segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A MARCHA QUE GERA FRUTOS: História de luta e resistência camponesa



Início da Marcha - Ala do Maranhão
Foi mais uma jornada cumprida em Brasília-DF neste mês de agosto - 2019; a “Marcha das Trabalhadoras Rurais Agricultoras Familiares” – “Marcha das Margaridas – 2019” – que reuniu mais de 100 mil pessoas, trabalhadoras e trabalhadores do campo, das águas e das florestas. Milhares de mulheres do campo e da cidade foram até a Capital Federal demonstrando sua força e capacidade de mobilização política e social. Mulheres que vieram mostrar que não concordam com a retirada de direitos, que tem consciência política e sabem que é preciso defender a democracia, a justiça, a liberdade e lutar por trabalho digno, educação, saúde e desenvolvimento sustentável e solidário. A viagem foi difícil, todas (os) acordaram antes das 05h da manhã e às 07h já estavam nas ruas, tomando o Eixo Monumental rumo à Esplanada dos Ministérios. Até às 12h, caminharam empunhando com orgulho suas bandeiras, com seus chapéus, suas faixas, suas camisetas e, principalmente, com suas ideias e suas paixões. É preciso muita paixão para fazer a maior manifestação de mulheres da América Latina acontecer com tanto sucesso, paz e, ao mesmo tempo, forte militância.

As vozes clamavam por uma REFORMA AGRÁRIA de verdade, pela manutenção de direitos conquistados com sangue na memória de lutas, por justiça, paz e liberdade. Juntos, com o apoio de outras organizações do Brasil e do exterior – deram início a Grande Marcha das Margaridas, saindo do Parque das Cidades e seguindo para o Congresso Nacional pela explanada dos ministérios. As companheiras que fizeram a Marcha acontecer vieram depois de um profundo processo de formação política, no qual o Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares – representado pela CONTAG, debateu o projeto de desenvolvimento que queremos: com inclusão social, soberania, igualdade, oportunidades para todas e todos. E mais do que isso, as questões específicas enfrentadas pelas mulheres rurais, como os diversos tipos de violência, o preconceito, a falta de reconhecimento do trabalho produtivo e doméstico, entre outros.

