segunda-feira, 12 de novembro de 2018

ELES MERECIAM UM NOBEL

Reuniao em Bacabal - Urbano Santos
Eles são merecedores de um "Prêmio Nobel" -, caso existissem Nobel para quem faz alguma diferença na vida das comunidades tradicionais na amazônia e no cerrado brasileiro; caso tivéssemos influência nas votações e burocracia do Nobel. Eles tem ajudado 
bastante nas questões que diz respeito à renda familiar, monitoramento e proteção
ambiental e desenvolvimento sustentável na vida das famílias camponesas. O jornalista Mayron Regis e o agrônomo Edimilson - ambos
do Fórum Carajás - entidade essa de cunho social e não governamental que trabalha junto às comunidades tradicionais do Maranhão, Pará e Tocantins com relação aos impactos ambientais dos grandes projetos. Eles já fizeram e fazem muito pelas comunidades da campo e das florestas. 
Ajudam quando podem, enfrentam avalanches e crises financeiras; 
mas continuam na labuta da vida. São profissionais e ao mesmo tempo militantes em defesa da vida e de um mundo melhor para os camponeses e extrativistas. Eu tomo a 
liberdade de falar desses dois amigos -, faço, com todo respeito uma crítica positiva porque já os conheço de longa data, das lutas e batalhas que estivemos
lado a lado levando informações e algo mais, para as áreas de conflitos. Reuniões e seminários que participamos em vários
pontos desse Baixo Parnaíba de meu Deus, que partia de um simples almoço de galinha caipira a um papo de orientação da comunidade
animando-a na dinâmica de enfrentamento ao latifúndio e em defesa da terra. Os projetos de galinha caipira já instalados só no município de Urbano
Santos pelo Fórum Carajás, podemos lembrar dos povoados: São Raimundo, Mangabeirinha, Juçaral, São Bento, Santa Rosa
Cajueiro, Serraria, Gonçal dos Mouras, Baixa Grande, Tocão e Porto Velho I... Iniciativas que muito têm contribuído 
na renda das famílias beneficiadas, tanto na mudança de hábitos para melhor, quanto na manutenção e permanência em suas terras. Com positividade
eles seguem avante, por esse imenso território agrário do Baixo Parnaíba - levando mudas e galinheiros - ajudando os mais humildes. Trilhando por esses chapadões. Os 
governos não reconhecem o tanto que estes dois fazem pelos homens e mulheres do campo - seguem suas consciências. Não fazem tanto, mas
tentam fazer ao máximo, para com esses gestos, atos e ações engrandecer suas personalidades? Não. Para mostrar" que com pouco se pode faz muito", basta querer e ter força de vontade. 
Nossas comunidades sabem do valor que eles tem - porque convivem direto, porque eles tem espirito de humildade, de pessoas
com sensibilidade de ajudar o próximo; os mais necessitados... Os esquecidos e desprovidos de direitos. Na convicção do cronista: o Mayron e o Edimilson mereciam o PRÊMIO NOBEL DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Se caso existisse essa categoria. Porque em nome das comunidades tradicionais eles merecem muito 
mais pelo que tem feito.

José Antonio Basto 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O verdadeiro documento da terra em Gonçal dos Mouras




