terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Havia uma chapada que lutava

Ela cantava junto aos passarinhos, junto ao céu azul... seu chão avermelhado clamava pela vida, o campo era denso, os capins com suas lágrimas e orvalhos lutavam pelo bem de todo seu povo, de toda sua biodiversidade. Ela lutava pelas comunidades que habitam seu espaço territorial. Aquela chapada ficava nos confins do leste maranhense, no Baixo Parnaíba, terra de conflitos e problemas socioambientais. Outrora sua realidade era totalmente diferente, havia muitos animais por lá... pedras que jorravam água em suas cabeceiras. O sonho não terminara, apesar da problemática da monocultura que invadiu suas áreas de florestas e brejos; talvez a esperança possa inundar o pensamento de otimismo sobre a calmaria de uma cabeceira de rio; uma nova história será contada com as verdadeiras personagens desse teatro real, no cenário dos desprovidos que batalham por direitos sociais. Os bacuris daquela chapada reclamam até os dias de hoje, pois o mundo em que moram estar devastado pela ganancia da monocultura. As comunidades agroextrativistas viajam pelo cerrado, em seus afazeres na colheita dos frutos, em seus roçados, em suas caçadas – a mãe natureza suprem as necessidades do bem comum de todos que acreditam e lhes protegem, ali “Havia uma chapada que lutava” na esperança de novos tempos.

José Antonio Basto

 

domingo, 28 de novembro de 2021

A casinha do Balaio

 


Lá estava ela, a casinha do balaio!

À beira do caminho nas veredas do sertão...

De palhas de coco e bem humilde!

Sobre a mesa uma lamparina clareava a escuridão.


Lá o pote no cambito, uma forquilha!

Nos terreiros das folhas o vivo jasmineiro

O carrapicho alegre jogava sua semente...

E brotava do ofício um ancião mensageiro.


O balaio carregava sua cabaça a tira-colo!

E voltava com a espingarda de uma caçada 

_ Nem um tiro! E nada nestas matas!

Roncava a liberdade nas chapadas. 


Rio dos pretos, águas barrentas na folhagem...

Cantavam as galinhas, ao longe um latido!

Escutava-se a pancada do velho machado...

E o babaçú nas palmeiras um batido. 


Quebradeiras numa técnica sem igual...

A panela cozinhava um tatú...

De longe da Lagoa Amarela se ouvia:

Pela madrugada o cantar do cururu.


A casinha do balaio lá estava com seus brilhos!

Bem plantada numa terra de memória!

Balaiada quase dois séculos já escrita 

No livro do panteon da história.


José Antonio Basto

Novembro - 2021.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Casa de taipa abandonada


velha casa
Voltei pra rever a casa

Onde fui nascido e criado

Nada vi o que deixei
Tudo estava transformado
Chorei buscando lembranças
Nas emoções do passado.

Ainda chorei magoado
Vendo a casinha singela
Onde meus pais e irmãos
Moravam lá dentro dela
É triste entrar numa casa
Sem ninguém morando nela.

Senti o cheiro de vela
Quando cruzei o batente
Um oratório sem santo
E as flores murchas na frente
Talvez querendo dizer:
_ "Aqui não mora mais gente".

E na parede da frente
Marcas do panhol de milho
O lugar do pote velho
E as formigas fazendo trilho
E o papero que a mãe
Fazia o mingau do filho.

Vi copo e colher sem brilho
Abandonados também
Achei a panela velha
Que cozinhava os terens
Depois que mamãe se foi
Não ferveu mais pra ninguém.

Vi desprezados também
O cepo e a mão de pilão
O espeto de assar carne
E as panelas no fogão
"Queimei as últimas lembranças
Na luz da recordação".

