segunda-feira, 19 de junho de 2017

A vendedora de capote

Ela sempre vende merenda pelas ruas da cidade de Urbano Santos, mulher mãe de família muito trabalhadora, passa de casa em casa com sua bacia na cabeça. É de praxe vir na sede do nosso Sindicato (STTR) na sala onde trabalho e oferecer suas vendas, vende de tudo: bolos, canjica, beiju de tapioca, suco natural e outras iguarias provindas da agricultura familiar; a gente sempre lhe ajuda comprando seus produtos naturais -, ela mora na comunidade Baixa D`Água há poucos quilômetros da sede. Sua casa fica próximo ao riacho que lhe fornece água para beber, lavar e irrigar sua pequena horta no quintal.
A Irmão Maria utiliza de outras rendas para sustentar sua família, cria animais de pequeno porte -, eu só não sabia da grande criação de capotes que tinha. Os animais vivem soltos numa área de chapada e brejal, disse que às vezes os capotes embrabecem e não voltam mais... Adentram para as chapadas afora. Certo dia ela passava no Sindicato para vender seus capotes; oferecera dois para a diretoria do Sindicato, R$ 30,00 reais cada ave. A Francisca do São Raimundo que hoje ocupa a Secretaria de Finanças do Sindicato os comprou para um almoço parecido com aqueles das reuniões em São Raimundo que o pessoal do Fórum Carajás bem conhece. Irmã Maria faturou R$ 60,00 reais que ajudará na renda de sua família. Os capotes foram preparados para o almoço com leite de coco babaçú – lembrando muito bem os almoços do São Raimundo, Bracinho e outras comunidades da Região do Baixo Parnaíba maranhense. A Francisca não perde seu talento de fazer um bom almoço, ultimamente ela tem se dedicado aos trabalhos burocráticos do Sindicato, mas os capotes só podiam ser preparados por ela.
Irmão Maria, agora quase não mais vende lanches, prefere se dedicar a criação de seus capotes para vender na feira e pra quem interessar compra-los, seus clientes, assim como o Sindicato, já lhe procura quando sente falta. Os manejos de criações de galinha caipira, capotes e cabras tem sido um negócio sustentável muito bom para as comunidades tradicionais no Baixo Parnaíba. Esse sistema muito tem ajudado as comunidades se manter em seus territórios, valendo acentuar os projetos agroextrativistas do Fórum Carajás em várias comunidades de diversos municípios do Baixo Parnaíba. Maria é parte desse trabalho e dessa consciência ecológica-social com suas aves debaixo do braço já é bastante conhecida pelos consumidores.
A vendedora de capote da Baixa D`Água gosta do ofício que faz, sua posse de terra precisa ser regularizada pelo estado. Ela é mais uma das posseiras que aguarda a vinda do ITERMA. Urbano Santos e Beláguas tem muitas áreas de terras devolutas do estado, terrenos ainda não mapeados, terras de associações que precisam ser arrecadadas para fins de Reforma Agrária. Os capotes para se reproduzir e por ser um animal arisco,  precisam de uma grande área. Ela também vende porções de “cozinhado de capote” já preparado, diga-se de passagem, uma iguaria sem igual dos vários e diversificados pratos regionais.

José Antonio Basto                                                                                                              
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