Delegação de Urbano Santos e Belágua - Estado do Maranhão
É do saber de todos que no Brasil ainda não foi feito uma Reforma Agrária como o movimento social pretende: massiva, com gente, assistência técnica e produção agroecológica respeitando o meio ambiente e, sobretudo a biodiversidade. Também sabemos que desde 500 anos atrás a terra no Brasil sempre foi objeto de disputas, onde quem tem favorecimento é o latifúndio, restando apenas a violência para as camadas mais pobres: índios, posseiros, quilombolas, extrativistas... Em fim, camponeses e camponesas que sonham com a concretização de seus direitos sociais. Pois até hoje não existe uma política séria realmente de Reforma Agrária, no decorrer da história do Brasil foram feitas várias práticas que tentaram realizar uma reforma, essas ações distribuíram algumas terras improdutivas, que não são de interesse de uma classe ruralista muito forte, mas que engessa em grande parte essa distribuição de terras porque essa classe também tem representantes no Congresso Nacional. Como exemplo de países desenvolvidos que fizeram uma Reforma Agrária de sucesso. Acreditamos que não é só desapropriar  a terra e ali desenvolver um cultivo, a Reforma Agrária é cercada de uma série de fatores e não somente uma política de assentamentos fundiários como é o que acontece. Outro problema sério é o impacto ambiental e o avanço desenfreado do agronegócio que nunca respeitou os territórios das comunidades tradicionais; sendo estas as verdadeiras protetoras das florestas, babaçuais, cabeceiras de rios, chapadas e brejos, (os biomas). Centenas de comunidades são vítimas de grandes impactos da mineração, pecuária, barragens e outros. O assassinato de camponeses e lideranças ativistas no meio rural ainda é um grande problema social, as controvérsias do Governo Bolsonaro preocupa os homens e mulheres do campo com o processo de liberalismo do armamento, sendo assim, os fazendeiros – herdeiros da estrutura agrária deste país podem ganhar mais força e poder. Estados como o nosso - Maranhão, Mato Grosso e o Pará lideram o sistema de pistolagem contra trabalhadores (as) rurais. Atos constantes de desacato aos direitos humanos e a vida: casas de trabalhadores são incendiadas, famílias inteiras despejadas sem nenhum amparo social, como foi o caso recente de despejo da Comunidade Cajueiro no Maranhão. Saiu um certo estudo cientifico sobre assassinatos no mundo, divulgado pelo Escritório da Nações Unidas, apontando então que o Brasil registra 11,4% do total de mortes do planeta, segundo esse estudo da ONU, 437 mil pessoas foram mortas em 2017 no mundo; desses, 50.108 foram no Brasil e grande parte delas no campo, isso pouco é divulgado. As maiores taxas de homicídios no mundo estão na América Latina e África, afirmam estas fontes de pesquisas.Nesse momento de crise econômica, as coisas estão piorando ao invés de melhorar, a má distribuição de renda e as concentrações de terras e riquezas só favorecem os mais ricos, empresários, órgãos do capital, latifúndios e aristocratas; mas ainda ACREDITAMOS EM ESPERANÇA DE NOVOS TEMPOS. A cada momento explode no Congresso Nacional um esquema dos desvios do nosso dinheiro que pagamos com altos impostos – PECs, emendas reformas macabras são aprovadas por alguns deputados que batem com força na cara dos trabalhadores que sustentam a economia. Exemplos: fator previdenciário, terceirização e a Reforma da Previdência. Os homens e mulheres do campo e das cidades do nosso país fizeram sua parte nos dias 13 e 14 de agosto de 2019 – honrando o sangue de MARGARIDA ALVES – Mulher liderança sindical da Paraíba do Norte que tombou sobre as balas do coronelismo. Lutamos por nossos direitos sonhando sempre com melhorias. Na capital do país lembramos nesses dias a memória daqueles e daquelas que começaram essa batalha há muito tempo atrás, companheiros e companheiras que lutaram corajosamente e deram suas vidas por uma palavra chamada “LIBERDADE”. A pauta das reivindicações pela primeira vez na história nessa VI Marcha não foi entregue ao Governo Federal, sendo este inimigo dos Movimentos Sociais. Voltamos então para nossos estados com mais um dever cumprido, acreditando que esta MARCHA HÁ DE GERAR BONS FRUTOS.

José Antonio Basto
Urbano Santos-MA.
Agosto -2019.
(98) 9 8607-6807

segunda-feira, 29 de julho de 2019

A pescaria numa terra proibida

"Pov. Bacabal - Urbano Santos-MA".

