vez mais a devastação da chapada pelos correntões, derrubando tudo pela frente: bacurizeiros, pequizeiros, candeias, murici, araçá... tudo que compõe a fauna e a flora estava cada vez mais desaparecendo.

Com as orientações sistemáticas do movimento social, os atores daquela luta na época montaram uma estratégia radical. “Sabendo que aquelas terras eram suas e foram tomadas e griladas” - se organizaram com outros companheiros de batalhas e marcharam rumo ao lugar onde estavam fincados os fornos de carvão. E com machados, foices e outros instrumentos de trabalho começaram a importante ação que ficara na história da luta agrária em Urbano Santos: DERRUBARAM, DESTRUIRAM TODOS OS FORNOS E BATERIAS DE CARVÃO. E mantiveram a resistência por muito tempo. Essa atividade teve papel importante, animando a ideologia de defesa da terra contra o programa do agronegócio na região. Há menos de dez anos atrás a comunidade Jussaral retornou a luta contra a Empresa Suzano Papel e Celulose que adentrou na área pertencente à Associação com seus plantios de eucalipto. A comunidade organizada e com o apoio de setores do movimento social conseguiu afastar a empresa e readquirir suas terras de volta. Com a apresentação de documentos científicos de estudos e pesquisas da Academia, reportagens, ações do movimento sindical e decisões do Ministério Público que mostrara com clareza e veracidade de que os problemas causados no meio ambiente e na economia da agricultura familiar eram culpas da Suzano no Baixo Parnaíba, esta decaiu no município de Urbano Santos e região. Vendendo ou arrendando as terras que antes eram campos de eucaliptos da Suzano, agora foram passadas para os chamados “Gaúchos da Soja”. Hoje em dia, a comunidade Jussaral tem enfrentado um de seus maiores desafios. Preocupados com os Gaúchos em tomar as terras por meio de falcatruas e documentos cartoriais, fizeram o CAR – Cadastro Ambiental Rural e o Georeferenciamento de suas terras: mais de 2.000 hectares, a maioria chapadas. Uma área de chapada de 800 hectares dentro dessas mais de duas mil, foram cercadas de arame doado pelo Fórum Carajás, afim de protegê-la de futuras invasões, foi o que aconteceu, inevitavelmente. Território esse onde os moradores praticam o extrativismo vegetal, principalmente do bacuri e pequi e outros frutos do cerrado, sendo rica em capim natural... também criavam animais na área cercada. Uma chapada abundante em tudo.

Deixa que ao lado dessa área é um grande campo devastado do Gaúcho, sendo, portanto, visada por ele para o desmatamento e plantio de soja. A Associação manteve a luta, recebendo dois importantes seminários agrários com participação do STTR de Urbano Santos, várias outras entidades e do Ministério Público, onde tratou especificamente desse assunto, na elaboração de uma lei de proteção ambiental com o aval final do Ministério Público. O caso entre a Associação e o Gaúcho foi para justiça. Associação ganhara prestígio e demandas na justiça agrária que de alguma forma barrara a entrada de soja em seu terreno.

 Terça-feira a tarde, 18/06/2024, a comunidade foi surpreendida por policiais que diziam fazer a segurança no momento; Gaúchos e seus jagunços chegaram mostrando uma certa decisão judicial, segundo eles, os favorecendo, dizendo que a terra era deles, segundo o documento não dava-se o direito de cortar arame e derrubar as cercas. Assim como em outros lugares a presença oficial nessas ações são frequentes para assim mostrar o poderio militar e de intimidações psicológicas aos posseiros. As estacas foram derrubadas de tratores e todo arame que cercava a área cortado em pedaços como mostram registros de vídeos e fotos feitos por celulares dos moradores na hora. Houve embate quase direto e por pouco não veio o pior, a situação ficou dramática, os moradores foram todos para o local onde estava acontecendo o problema. Logo em seguida a “Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Urbano Santos” esteve no local também para orientação pacífica no que diz respeito ao processo judicial, assim evitando danos maiores e violência, ajudando na proteção dos agricultores, que quase desesperados, lamentavam-se, não era pra menos. Os jagunços ameaçaram os camponeses que estavam na retaguarda de defesa do seu território tradicional, dados esses que foram catalogados por agentes da SEDIHPOP - Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e COECV - Comissão Estadual de Prevenção à Violência no Campo e na Cidade, onde depois esteve naquele lugarejo conversando com seus moradores sobre a questão, com o intuito de formular essas denúncias na tomada de medidas emergenciais como também solicitar a abertura  de processos de investigação para averiguar as violações relatadas de ameaças e desmatamento ilegal. O CASO DO CONFLITO QUE SE ARRASTA NA COMUNIDADE JUÇARAL, ainda estar na justiça. Os advogados da “Associação União dos Moradores do Povoado Jussaral”, estão tentando reverter a situação que ainda se encontra cada vez mais tensa. Os tratores do Gaúcho continuam desmatando a chapada dia e noite. Pede-se justiça e toda solidariedade aquela gente humilde e trabalhadora.