Pov. Gonçal dos Mouras
A Pequena comunidade Gonçal dos Mouras fica entre Urbano Santos e Barreirinhas. Saímos de Urbano Santos para fazer uma reunião com os moradores, reunião essa que alimentaria a ideia de criação da Associação dos moradores. Por que eles se interessariam em criar uma associação, se já moram lá há décadas? Saberiam da história de luta e conflitos em defesa da terra? Entenderiam a própria história – realidade essa de muitas outras comunidades rurais do Baixo Parnaíba que passaram por essa mesma experiência. Gelson Rodrigues da Silva, mais conhecido como Gelson Ferreira – herdara esse sobrenome porque seu pai exercia a profissão de ferreiro, homem de baixa estatura e fala ligeira e de boa memória – contara com detalhes a tradição de sua família desde o seu bisavó que nascera em Gonçal. Gelson tem 77 anos de idade e cresceu ouvindo as historias da questão da terra onde mora.
Gelson Ferreira - Pov. Gonçal dos Mouras
Seu pai já defendia o território, pois sabia que sua família crescia no lugar. Se seu bisavó nascera em Gonçal, os antecedentes de luta e ocupação da área data ainda do século XIX. Gelson cresceu na fartura de tudo, contava emocionadamente que naquele tempo existiam muitas matas para fazer roça, muito bacuri nas chapadas; peixe no rio era com abundancia – quase nada disso existe mais. A terra era pública, de todos, para todos... Ninguém cobrava nada de ninguém. As disputas já vinham desde a primeira geração ainda na época de seu avó. Seu pai cresceu na questão. A terra foi conquistada pelas famílias do pai e da mãe de Gelson Ferreira. Trabalhavam em conjunto para sobrevivência.
Se passou um tempo, nos anos 60 e 70 a fumaça da questão voltou a pegar fogo novamente, um determinado sujeito chegava lá para tomar posse da érea onde as famílias moravam e trabalhavam; a pessoa que dizia ser proprietário tentou utilizar da violência para intimidar os lavradores, resistiram de várias formas e continuaram na área. Casas foram queimadas e reconstruídas, os camponeses foram expulsos e voltaram. Uma guerra foi travada, de um lado o latifundiário, do outro as famílias agricultoras. A comunidade sem saber do que estava acontecendo, se mantinha dentro do território, mas as articulações iam além dos órgãos jurídicos da época. Com isso os camponeses começaram a se organizar na CEB (Comunidade Eclesial de Base), mas próxima, CEB da Tabocas. Entenderam ali que eram cidadãos de direito, pois a terra, seu bem maior precisava ser defendida com unhas e dentes, os coordenadores anunciavam nas leituras um mundo novo. Se mantiveram no lugar por muito tempo, plantando e  colhendo até dos dias de hoje.

José Antonio Basto

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O amigo de Manoel da Conceição

José Antonio Basto e João Soares - (Brejo-MA).