Certo dia marquei uma pescaria para o "Rio dos Pretos" – no sertão entre São Benedito do Rio Preto e Urbano Santos – quase nos limites de Chapadinha, terra de criadores de porco e bode. Saira da sede da cidade às 14:00h, viajava pela chapada do meio – na estrada que dá acesso aos povoados Prata e Riacho Seco. O Bacabal de Santa Rosa era o ponto final, perderia-se entre os caminhos do cerrado, já modificados. “A pescaria numa terra proibida” prometia. Era o começo da aventura.
Bacabal e Santa Rosa são duas comunidades vizinhas; áreas que estão em conflitos fundiários – de um lado a família Garreto e do outro os moradores do vilarejo. Bacabal nascera de Santa Rosa, quando no decorrer do tempo os moradores migraram de um lado para o outro a procura de terra para trabalhar. A [Associação de Moradores] fora criada com o objetivo de entrar com um processo de desapropriação no Incra e também arrecadar pelo Estado o restante da chapada para as mais de trinta famílias camponesas que lá moram e trabalham de roça. Conheço o pessoal de Bacabal desde quando se iniciara o conflito há quase uma década atrás. Um povo hospitaleiro que vive no dia-a-dia do trabalho pesado da lavoura e da pesca artesanal, além de outras tarefas e práticas como o extrativismo do bacuri e outros frutos da floresta. Outrora participei de  muitas reuniões de organização, preparação e orientação da luta pela terra. Mas naquele dia a tarefa era outra – divertir-se um pouco com a arte da “pesca numa terra proibida onde quem chega por lá é indagado pelos moradores” e, interrogado sobre o que anda fazendo por aquelas bandas. É claro que essas interrogações não foram me dirigidas. Eles estão fazendo certo, pois a terra é seu bem maior, muitos visam aquela região de chapadas, babaçuais e matas virgens / poucos sabem de seu importante valor econômico e social, cansaram de serem colonos e escravos dos que ainda se “dizem senhores dominantes". A poeira da estrada estragara  minha garganta, rendendo mais de duas semanas de gripe forte e muita tosse. Mais de uma hora de viagem pelos “campos do gaúcho”- este deu uma melhorada na estrada que vai para sua fazenda. Menos mal, mas não fizera a estrada para facilitar a vida dos moradores de Bacabal e Santa Rosa, mesmo assim eles a utilizam frequentemente, pois a outra estrada via Marçal é bem mais longe para a cidade. Ao chegar, deixei a motocicleta em baixo do pé de jatobazeiro – árvore centenária que fornece uma boa sombra nas horas de reunião e também frutos para a meninada matar a fome quando precisam. O enorme pé de jatobá é uma prova viva da existência e formação histórico-social daquela comunidade que se criara a partir das adjacências do campo de futebol – muito parecida mais com uma  aldeia indígena. Antes de ir para o rio, conversei um pouco com o presidente da Associação sobre algum tipo de novidades recentes, quase nada me dissera a respeito da questão que vem se arrastando, apenas falou da eleição da nova diretoria da Associação que alguns dias tinha acontecido. As horas iam passando e eu tinha que pescar. A fome apertara também, pois não almocei nada naquele dia, esperava pegar peixes para comer assado com farinha lá mesmo na beira do rio.
"Curumim / Menino do Pov. Bacabal - Urbano Santos-MA". 
Segui para a ponte que liga o outro povoado vizinho, o rio baixara suas águas e, muito – notou-se a diferença de outras datas. Os anzóis e as redes foram pra dentro d´água, pouco beliscava, mas as redes fizeram a festa com as baranas e freixeiras, apesar das piranhas estragarem fazendo buracos com seus afiados dentes. Anoitecia e outras iscas foram botadas para ferrar as catanas, tudo calmo – as horas passavam lentamente, se ouvia gritos de caçadores e latidos de cachorros ao longe, tiros de espingarda... as estrelas do céu eram a minha companhia. O pensamento viajava, concentrado lembrava de minha casa e decidia voltar ainda naquela madrugada. Fiz uma fogueira na beira do rio, botei alguns peixes para assar, depois jantei-os, bebi água cinzenta do Rio Preto e estava alimentado. Por volta de  1:00h hora da manhã decidi voltar pra casa, tinha pegado o suficiente para o almoço. No trajeto até o vilarejo de Bacabal Deus e a luz da lanterna eram meus guias. Chamei o morador da casa para pegar a chave da moto, não quis incomodá-lo, despedi-me e acelerei na volta para casa, subindo a ladeira até a planície da chapada. Viajar a noite não é uma boa experiência e ainda mais sozinho por aquelas brenhas. Os campos de eucaliptos faziam fronteiras com os carrascos e chapadas, a poeira ardia nos olhos. Mais de dois quilos de peixes vinha no côfo. O medo me apavorava.
Após horas de viagem, avistava-se os primeiros sinais das luzes da cidade. O medo foi passando assim que se aproximava da civilização. Chegava em casa as 3:00h da manhã, cansado, com peixe e uma bagagem para mais um ensaio literário... uma prosa sobre este tema que quase não tivera tanto sucesso assim para muitas pessoas, mas para outras é de grande e estimável valor.     