 

J. Antonio Basto

* Movimento Social  

        

 

segunda-feira, 13 de maio de 2024

A abolição inacabada

 

          Hoje, 13 de maio de 2024, (136 anos da abolição dos escravos no Brasil). Será que a abolição da escravatura nesta data, resolveu todos os problemas de milhares de escravos no Brasil? Os movimentos abolicionistas pregavam a liberdade por completa e não apenas pela metade como aconteceu. Nomes como os de Joaquim Nabuco, José de Patrocínio e o poeta Castro Alves foram vultos da história que merecem ser lembrados pela grande contribuição a respeito da liberdade dos negros e negras deste país, além de muitos outros líderes que se doaram à causa da luta contra o mais horrível e hediondo dos sistemas que perseguiu a humanidade, principalmente o povo negro africano.

          Os problemas sociais no Brasil, em especial o da escravidão negra, foram mazelas e feridas que ainda hoje não cicatrizaram e continuam na alma e na lembrança dos afro-brasileiros. Os mais de trezentos anos de cativeiro negro e indígena que perdurou em nosso país – dizimando o continente africano, foi sem dúvida uma das maiores vergonhas e manchas desta pátria. Uma coisa não é lembrada: os escravos nunca aceitaram a escravidão, fugiam e formavam quilombos, resistiam aos ofícios não fazendo os trabalhos ordenados pelo patrão, quebravam instrumentos de trabalho, as mães num momento desesperador até abordavam seus filhos para não vê-los futuros servos dos senhores brancos, em fim... A luta dos negros foi acirrada: Zumbi foi assassinado, Negro Cosme enforcado em praça pública para assim mostrar o poderio do estado repressor. Mais de 18 milhões de africanos foram deportados da África para o Brasil, a Lei Eusébio de Queirós proibira o tráfico de escravos da África para o Brasil, mas isso também não valeu a pena, porque o tráfico de negros continuou na clandestinidade por um bom tempo.

            O período literário do “Romântico” no Brasil principalmente a terceira fase, (condoreira), foi um dos alicerces para que grupos de intelectuais influenciados principalmente na Revolução Francesa formassem grêmios com o intuito de discutir uma política de apoio aos escravos. Esses grupos deram origem às chamadas “Sociedades Abolicionistas” – essas organizações tinham o objetivo de alforriar escravos, esconder negros fujões das fazendas até que conseguissem achar um quilombo. Uma campanha foi idealizada, mas quando deu certo não foi cumprida porque muitos negros após o 13 de maio de 1888, continuaram sendo escravos do preconceito e da discriminação racial até os dias de hoje. A abolição de 13 de Maio foi inacabada porque a D. Isabel apenas assinara com um traço de pena a Lei Áurea, uma vez que ela nunca realmente lutou por uma bandeira abolicionista. Assinara por pura pressão social. A abolição foi inacabada porque os afro-brasileiros ainda apresentam os maiores índices de analfabetismo, as favelas, guetos e cortiços em suas grandes maiorias são habitados (as) por negros; morre mais jovens negros no Brasil do que jovens brancos; há quem diga é porque são pobres, sim a escravidão negra sempre mostrou essa face criminosa do desamparo, da angústia, desrespeito e pobreza, são pobres e são negros. Uma sociedade com problemas de escravidão não tem como avançar no que diz respeito à economia e o progresso. A História do Brasil é uma história feia, são páginas de opressão e sofrimentos, um sujeito só faz um serviço com gosto se realmente for remunerado, claro que o progresso se estende através do trabalho assalariado e livre. A escravidão negra ainda nos reflete um quadro obscuro e sem escrúpulos, as lutas sociais, a rebeldia dos jovens e os sonhos de um dia ter uma vida melhor, foram as bandeiras que hasteadas para o sol nascente alcançaram a vitória de uma luta que durou mais de três séculos. Essa luta que esteve na imprensa e nas linhas dos poemas calorosos de Castro Alves, anunciara com muito otimismo a “A abolição Social” dos negros e negras dos nossos dias atuais. Queremos ouvir o som do berimbau, do atabaque e do agogô...Queremos cantar e brincar em homenagem às flâmulas que conseguiram a abolição mesmo pendente. Essa luta é de todos nós! O Brasil precisa erradicar urgentemente a escravidão social das páginas de nossa história. 