Ser amigo de uma personalidade histórica não é algo muito comum – é algo que só o destino pode nos reservar. Há algum tempo atrás li um livro infantil, onde nunca mais o esqueci, livro muito conhecido na educação infantil, intitulado “O amigo do rei”- da escritora Roth Rocha. A história se passa no tempo da escravidão aqui no Brasil; onde brancos e negros não podiam ser amigos pelo preconceito da época. Mas na imaginação das crianças quem manda é o coração, o sonho e a fantasia. O escravo Matias era amigo do branco Ioiô – filho do seu patrão, os dois tinham a mesma idade, por mera consciência do destino os dois nasceram no mesmo dia, só que um na casa grande, o outro na senzala. Eles brincavam e brigavam assim como todas as crianças, brigas indiferentes a qualquer lei sem saber que um dia um deles ainda seria rei; o negro Matias que provinha de uma família real desde os tempos de África – se tornou rei de um quilombo, Ioiô – era o amigo do rei.
Capa do livro de Alfredo Wagner.
No encontro de comunidades rurais realizado durante a Caravana de Direitos Humanos este ano em Brejo-MA. Tive a oportunidade de bater um papo muito interessante sobre luta no campo e reforma agrária com o companheiro João Luís Soares, conhecido também por Joãozinho e/ou pelo cognome de guerra “João da DEFIA” – é um ativista dos direitos humanos, membro fundador do STTR de Açailândia em 1981 e amigo pessoal do grande líder camponês Manoel da Conceição e também de Pe. Josímo – que foi assassinado a mando de fazendeiros em Imperatriz. Conceição é um homem que fez história na época da ditadura militar na região da baixada maranhense – atuando principalmente no território de seu Sindicato Rural em Pindaré-Mirim. Sobre Conceição: “O tempo de vida de um homem é o período histórico que reflete seu papel na sociedade em que vive”. “Poucas pessoas resistiram viver por longos anos ameaçados de morte, na mira de uma arma muitas vezes oculta, mas apontada para aqueles que incidiram contra o revés da história política brasileira” – principalmente no que diz respeito ao problema de acesso a terra. O livro: “Autonomia e mobilização política dos camponeses do Maranhão” do escritor e pesquisador Alfredo Wagner, acentua uma passagem de Manoel da Conceição quando o mesmo foi baleado na perna – órgão do qual perdeu ficando deficiente para o resto da vida. O estudante da MEB – “Movimento de Educação de Base” da Igreja Católica, continua sendo respeitado até os dias de hoje, recebendo honrarias, prêmios e saudações até mesmo de grandes chefes de estado como Luís Inácio Lula da Silva – pela referencia e mito que és, pelo seu trabalho de organização dos trabalhadores rurais, num período um tão pouco conturbado da historia de chumbo em nosso país. Doente, vítima da violência policial que invadiu seu Sindicato, quando se sentiu quase recuperado Conceição foi convidado por entidades da esquerda nacional para uma viagem pela Europa, Oriente Mé­dio e China, onde fez cursos de aperfeiçoamento de guerrilha. Na volta, os milicos, insatisfeitos com o itinerário realizado pelo camponês, o esperavam. Foi preso e torturado em diversas partes do país, por onde perambulou por cadeias. Em São Paulo, foi brutalmente espancado. Foi preso e solto na década de setenta, nessa época vai para o exílio na Suíça, tendo lá como companheiro o Professor e pedagogo Paulo Freire. Ambos organizavam refugiados políticos na Europa e denunciavam as atrocidades do governo militar. Numa certa entrevista, perguntaram a Mané da Conceição como também era conhecido: “Como o senhor conseguiu chegar aos 80 anos nesse contexto violento? Ele responde: “Sempre disseram que eu era um ma­tador a sangue-frio, mas nunca matei ninguém, somente me defendi quando preciso. O que eu mais fiz na minha vida foi destruir o latifúndio e fazer com que os pobres pu­dessem se apoderar da terra”. “Entrego a minha classe para que ou­tros dêem continuidade a minha vida e minha obra”, conclui. 
Não conheci Manoel da Conceição pessoalmente, leio livros a seu respeito e sobre sua história. Como militante dos movimentos sociais mandei um recado e alguns poucos e modestos trabalhos que escrevi a seu respeito por meu amigo João da DEFIA que sempre lhe visita em na chácara onde mora na zona rural de Santa Inês. Seria uma honra conhecê-lo um dia. Conversei bastante durante horas com o companheiro João que contara de sua saga ao lado do lendário líder camponês.

José Antonio Basto

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Palavras do Boqueirão

(Imagem: José Antonio Basto -, em algum lugar do Baixo Parnaíba-MA).