Por: José Antonio Basto

"A alegria da família é de ouvir em versos a velha casa dos pais feita de taipa, onde os irmãos foram nascidos e criados com alegria, em meio à mais pura simplicidade".

































segunda-feira, 4 de outubro de 2021

As Santas Rosas


Mística com a comunidade Santa Rosa

As Santas Rosas! Santa Rosa dos Garretos e Santa Rosa do Moisés. Algo em comum com as duas comunidades tradicionais que estão localizadas na região central do Baixo Parnaíba maranhense / são dois vilarejos com situações de conflitos parecidos, estão numa área de transição entre municípios do Baixo Parnaíba maranhense. Porque muitos povoados ainda carregam consigo o nome do proprietário, da pessoa que se dizia o antigo dono? Os Garretos remonta uma família de proprietários de muitas faixas de terras de Mata Roma, Anapurus e Urbano Santos, herdaram terras além da conta – terras soltas, terras – chapadas sem fim que até então não tinha dono... terras devolutas do estado que abarcaram e registraram como suas. Essas terras foram sendo ocupadas ao longo do tempo e ao mesmo tempo sendo palco de conflitos agrários, como o de Santa Rosa dos Garretos que se iniciou em 2012 e continua até hoje. O velho Zé Souza que já foi vítima de despejo é um dos moradores que ainda resiste essa situação de conflito. Santa Rosa do Moisés – fica mais um pouquinho adiante da dos Garretos. A mesma região cortada pelo riacho e pelo Brejo, apenas com cognomes / sobrenomes diferentes. Santa Rosa do Moisés, um conflito novo. Dona Maria José – que foi nascida e criada lá, hoje com 78 anos, contara
  sua história, que o nome do aldeamento remonta o de um dos primeiros proprietários – “o velho Moisés” – que depois de sua morte a terra tradicionalmente na linha hereditária ficou para seu filho Dé Amorim e que este deixara para Neifran - filho mais velho que pretende vender para os chamados gaúchos que também já compraram parte de Bacabal. São 551 hectares de terra, no vilarejo moram e trabalham de roça 12 famílias camponesas, vivem há muito tempo, os mais velhos nasceram e criaram seus filhos e netos naquela área, continuam lá trabalhando de roça, caçando e pescando numa vida pacata. Certo dia, há não muito tempo atrás, chegou uma pessoa estranha no povoado dizendo que aquela terra já estava vendida e que os moradores tivessem a compreensão de que nada tinham mais ali, apenas receberiam 1 hectare de terra para não ficarem desobrigados. Naquela manhã, os homens estavam pra roça... as mulheres foi quem recebeu a indelicada visita e mensagem por parte do homem que anotava seus nomes num computador notbook. Era mais pra um grileiro do que um comprador de terra. Ficaram apavoradas, inquietas e sem ação naquele momento. O forasteiro ainda disse que se não aceitassem, perderiam tudo. Quando seus maridos chegaram das roças receberam a noticia; preocupados, fizeram uma pequena reunião e decidiram recorrer ao órgão responsável por essas questões agrárias: o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Urbano Santos. Precisariam saber de quanta hectares um trabalhador tem direito numa terra onde nasceu e foi criado há mais de 50 anos -, esta negociada em acordo extra-judicial. E se o Sindicato estava sabendo dessas pessoas que foram comprar a terra de Santa Rosa do Moisés. Era um dia de reunião do Conselho Deliberativo, mas achou-se um tempo curto para ouvi-los. Após as falas, foi-se marcado uma reunião urgente na segunda-feira, 30/08/2021 – o que aconteceu. Para melhores esclarecimentos a respeito da terra e do conflito futuro ou já bem presente. No inicio da tarde a diretoria do Sindicato se dirigiu àquela comunidade, que até então era um lugar novo onde o Sindicato ainda não tinha ido. A toyota cortava as chapadas da conhecida estrada de Bacabal e Santa Rosa... descia uma íngreme ladeira, adrenalina certa... chegava-se no riacho que divide as “Santas Rosas”. O Carro balanceava, vídeos e fotos foram gravadas. As primeiras casas foram avistadas: uma coisa chamava toda atenção em relação aos outros povoados por onde se anda constantemente: “a limpeza!” Todos os quintais muito bem limpos, nada de sacolas no chão, não se viu nenhum saco de suquinho, a terra limpa dos quintais e as cercas de camas que refletiam um ar de pureza. A reunião fora marcada para 3 horas da tarde, chegamos com alguns minutos atrasados, mas por causa da estrada. Enquanto o povo chegava pra reunião, os companheiros e companheiras foram treinar quebrando coco babaçu para distrair. Todos chegaram e a reunião começou com a fala da presidente do Sindicato, Francisca Maria que apresentou sua comitiva da direção sindical: Maria Noemia, Desanilde, Francisco, Seu Jorge, Ronaldo, José Antonio e Izaias. E prosseguiu com uma breve apresentação dos nomes dos trabalhadores presentes. Uma breve fala e depoimentos foram frisados com o intuito de dá uma injeção de ânimo nos moradores, explanações sobre problemas fundiários e socioambientais. Orientados para não fazer acordos sozinhos, para não aceitarem apenas 1 hectare para cada morador, que se associassem no Sindicato para ter mas forças e sobretudo para se manterem sempre unidos nas decisões. Procuraram o Sindicato porque tendem um acordo justo com terras suficiente para trabalhar e sustentar suas famílias. A região central em que as “Santas Rosas” estão localizadas é a região central do Matopiba. Região essa, sendo a última fronteira agrícola do cerrado do Baixo Parnaíba e um das poucas do Maranhão, invejada e desejada pelo agronegócio de chineses, japoneses, americanos e outros estrangeiros que com seus modos de produção avançadas tendem agredir com veneno e agrotóxico o meio ambiente e as famílias vulneráveis da região. Os moradores talvez não sabiam disso, mas após a importante reunião com as explicações, ficaram curiosos e sabendo mais sobre sua terra, seus direitos e sobre também quem deseja suas áreas de matas, águas, chapadas e todos os recursos naturais. A terra para os ricos é sinônimo de capital e poder. Para os pobres é mãe. Eles devem resistir até o fim, primeiramente eles, as entidades de defesa estão para as orientações. Depois da troca de experiências e informações, foi feito uma linda mística no pátio debaixo do pé de manga. E Após cantar a música de comunidade “Irá chegar” – todos se despediram. A reunião acabava ali e ficava como encaminhamento o acordo justo de mais de 200 hectares para os trabalhadores rurais e quando fosse feito que seria naquele lugar na presença dos moradores, do Sindicato e dos nossos advogados. Voltamos para casa com a sensação de dever cumprido.