 

“Minha alma ainda treme de frio e indignação quando se lembra da chibata que assolou o couro dos meus irmãos cativos.”

(anônimo)

José Antonio Basto

13/05/2024

 

 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

O BACURI DE BEBEDOURO

 


O Viajante depois de mais de quinhentos dias fora de área voltara a escrever em sua velha máquina de datilografia. Pensava-se muito nas lutas proletárias e agrárias a qual fez parte. O problema da terra atormentava seu pensar, sua memória e sua inteligência. O sistema do capitalismo tenta resolver isso, mas nada se resolve – o que resta é apenas um sonho de uma “SOCIEDADE SOCIALISTA – sem exploradores e explorados”, mas não resolve nada, nada. Ou se aguarda resolver ainda. Romântico.  

O Viajante esteve numa certa reunião às margens do Rio Preto, ficava para aquelas bandas de um Bebedouro, do outro lado do rio ficava o Porção, outro grande povoado do mais importante município deste baixo parnaíba maranhense (Chapadinha). A terra era boa: muito coco babaçú, muitas matas, criações e caças. O Viajante esteve lá e apreciou as belezas naturais que aquela terra oferecia. Bebedouro fica entre o rio dos pretos e a chapada do “Marçal dos Onças”. Mas porque esse nome: “ Marçal dos Onças”? Fica a dúvida da nomenclatura da chapada. Talvez porque lá muito antigamente existiam onças? Não se sabe ao certo e nem o porquê.  O Marçal existe e é todo cercado por campos de gaúchos que plantam soja. A chapada que servia de espaço social da “onça” – agora foi substituída por grandes plantações de soja. Além disso, os sojicultores matam todo e qualquer animal que andam perto de seus arames.

O Viajante passava na caminhonete avistando os bacurizeiros. Pensava-se em parar para fotografá-los. Decidia-se parar! Mais na frente em meio a chapada estava lá um pé de mangaba. Mangaba é fruto raro na região. Do mês de janeiro a março é sua safra. Muitos animais degustam a mangaba. A arvore dá um leite que segundo a tradição desta região de Maranhão e Piauí se fazia bolas de futebol. E eram muito ligeiras. Ao lado das mangabas estavam os pés de bacuris cheios de frutos ainda verdes, mas quase maduros. O Bebedouro é um P.A  do INCRA e é uma das comunidades que compõe o acordo de preservação da chapada assinada pelo Ministério Público na Audiência Pública que aconteceu  no Povoado Juçaral. Acordo esse que foi assinado por todas as comunidades (associações) daquela região

O Bacuri de Bebedouro é raro. Um fruto diferenciado pelo volume de massa. A comunidade também é diferenciada por suas posições de pensamentos. O trabalho daqueles camponeses vai da produção de farinha de mandioca, caça silvestre, pesca e criações de animais como porco, galinha, gado e bode.

José Antonio Basto

Jan – 2024.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Do Mocambo ao Rio dos Pretos

 

Mocambo e Rio dos Pretos – dois nomes incomuns. O primeiro representa uma antiga denominação dos aldeamentos de escravos fugidos das fazendas, Mocambo na “Língua Kimbundu” – ainda falada na África na região do noroeste de Angola-África, quer dizer “esconderijo ou refúgio para as matas”, o mesmo que “quilombo”. Ainda acentuando, Kimbundu é umas das línguas nacionais de Angola – “do povo banto. O Português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos durante a colonização portuguesa no território angolano e através dos escravos angolanos que vieram para o Brasil