A estrada era paralela ao nível do Rio Mocambo. O Viajante se juntava a um grupo de amigos sindicalistas e militantes voluntários do MSTTR que se dirigiam à comunidade Sapucaia para uma ação social destinada à família do José. O lugar fica exatamente no encontro do Rio Preto com o Rio Mocambo.
A velha toyota bandeirantes daquelas que não se fabricam mais, cortava a areia alinhando geograficamente nove léguas de distância, os babaçuais apareciam logo na frente – os entraves dos caminhos também. Praticaria os trajetos pelos antigos caminhos dos Povoados Porto Velho, Escuta e Pequi. Este último, a terra donde o Viajante nascera e foi criado – tornara-se repórter por necessidade de escrever e registrar sua saga pelo leste maranhense, pulando grotas, dirigindo, pilotando motocicleta, cavalgando e até a pé; aventurando-se pelas matas, rios e chapadões. Chegava-se no Boqueirão dos dois rios; a casa simples do Zé relembrara outros artigos e o alto grau de desigualdade social presente em nossa sociedade. O capitalismo abusa de tal forma que muitos nem conseguem enxergar seus próprios erros. Deve-se entender o que é direita e esquerda; alguém certa vez disse que quando a esquerda vai para o poder, as vezes deixa seus princípios. O ato dos companheiros foi de pura caridade àquela família necessitada; não tinham o mínimo para sobreviver: uma mãe de cinco filhos pequenos que sofre de uma doença crônica e se encontra hospitalizada na capital sem recursos financeiros; o pai doente não pode trabalhar para sustentar sua família, caia em depressão, mas os suprimentos e as palavras de conforto chegaram na hora certa. Recebia dali das mãos dos companheiros do Sindicato, arroz, biscoitos, bananas - mercearia completa e uma pequena quantia em dinheiro para os gastos básicos. Era o que tinham para oferecer. O Zé se emocionara, não esperava tamanho ato dos amigos que reconheciam sua bondade. Com poucas palavras agradeceu aos amigos com gesto de generosidade. A casa da família fica exatamente na cacuruta de um morro – um lugar estratégico, próprio para a criação de animais, donde a vista é formidável. De lá se enxerga as copas das árvores que guardam o encontro dos dois rios. Segundo os mais antigos; funcionava naquele lugar um antigo porto que recebia pequenas embarcações – canoas para o transporte de materiais vindo do interior da região e também para o descarregamento de suprimentos na época da Balaiada. Se percebe os vestígios e elevações do solo na beira do rio (trincheiras). Voltava-se para casa por outras veredas. O Viajante ficara por lá mesmo – com o intuito de atravessar para as outras bandas do “Rio dos Pretos”; pisando e adentrando em lamas, lagoas e alagadiços rumando para o oeste. Dever cumprido! Família agradecida; acenava com as mãos! Boas lembranças.
A ótica corria sobre a densa mata verde e as águas pretas e barrentas do Mocambo e Rio Preto. Era o início de outra aventura, desta vez o Viajante seguia sozinho, com seu bornal e surrão a tiracolo. Aceitara mais um desafio como andarilho e repórter das comunidades tradicionais. O “Boqueirão” falava em metáfora – sob o silêncio do vento, a pena escrevia.

José Antonio Basto
# visite o blog: bastopoetaemilitante.blogspot.com




segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O vermelho barro da Balaiada