 

José Antonio Basto

30/08/2021.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O DIREITO À TERRA É DE QUEM TRABALHA NELA

Assembléia com participação popular

As palavras do poeta dizia: “O direito a terra é de quem trabalha nela / A terra, ela é sagrada pra quem trabalha a terra/ Enquanto haver ternura, haverá esperança/ Enquanto a canção tocar, haverá outro lugar/ Enquanto nossas ações chegar às multidões, haverá pão para matar a fome dos oprimidos/ Enquanto existir a vida... Haverá esperanças/".
Bispo Dom Valdecir e J. A. Basto

A terra para o agronegócio, para as grandes empresas é sinônimo de capital e poder, a terra para esse sistema capitalista é um espaço sem gente... sem vida, para eles interessa somente os lucros... O dinheiro. Já a terra para as comunidades rurais é algo sagrado... É vida... Uma reforma agrária com gente e participação popular, necessita-se da terra como uma mãe precisa de filho. Esta é a reforma agrária que os camponeses brasileiros sempre quiseram, sempre sonharam com o “Projeto Alternativo de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário”. Eles acordavam cedo para a viagem de Urbano Santos a Brejo que mede em torno de 119 km: a Francisca, o José Antônio Basto e o Raimundo do Juçaral. Tinham sidos convocados para participarem do “ENCONTRO DE COMUNIDADES RURAIS SOBRE QUESTÕES AGRÁRIAS NA REGIÃO DO BAIXO PARNAÍBA”, realizado no Salão Diocesano do Seminário Santo Antônio, na cidade de Brejo-MA, em 13/09/2021. A problemática foi levantada especificamente sobre os impactos agrários e socioambientais nos povoados  tradicionais deste imenso território, principalmente causados através do agronegócio da soja e eucalipto.
Francisca, Drª Luzia e J. A. Basto