Mocambo também é o rio que corta a cidade de Urbano Santos, foi muito importante na época da insurreição dos Balaios no século XIX. O Viajante saia da sede de Urbano Santos rumo ao Povoado Bebedouro que fica sob as margens do Rio Preto – ou “Rio dos Pretos”, como era chamado antigamente. Teria uma tarefa na “Associação dos Trabalhadores Rurais do Povoado Bebedouro” – um Projeto de Assentamento para fins de Reforma Agrária que beneficiará 32 famílias camponeses que vivem do trabalho agrícola e do extrativismo. A terra de relevo, chapadas e carrascos – limitam com o “Rio dos Pretos”. Muitas criações de diversos animais, mas o que predomina é a de cabras e porcos. Do outro lado se observa a serra da Comunidade “Porções” – município de Chapadinha. Povoados e territórios trilhados há cento e setenta anos atrás pelos Balaios que por ali se escondiam das forças da legalidade. O “Mocambo” se interliga com o “Rio dos Pretos”, algo se interliga com a história nas duas nomenclaturas: “Preto e Mocambo”. Os dois fazem parte da “Bacia hidrográfica do Rio Munim” – este também que assistiu muitos combates da Balaiada. O Viajante refletia sobre todos esses assuntos, mas a direção do pensamento inquietava, se reuniria com os moradores de Bebedouro para falar do processo da terra e dos programas sociais de habitação rural. A “Reforma Agrária é a reorganização da estrutura fundiária com o objetivo de promover e proporcionar a redistribuição das propriedades rurais, ou seja, efetuar a distribuição da terra para a realização de sua principal função social. Romanticamente a terra é de todos e para todos. Houve um dia em que as sociedades primitivas faziam do trabalho um feito para suprir as necessidades básicas e imediatas do grupo familiar; não havendo preocupação com acúmulos ou sobras, portanto a terra pertencia a todos e não havia escravidão. Os tempos mudaram e as sociedades partiram para o capitalismo. O território de “Bebedouro”, “Juçaral” e “Todos os Santos” muito tem sofrido com problemas socioambientais que vai da expropriação de terras, conflitos e impacto direto nas comunidades tradicionais. Os trabalhos seriam realizados na sede da associação. Dona Raimundinha - antiga militante das CEBs e filha do Sr. Calixto - primeiro morador do Bebedouro, fala dos grandes desafios que os morares enfrentam no dia-a-dia. Comunidade carente, mas consciente da luta pela terra. Receberam o titulo de desapropriação e agora partem para outros projetos. As casas cobertas de palha e paredes de taipa – ainda deixa escrito nas veias do tempo que as desigualdades sociais ainda é constante em nossa sociedade.   

O Viajante retornava pelos caminhos aplainados e cobertos de eucaliptos que sumiam no horizonte. As flores de bacuri e pequi enfeitavam as chapadas, sinal de uma boa safra dos frutos no ano quem vem. Marcava-se no mapa a trajetória do “Mocambo ao Rio dos Pretos”. E vice-versa; a terra avermelhava o chão da chapada. 

 

José Antonio Basto

 

 

 

 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Cerrado do Tocantins

O ônibus passava com rapidez

Da janela avistavam-se as copas

Das matas por cima dos carrascos

Sobre a luz do sol que morria

Numa ultima visão da floresta

Os campos de capim-dourado reluzentes

Eram como esteiras de ouro que clamavam

Por um espaço natural assim como antes...

Os gados pastavam nas fazendas -

Podia se avistar aldeias indígenas

Na beira da estrada...

Povos que antes tiravam do cerrado o

Necessário para suas sobrevivências

A natureza que morrera pela mão do homem

A natureza que chorou e continua chorando

Que implora por dias melhores.

Para ultima lembrança do viajante

Ficara o quadro do Rio Tocantins

Com suas águas azuis correndo rumo a Amazônia

E que também não escapara

Do impacto da barragem.