Em algum lugar no Baixo Parnaíba maranhense



O Viajante estava mais ou menos entre São Benedito do Rio Preto e Chapadinha – há algumas alturas das matas de cocais daquelas comunidades quilombolas, antes de chegar ao lugarejo Placa. A caminhonete roncava ultrapassando a neblina que acinzentava a estrada – eram seis da manhã; acordara cedo para mais uma missão por esse Baixo Parnaíba. Quando se atravessava a ponte do Rio Munim, começava a aparecer os arvoredos tortos, as carnaubeiras e muricis do cerrado. Era aquele lugar – exatamente por onde os “Balaios” passaram há cento e oitenta anos atrás, vindos da Manga do Iguará.
“Barro Vermelho” também é o nome de uma Comunidade Quilombola que fica sob as margens do Munim – “Terra de pretos” que ainda hoje lutam pela regularização fundiária da terra. Muito antes disso, o Viajante fizera muitos amigos por aquelas bandas de Barro Vermelho e São Domingos – povoados próximos. Os irmãos negros de Barro Vermelho sempre participam de atividades de direitos humanos: seminários, encontros, intercâmbios e cursos de formação de base, daí facilitou a comunicação entre os militantes sociais. Pois não haveria motivos de deixar de visitar os velhos amigos companheiros de armas e batalhas. Houve outros tempos de glórias que lutamos lado a lado em busca de um objetivo comum. O Viajante aguardava um dedo de prosa; enquanto proseava esperava para almoçar “capote ao leite de coco”. A panela fervia e fazia um barulho na tampa, o cheiro era incrível e o sabor nem se fala. Os anfitriões relembraram um passado distante dos ancestrais que lutaram pela terra, os “pretos guerreiros de combate que não temiam a ninguém” – confiantes no gingado da capoeira e no papoco da lazarina. Mais tarde surgia a “Associação de moradores”, para o enfrentamento de novos avalanches e entraves. As horas de passaram rapidamente num piscar de olhos – a barriga roncava, pois a fome devorava o instinto. O capote apurado no coco foi servido acompanhado de arroz seco pisado no pilão; uma puba completava a farofa do guisado com pimenta. Depois do almoço cochilava-se na rede de linho de buriti que ficava na varanda da simples e humilde casa de taipa. Só se ouvia o canto da cigarra – uma calmaria e nada mais. O Viajante recompôs as energias e se despedia dos amigos quilombolas, rumava para outro quilombo, o “Lagoa Amarela” do saudoso Negro Cosme Bento das Chagas. O esconderijo se formara nas cabeceiras do Rio Preto – (Chapadinha), muito longe dali; antigos caminhos e trilhas dos Balaios facilitava o sistema de comunicação entre os vilarejos. Após várias horas cortando estradas pelas chapadas, entrava nos portões da vila quilombola de Lagoa Amarela. O relógio contava quatro da tarde. Infelizmente as pessoas que o Viajante conhecia não estavam em casa; aguardava um pouco passeando pelo centro do quilombo. Não fora reconhecido devido ao tempo que não pisava por ali; o Baixo Parnaíba é grande e as tarefas de militante não tem sido fácil. Escureceu e os donos da casa apareceram – a mulher com seus filhos estavam pescando e o homem caçando. Admiraram-se em vê-lo, abraçaram o velho amigo e pediram para entrar na casa. Passaria a noite? Gostaria, talvez. Mas não podia por causa de muitas outras tarefas e compromissos no dia seguinte. O jantar foi preparado com carinho – peixe do rio com pirão de farinha seca. A conversa antes do jantar sobre a luz de lamparina era dirigida a terra e os projetos sociais da comunidade. Poucas mudanças em quase duas décadas. Jantava e se despedia dos amigos e já era nove da noite. Partia em direção a Urbano Santos – pelas estradas rudimentares, imaginaria como era a comunicação dos Balaios numa época sem tecnologia; faziam esses trajetos a cavalo e até a pé. Demarcavam territórios através de rios, riachos, capões de mato e clareiras; viviam da selva, da arte de caçar e dos frutos da terra. Pulavam barreiras, atacavam e se esquivavam quando necessário.
O viajante voltava para casa – chegando pela madrugada. Refletia sobre a história desse território no universo fictício que construíra no pensamento através de vivencia na íntegra.

José Antonio Basto                                                                    
Chapadinha-MA, 20/07/2018.



sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Do Mocambo ao Rio dos Pretos


José Atonio Basto - Pov. Sapucaia - "Encontro do Mocambo com o Rio Preto". 

Mocambo e Rio dos Pretos – dois nomes incomuns. O primeiro representa uma antiga denominação dos aldeamentos de escravos fugidos das fazendas, Mocambo na “Língua Kimbundu” – ainda falada na África na região do noroeste de Angola-África, quer dizer “esconderijo ou refúgio para as matas”, o mesmo que “quilombo”. Ainda acentuando, Kimbundu é umas das línguas nacionais de Angola – “do povo banto. O Português tem muitos empréstimos lexicais desta língua obtidos durante a colonização portuguesa no território angolano e através dos escravos angolanos que vieram para o Brasil
Mocambo também é o rio que corta a cidade de Urbano Santos, foi muito importante na época da insurreição dos Balaios no século XIX. O Viajante saia da sede de Urbano Santos rumo ao Povoado Bebedouro que fica sob as margens do Rio Preto – ou “Rio dos Pretos”, como era chamado antigamente. Teria uma tarefa na “Associação dos Trabalhadores Rurais do Povoado Bebedouro” – um Projeto de Assentamento para fins de Reforma Agrária que beneficiará 32 famílias camponeses que vivem do trabalho agrícola e do extrativismo. A terra de relevo, chapadas e carrascos – limitam com o “Rio dos Pretos”.