José Antonio Basto






domingo, 28 de julho de 2019

Lendo para entender a chapada de forma diferente


O caminheiro depois de muitos dias de viagem pelo leste parava numa humilde choça das paredes de taipa e coberta de palha de babaçú. Se hospedaria ali naquela tijupá para repousar a noite e mais tarde seguir adiante, pois seu dia tinha sido bastante cansativo, percorrera toda aquela densa região de conflitos, acumulando o aprendizado. Era um herói? Talvez, com modéstia – esperava algumas mudanças e reformas que favorecessem os menos favorecidos e desprovidos de direitos. Este é o ofício que escolhera na esperança de novos tempos para colher bons frutos no futuro. Ao se abancar, perguntaria aos anfitriões do lar sobre a questão da terra – a conversa começaria antes do jantar que foi oferecido, pois jamais se dispensaria uma tradicional Iguaria de “galinha caipira com arroz de pequi” a pesar de tudo estava na chapada. A janta saiu com perfeição à luz de lamparina. Satisfeito! Em seguida surgia uma provocação que envolveria a situação fundiária do lugar. Poucos discutem sobre esse assunto que decerto é polêmico desde tempos bem remotos na história das civilizações; respeitava-se o momento – deixando-os à vontade. Mas as respostas supriam as indagações e a “prosa” prosseguira até o fim. O Viajante tirava de seu alforje alguns livros, textos, revistas e jornais velhos – veículos estes que alimentariam o gosto pela leitura e daria uma injeção de ânimo na luta pela posse da terra. Presenteava-os com carinho; recusaram de início, pois não sabiam ler nem escrever – descobrira então, óbvio! Mas respeitosamente aceitaram os presentes e os guardaram num baú seguro, pois dali tiveram a curiosidade de aprender a ler em uma demorada relação com as palavras e com a gramática. Só assim demonstrariam força intelectual e social para destrinchar os processos burocráticos no que diz respeito a defesa do território. Não conheciam o mundo das letras – e nunca leram nada – muito menos pisaram na escola; mas sabiam de cada pé de árvore da chapada – mostravam seus saberes e técnicas no extrativismo repassados de pai para filhos – curavam-se com remédios tirado das plantas medicinais – seus pais lhe ensinaram; não se perderiam nas veredas nem de dia, nem de noite, a energia era a luz da lua e das estrelas. Caçavam, pescavam, lavravam o chão e criavam pequenos animais para a alimentação e reprodução da família, o que detinham de mais valioso. Soletravam “lendo para entender a chapada de forma diferente”, coisas que a escola não ensina, adquiriram o diploma com o tempo. A existência e a convivência ensinaram essa nobre literatura onde uma minoria dar valor. Conversavam ao seu modo com a natureza numa comunhão e comunicação com o espaço em que vivem. Sabiam a hora pelo sol e o tempo de plantar e jogar a semente no período certo através do clima. Viviam Isolados do mundo civilizado e conectados com o meio ambiente. A cartilha era a própria terra, as folhas, os ventos, a enxada, o jacá e as chuvas de inverno. Formaram-se em todas as ciências, receberam prêmios valiosos e repassaram isso para as futuras gerações. Tiveram como mestres o tempo e a paciência que lhes ensinaram a mais bela das lições de vida.

José Antonio Basto
e-mail: bastosandero65@gmail.com    

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Um pedaço de prosa

"O Viajante chegaria à fronteira demarcada pelo rio dos pretos -, entre Urbano Santos e São Benedito, depois de ter percorrido alguns quilômetros pelo sertão das chapadas. O destino? Uma reunião de orientação para os irmãos camponeses. Algo incrível haveria de acontecer naquela história, naquela prosa: de "inspeção à audiência". O sol aparecia por traz da floresta, iluminando  o dia a dia dos lavradores (as) sobre o tempo, aguardavam com ansiedade uma autoridade judicial em suas terras. Mostrariam seus modos de vida, a cultura, a terra, as roças, os animais pastando no campo... A agricultura. Seu território é algo incomum, um sonho desejado para os viventes que vivem e sobrevivem deste pedaço de chão. Tiram tudo de lá, necessitam para viver. O tempo foi passando, as águas do rio descendo... Uma trégua! E mais uma vez a batalha daquele dia fora adiada". [...]
[...] 
José Antonio Basto 

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Os tiros estrondavam no sertão!