               

José Antonio Basto

Tocantins, 13 de agosto de 2015

 

 

 

quarta-feira, 19 de julho de 2023

A chuva não atrapalhara a visita

A primeira reunião não dera certo. Não por causa da chuva, foi pelo contratempo. Estava quase tudo certo para a reunião do Fórum Carajás no P.A Baixão / Bacaba, zona rural de Urbano Santos. Os membros do Fórum Carajás conversariam com os moradores do assentamento naquele dia, com o intuito de ajudá-los através de um pequeno projeto de galinha caipira financiado pela ONG – “ASW da Alemanha”. Esses projetos espalhados por toda região do Baixo Parnaíba tem como principal objetivo fortalecer a renda familiar e a segurança alimentar das famílias camponesas – principalmente aquelas que vivem próximos às plantações de eucaliptos e soja - vítima do impacto direto do agronegócio. Visam também dá uma injeção de ânimo naqueles que lutam pela permanência física e cultural em seus territórios tradicionais, ou melhor dizendo, os que lutam pela terra. Uma iniciativa muito importante onde se trabalha com pouco, mas o suficiente para levantar e manter erguida a bandeira da agroecologia na região. Os desafios são grandes; experiências que dão certo e as vezes não. A intenção de ajudar os menos favorecidos gera “ciúmes” em alguns momentos, em algumas situações. Entidades como o Fórum Carajás são consideradas importantes para as comunidades tradicionais, outra reunião fora marcada com o mesmo objetivo. Informar aos assentados do Baixão/ Bacaba sobre a situação da realidade agraria no Brasil. Os problemas de acesso aos projetos para assentados e assentadas da Reforma Agrária. Conversaríamos sobre a questão do “Programa Minha Casa Minha Vida Rural”, donde eles tem demandas. É só uma questão de tempo. Além do Programa “Pronaf Mulher” e Projeto Agroextrativista  na Reserva Ecológica separada pelo INCRA – obedecendo a lei. A Comunidade Baixão dos Loteros tem uma historia  voltada para a colonização dessas terras, assim como a maioria das comunidades tradicionais habitadas por sertanejos há séculos neste pedaço de chão que é o Baixo Parnaíba maranhense. Quando o Baixão começou a ser colonizado partiu da construção de um curral para botar gado, depois veio a casa de fazenda que foi feita por uma das “famílias influentes”. Conta-se que possivelmente fora um “Quilombo de Negros” escravizados no passado. Por ficar em uma área estratégica entre a chapada e a mata – por onde passa um riacho batizado com o mesmo nome do povoado. Ali se desenvolvera a cultura de criação de gado e a produção de farinha – esta ultima, permanecendo e transformando o Baixão  em um vilarejo dos mais respeitados na fabricação de farinha de puba em Urbano Santos. Os conflitos sempre existiram nesta região. O saudoso Nonato Valentim na década de 80 foi um dos líderes da luta pela terra. Período esse um tão pouco difícil por ser ainda na ditadura militar. Os Camponeses tinham o apoio das Comunidades Eclesiais de Base  - (CEBs), que até então surgia na historia como um “Novo Sujeito Popular” e orientação sociopolítica e religiosa da Igreja Católica. A história se contradiz nas entrelinhas de quem a escreve. Poucos se escreve sobre conflitos fundiários – muito menos colocando o campesinato como figura importante no cenário político de transformação social e econômica. Mas na verdade quem assegura o alimentando na mesa dos brasileiros? Quem protege o pouco que resta das matas e cabeceiras de rios? Quem está preocupado com a água que abastece as comunidades e as cidades? A agricultura tem ajudado no entendimento de muitos em saber que a saída para melhoria de nossas vidas é a conquista, ocupação e produção da terra. Reunião dera certo – 27/02/2019. Avisava-se com tempo. Apesar da chuva foi possível uma reunião com os moradores do Baixão dos Loteros. Para melhores esclarecimentos sobre a vida da comunidade e a parceria de ajudar nesse processo de solidariedade e esperança.

 

José Antônio Basto

       

terça-feira, 20 de junho de 2023

Pelas trilhas do assentamento

     Pensava-se num trabalho, um tão quanto literário –, quase crítico, mas não tanto assim. O “Programa Jovem Saber” da Contag e Fetaema – em parceria com os STTRs, convidara-nos para uma pequena pesquisa na casa de um morador do “P.A – Projeto de Assentamento do Povoado Estiva da Mangabeira”, em Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense. Friviar por aquelas bandas é relembrar o passado histórico do processo de dominação das terras de famílias influentes que detinham do poder cartorial e da estrutura agrária herdada pelos portugueses desde o império do Brasil - para suas elevações econômicas. Pois terra sempre foi sinônimo de capital e poder. Isso é fato.