O encontro que é parecido com uma audiência pública / (ouvidoria), acontecera em dois momentos: o primeiro pela manhã com uma abordagem geral - análise de conjuntura a respeito das situações fundiárias no Brasil e Maranhão coordenado pelo Advogado Agrário - Dr. Diogo Cabral que presta assessoria jurídica para a Fetaema e Diocese de Brejo e pelo Pe. Chagas do velho “Fórum em Defesa da vida do Baixo Parnaíba”. E o segundo momento foi uma ouvidoria e troca de experiencias com a presença da Juíza Agrária (Vara Agrária do Maranhão), Drª Luzia Medeiros que se apresentou como Juíza Agrária desta instituição jurídica implantada em 2019 em São Luís, mas atende todo estado do Maranhão. Ela explanou que a Vara Agrária é o melhor caminho para promover e dar celeridade aos julgamentos dos processos que tratam de conflitos fundiários, conciliando e julgando os dissídios coletivos que tratem de demandas relativas à propriedade, posse e uso da terra.
Drª Luzia, Raimundo e Francisca - (STTR)

Drª Luzia disse que passou a se empenhar na “área jurídica agrária” para melhor entender e ajudar nos andamentos de processos antigos que vem tramitando há alguns anos. Explicara que mais de 50% das terras do Estado do Maranhão não tem definição no que diz respeito à sua devida titulação e regularização de áreas devolutas, também chamadas de área nebulosas (sem registro), terras sem dono. Disse que aprendeu dentro do sistema processual reconhecer a luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais nessa pespectiva da luta por um pedaço de chão para se trabalhar com dignidade. Frisou ainda que, se o cidadão trabalhador rural mora há mais de 10 anos na área é possível requerer a posse da terra pelos processos burocráticos de (usucapião – “aquisição de propriedade móvel ou imóvel pela posse prolongada e sem interrupção, durante o prazo legal estabelecido para a prescrição aquisitiva”), de registro, principalmente.
roda de conversa

Onde parte das vias cartoriais, emissão de certidões negativas, requerimento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), declaração de atividade rural do STTR reconhecendo a posse e o tempo em que os agricultores vem trabalhando e outros documentos... Assim, toda documentação estando pronta é possível a titulação e regularização fundiária dos imóveis. A lista de presença contabilizou 75 pessoas de 21 municípios – representantes de diversas entidades que compõe o movimento social, onde muitas dúvidas foram tiradas a respeito da temática um tão pouco polêmica, principalmente na região do leste maranhense em centenas de conflitos agrárias envolvendo fazendeiros, grupos empresariais e famílias camponesas.

 Texto e fotos: José Antonio Basto

Brejo, 13/09/2021.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

PARTIU ZÉ MARTINS! UM DOS ÚLTIMOS GUERREIROS DE COMBATE DAS CEBs, DOS DIREITOS HUMANOS E DO MOVIMENTO SINDICAL. SE FOI UM FILHO DE URBANO SANTOS. (Saudações em memória ao grande companheiro).


JOSÉ FERREIRA DA SILVA, vulgo Zé Martins. Foi um grande lutador, o último dos guerreiros de combate, assim como Manoel da Conceição que também partiu esta semana desta vida para outra, os dois tem histórias parecidas nas páginas das lutas populares. Zé Martins muito ajudou no movimento das Comunidades Eclesiais de Bases, graças ao seu empenho e de outros nomes que os Povoados de nosso município tem histórias de resistência e fé. E também foi um dos maiores construtores  do "Movimento Sindical Rural" em Urbano Santos e região, engajado nas lutas pelos direitos humanos no Baixo Parnaíba. Agricultor, militante do PT, católico, pai de família. Ainda nas décadas de sessenta e setenta ajudou na criação das primeiras CEBs em Urbano Santos e região, como a primeira CEB no Povoado Santo Amaro, apoiado pelos Padres Xavier e Zé Antônio. Com destaque na luta popular se tornou pregador da Teologia da Libertação e com sua grande inteligência defendia o socialismo, os pobres e desprovidos de direito. Os coordenadores de comunidades decidiram então  apostar em Zé Martins como candidato a vereador, onde foi eleito, na câmara sua voz era a voz dos oprimidos. Ainda na década de setenta defendeu os Padres, que até então estavam sendo interrogados e detidos pela Polícia Federal em São Luís acusados de subversivos, simplesmente por defender a terra e os pobres, onde teve êxito nesse feito de muita coragem.Viajou, ensinou e aprendeu muitas lições de vida, sempre com humildade. "FOI UM AMIGO, UM LUTADOR... UM VELHO GUERREIRO" que deixou um legado importante enquanto viveu. Sua história remonta as lutas populares em defesa da vida, com relação ao meio ambiente, a reforma agrária e melhorias de vida para os desprovidos de direito. Merece uma grande homenagem, quem sabe um "livro com sua biografia extraordinária" e acima de tudo ser sempre lembrado em nossas mentes, para que a luta que ele começou dê continuidade com as nossas forças. "Nosso sentimento de pesar à família!" Siga por um caminho de luz e paz. Saudações eternas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A RÚSTICA GALINHA CAIPIRA EM TOCÃO