Rio Preto ou "Rio dos Pretos"- Comunidade Bebedouro - Urbano Santos-MA.
Muitas criações de diversos animais, mas o que predomina é a de cabras e porcos. Do outro lado se observa a serra da Comunidade “Porções” – município de Chapadinha. Povoados e territórios trilhados há cento e setenta anos atrás pelos Balaios que por ali se escondiam das forças da legalidade. O “Mocambo” se interliga com o “Rio dos Pretos”, algo se interliga com a história nas duas nomenclaturas: “Preto e Mocambo”. Os dois fazem parte da “Bacia hidrográfica do Rio Munim” – este também que assistiu muitos combates da Balaiada. O Viajante refletia sobre todos esses assuntos, mas a direção do pensamento inquietava, se reuniria com os moradores de Bebedouro para falar do processo da terra e dos programas sociais de habitação rural. A “Reforma Agrária é a reorganização da estrutura fundiária com o objetivo de promover e proporcionar a redistribuição das propriedades rurais, ou seja, efetuar a distribuição da terra para a realização de sua principal função social. Romanticamente a terra é de todos e para todos. Houve um dia em que as sociedades primitivas faziam do trabalho um feito para suprir as necessidades básicas e imediatas do grupo familiar; não havendo preocupação com acúmulos ou sobras, portanto a terra pertencia a todos e não havia escravidão. Os tempos mudaram e as sociedades partiram para o capitalismo. O território de “Bebedouro”, “Juçaral” e “Todos os Santos” muito tem sofrido com problemas socioambientais que vai da expropriação de terras, conflitos e impacto direto nas comunidades tradicionais. Os trabalhos seriam realizados na sede da associação.
Rio Mocambo - Urbano Santos-MA.
Dona Raimundinha - antiga militante das CEBs e filha do Sr. Calixto - primeiro morador do Bebedouro, fala dos grandes desafios que os morares enfrentam no dia-a-dia. Comunidade carente, mas consciente da luta pela terra. Receberam o titulo de desapropriação e agora partem para outros projetos. As casas cobertas de palha e paredes de taipa – ainda deixa escrito nas veias do tempo que as desigualdades sociais ainda é constante em nossa sociedade.   

O Viajante retornava pelos caminhos aplainados e cobertos de eucaliptos que sumiam no horizonte. As flores de bacuri e pequi enfeitavam as chapadas, sinal de uma boa safra dos frutos no ano quem vem. Marcava-se no mapa a trajetória do “Mocambo ao Rio dos Pretos”. E vice-versa; a terra avermelhava o chão da chapada. 
José Antonio Basto





quarta-feira, 25 de julho de 2018

MOCAMBO

Rio Mocambo - Urbano Santos-MA.
Nascia um novo caminho
Pregando a nobre verdade
Corria as águas em chama
No fogo da liberdade.

Era o Mocambo de lutas
Escrito em um cartaz
Balaios que desejaram 
Pão, terra, água e paz.

Na epopéia dos tempos
Disparava no sertão...
Bacamarte a tiracolo
Estrondava n`amplidão!

Solo vermelho ficara 
Nas trincheiras lá da serra
Insurretos corajosos 
Que lutaram nesta terra.

E o rio vai descendo 
Testemunhando a certeza
Entre matas e brejais 
Compondo a mãe natureza.

Pujante o sonho de ontem
Resplandecia em glórias 
Escrevendo seu capítulo
No “panteon” da história.

José Antonio Basto 
*Em memória aos valentes insurretos que encontraram refúgio seguro sob as margens do Rio Mocambo no final da Balaiada, entre 1841 a 1842. Iniciando-se a partir de então a origem do primeiro vilarejo chamado Mocambinho, depois Mocambo, mais tarde Ponte Nova, hoje Urbano Santos.