    Três companheiros seguiram numa manhã cedo de inverno para desenvolver as pesquisas e aproveitar para visitar velhos amigos de lutas durante o percurso. Eram seis horas da manhã, quando o carro buzinava convidando para seguir cortando os povoados: “Bacaba, Frankylândia, Palmeirinha, Cacimbinha, Baixa do Cocal I e II, Ingá, Santana, São Felipe, Primavera, Mangabeira Velha até Estiva da Mangabeira (Fazenda São Paulo). O “6º Módulo de estudo do Programa Jovem saber”, convidou-nos para uma experiência sistemática, prática e teórica sobre o entendimento do processo de Reforma Agrária no município onde vivemos, suas indiferenças, sonhos e utopias. Um romantismo pregado que se alicerça no pensamento e que algum dia possa chegar como direitos, poeticamente no canto: “Nosso direito vem”.. [...]. Convidava para uma reflexão sobre a participação da juventude na “política de sucessão rural”. Na participação como agentes sucessores da Reforma Agrária, críticos e voluntários de um trabalho de seus avós que começaram há muito tempo atrás e que eles devem entender sobre a continuação desta obra. As brigas de terra para aquelas bandas e em toda região próximas ao rio preguiças são bem antigas – porque remontam o ciclo das fazendas de cana; assim também como em boa parte dos territórios que ligavam as estradas de acesso à cidade de Brejo e Vila de Miritiba. Na narrativa que se tratava das primeiras lutas na área que foi desapropriada pelo Incra, retrata a resistência dos trabalhadores rurais em não aceitar a pagar mais uma parte de sua produção para os donos da terra. O capítulo é bem antigo desde a habitação dos caboclos sertanejos na época da Balaiada em meados do século XIX. Mas só começaram de fato se organizar na luta pela terra na década de 60 e 70 – anos esses em que o “movimento camponês” ganhava notoriedade no cenário nacional, principalmente no Nordeste, sendo esta, a mais velha categoria e movimento - MSTTR, que tardou tanto para se organizar. Isso vale lembrar a grande participação dos padres e o papel da Igreja Católica na MEB – (Movimento de Educação de Base) e da fundação das CEBs - (Comunidades Eclesiais de Base) – no leste maranhense. A luta organizada dos camponeses resultou depois de quinze e vinte anos na desapropriação do complexo de “Assentamento Mangueira / Data Mangabeira” na década de noventa. Foi o inicio de uma batalha que deu os primeiros passos com relação à posse da terra e a construção de pequenas e rudimentares casas para as famílias cadastradas. O morador o qual nos recebeu falava do problema da comunicação social naquela época, que para se deslocar até a cidade de Urbano Santos ou tinha que ir a pé ou de animal... na maioria das vezes andavam de trinta a quarenta quilômetros para resolver seus negócios na cidade. Ele faz uma autocrítica sobre a realidade da reforma agraria, que não é apenas nos assentamentos de Urbano Santos, mas em todo país – principalmente agora com o retrocesso de transformações politicas do atual governo central: “No Brasil não existe reforma agrária, existe apenas uma pequena política de assentamentos fundiários e agora infelizmente ameaçado, explica”. Dá-se ao entender que no entendimento daquele assentado a reforma agraria não é simplesmente assentar famílias camponesas no meio da chapada seca sem água e sem assistência técnica para a agricultura, sem os meios necessários para sobreviver. Deve no mínimo se ter infraestrutura básica, saúde, assistência técnica, educação e outras politicas de desenvolvimento social que completam o verdadeiro sentido da Reforma Agraria, que estão muito longe de nossa realidade.

    A família mora e produz na terra: pimenta malagueta, coco da praia, farinha de puba e criam pequenos animais para a alimentação. Sobre as laterais da casa tem um grande morro com árvores preservadas, além de um riacho de águas claras que passa na frente da moradia. O trabalho foi concluído até meio dia. Será editado e enviado para a coordenação da Fetaema e em seguida para a Contag para avaliação. Foi muito válido o aprendizado para conhecer mais de perto a realidade da historia do assentamento. Página essa que as vezes, ou talvez, a maioria dos moradores não conhecem. Voltamos pela mesma trilha com mais uma das tantas tarefas cumpridas.

 

José Antonio Basto