Escrever sobre as culturas interioranas, não é tarefa muito fácil. Mas pode ser uma questão de determinação, força de vontade e ainda mais, quando se trata de uma prosa poética, de um pequeno ensaio.  Era um desses sábados... o dia raiava exatamente às 5 da manhã, o nascente se avermelhava para as bandas do norte. Era dia de fabricação de farinha seca na velha casa de forno da Comunidade Tocão - o "P. E Lagoa do Tocão e Siricora". Um dia antes houve um assado de carne de gado e coração de galinha da granja. Os anfitriões da humilde casa, convidaram para um simples almoço de frango caipira - pois no dia seguinte a família camponesa tinha que torrar uma "seca" - (termo que se
 utiliza para a farinha branca / farinha seca). Acordaram sedo para raspar e ralar a mandioca, que depois a massa foi imprensada, ralada novamente, peneirada e jogada ao forno quente engordurado de sebo de gado. Enquanto a massa era manejada e jogada de um lado para o outro; a galinha caipira fervia dentro de uma panela no fogareiro de barro. O abano pegava de um lado ao outro para acelerar o processo. Numa casa de farinha sai muitas conversas, muitas histórias, algumas delas quase que sem sentido, somente mesmo para diversão das pessoas que ali naquele ambiente estão trabalhando, se ouve de tudo um pouco. A galinha caipira chamava a atenção pelo cheiro forte que sai na fumaça da panela. A Comunidade Tocão tem um título comunitário de mais de 800 hectares de terra. Muita terra para se trabalhar. As famílias que lá moram e trabalham de roça são camponeses que antes pagavam foro para o antigo proprietário que tinha sua propriedade na Moradia Lázaro e abraçava grandes faixas de terras abrangendo um grande território. O Tocão era uma área de sobra, que depois de descoberta, os trabalhadores rurais começaram a se organizar na associação para as devidas providências do P.E. O que aconteceu, hoje é uma comunidade que se formou no meio daqueles carrascos... "onde o horizonte do tempo contempla os raios do sol ao dia e a luz da lua a noite". Pegando carona no que dantes era falado... os agricultores a cada momento chegavam com uma carga ou duas de mandioca e derramavam no monte no meio da casa. O tempo fora passando rápido, ao ponto de que alguém esquecia de adicionar água na galinha que o menino estava vigiando para não queimar. Pois como tinha muita gente de olho, a panela precisava subir de caldo. Quase seca, a galinha quase torra, quase passa de ser galinha cozida para galinha frita, pois o vigia deu uma saidinha e esqueceu da panela. A farinha foi torrada e ficou nota dez, para um pirão escaldado ou (pirão de parida), a galinha gorda convidava para a iguaria tradicional, o que se foi feito. Esfriava no cocho, o vento a levava de tão apurada que era. Os raspadores de mandioca apressaram as mãos com suas facas amoladas, a fome batia. Meio dia em ponto os montes de mandiocas baixaram e foram finalizando as últimas raízes jogadas nos jacás para que em seguida seguissem aos tanques d' água. Então dirigir-se à porteira e à cozinha. Uma mesa, a água e um suco de acerola para o acompanhamento da galinha. Tudo perfeito ao seu modo, modo do interior, modo da roça. Os pratos com arroz e os pedaços na bacia... todos se serviam, um silencio pairou naquele momento, só se batia os queixos. Depois do almoço, uma sobremesa com papo de farinhada. Pois no dia seguinte era dia de torrar a puba que já se encontrava em cima do giral e outra galinha já estava marcada para ir à panela mais na frente. 

José Antonio Basto