quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

UM CERTO OLHO D`ÁGUA E A BICUÍBA


A bicuíba foi uma grota que criou muita gente. Pescava-se e desbrava-se nas entranhas de uma grota quando criança. A grota tinha tudo para oferecer: peixe, água e um clima agradável. Os porcos se banhavam nas margens da grota. Porque nessa época dos anos oitenta e noventa não existia devastação na cabeceira da grota da bicuíba. Os tempos mudaram e aquele riacho de água fria e cristalina hoje estar ameaçada. Por caprichos dos velhos herdeiros... sua cabeceira fora vendida – como comparar a natureza com o dinheiro? Alguns não aceitaram essa história, mas outros sim. Por isso, lá onde nós caçávamos, pescávamos e fazíamos nossas roças, nada quase, nada vemos. 

O antigo povoado Olho D´Água fora fundado por meus parentes: o Chico Rufino meu avô e o João Vidal seu primo-irmão e meu tio. Os dois chegaram com suas famílias no início da década de cinquenta (50) em Guabirabas, lugarejo esse hoje pertencente ao município de Anapurus, praticaram os caminhos de Buriti de Inácia Vaz e Brejo, adentrando outras comunidades, por esses antigos caminhos do sertão da Balaiada, os dois irmãos com suas famílias atracaram em Guabiraba, perto de um rio: muitas matas, água, caça... uma fartura na qual o Piauí nunca vira. Era a terra prometida, a terra do “Chiam”. A Terra boa. Mas essa terra não demorou muito para que outros retirantes viessem explorá-la. A terra de Guabiraba dos irmãos rufinos fora mudada para a “terra de Pirinã”- já próxima de Cajazeiras – município de Urbano Santos. As Cajazeiras foi um ponto certo para os irmãos Rufinos. Lá se estabeleceram e montaram suas roças. Meu pai, Gonzaga, nasceu em Guabirabas em 1955. Depois de alguns anos, de muitas lutas, perdas e vitórias, os suprimentos: matas, peixes e roças foram ficando escassos. Como isso, os patriarcas se preocuparam e tentavam um outro projeto rumo ao leste. Ouviam falar das terras férteis do leste, rumando para as margens do rio mocambo. As histórias não muito longínquos faziam suas mentes. Os babaçuais, as matas, tabocais, grotas (bicuíba) e a abundância de peixe no rio, os atraíram. As matas e capoeiras de roças já não supriam mais as necessidades para o sustento de suas famílias nas Cajazeiras. Os clãs cresceram e a as demandas também. A farinha seca e a caça já não davam mais para matar a fome dos moradores da tribo. Precisavam seguir como retirantes novamente, e daí pararam em Olho D`Água, como dissera, às margens do rio de aguas negras – o “Mocambo”. Era quase que a terra de canaã. Mas Canaã de Abraão fica muito longe do Baixo Parnaíba – do outro lado do mar, no Oriente Médio, uma terra de 3 mil anos de histórias em que Moisés através de sua fé em Deus guiou o povo hebreu por 40 anos no deserto e chegara com outros, depois à terra do nosso Deus que o prometera.  

O Olho D`Água – também foi a terra prometida dos irmãos rufinos. Eles chegaram em meados dos anos sessenta e lá se estabeleceram, e lá moraram e lá eu nasci. Fizeram suas roças, seus plantios, criaram, caçaram e pescaram. Fizera suas famílias e de lá de se espalharam pelo mundo afora. “Um certo Olho D`Água” fora prometido pelo destino dos tempos.

José Antonio S. Basto

V - I - MMXXVI