Em algum lugar na região do baixo parnaíba maranhense
Tiros se atiram e se ouvem no sertão! Constantemente se escuta tiros nas chapadas -, quase não se ver mais, de junho a dezembro os tiros estrondam na floresta! Há muito tempo os sertanejos lutam por algo melhor em suas vidas... Para suas famílias - gente que durante séculos foi massacrada. Mas como lembrar disso? Se o sertão é o canto que ecoa nos infinitos caminhos – o sertão é o meio, o início e o fim de qualquer prosa.
Caçadores atiram para as matas, eles caçam para alimentar suas casas e seus criados, a “subsistência” – talvez não faz tanto mal assim como se pensa porque a cultura dos povos é mais forte do que qualquer empreendimento capitalista. Mas o sertão foi invadido e os tiros que rondavam suas terras não se ouvem mais. O território foi marcado por ferro e fogo, o sangue ainda se espalha por lá. Muitos dias se foram, muitos sonhos também... grandes vitorias saíram das entranhas do coração e da vontade de viver! Mas viver com muita cautela, precisa-se “acreditar”, precisa-se escrever a própria história.
O sertão se esvaziara de seu povo que se fora, retiraram-se com medo da fome e dos fantasmas que lhes assombram... RETIRARAM-SE intoxicados pelo veneno! A terra fora tomada - “grilada” – por tempo indeterminado, a mesma terra dos ancestrais. Agora nem caça, nem peixes, nem roças! Acabara-se tudo! Ainda resta a coragem de lutar. Science alertava no pé do ouvido em seu Monólogo, dizendo: “O homem coletivo sente a necessidade de lutar / O orgulho, a arrogância, a glória / Enche a imaginação de domínio”. A cartilha contara a história. A didática também foi contada, mas em alguns casos de maneira equivocada.
Como imaginar o sertão em seus velhos tempos de outrora; quanto aos tiros disparados, anunciaram então uma nova era. Rendiam-se -, os tiros voavam os ares da liberdade e a fumaça do campo enchia os pensamentos de domínios. Eles rondavam o sertão em busca de direitos, atravessavam valas e grotiões pelo agreste. Rumavam para o leste. Para as outras bandas eles moravam, residiam ali longe de tudo e de todos, quando as estações mudavam de cor os campos abriam seus jardins de flores anunciando um novo tempo que nunca chegara.
Os caminhos do sertão eram os mesmos caminhos estreitos trilhados por rebeldes, eles eram insurretos e adentravam pelas matas – chapada afora. Quando se viaja pelo sertão se ouve muitas coisas, histórias e encantos. Os modos de vida mudaram... Ainda resta tempo para a luta e para os sonhos. O sertão parava ali, os ventos do leste ecoavam junto às florestas que adormeceram e sem poder falar dormiam sem dizer nada; exceto, a angustia dentro de si. Ali se ouvia os tiros que estrondavam no sertão!

José Antonio Basto

segunda-feira, 3 de junho de 2019

URBANO SANTOS: 90 ANOS DE LUTA E HISTÓRIA



"Ponte antiga sobre o Rio Mocambo" - (fonte: IBGE)
“Balaios de ontem e de agora” – “Rio Mocambo de lutas gloriosas.... Com suas águas negras cheias de encantos / Guerra dos Balaios que deu origem a Urbano Santos”... [...]. Nessa próxima (segunda-feira), 10 de junho de 2019, nossa querida e amada cidade - Urbano Santos estará completando “90 anos de Emancipação Política”, (são nove décadas de história). A Balaiada, uma das mais importantes revoltas populares - (insurreição) do Brasil Regencial marcara sua trilha e seu espaço geográfico no nordeste maranhense. Eles se amocambaram, montaram suas trincheiras nas margens do Mocambo, atacavam os legalistas e se escondiam ao mesmo tempo... Escutavam (no Escuta) o tropel (barulho) dos cavalos e som de barcos das tropas do Exercito Provincial. Aportavam em (Porto Velho I) para o desembarque de suprimentos e armas... Andavam pelo Sertão desafiando o sistema, contra a Lei de Recrutamentos, contra a tirania dos latifundiários em busca de liberdade. A Balaiada tem
"Avenida Manoel Inácio" - (fonte: IBGE)
mais e mais páginas nos encontros e desencontros da memória oral, na verdade existira várias Balaiadas. Daí com o fim da guerra em 1841, no ano seguinte começa a surgir o Vilarejo de Mocambinho com pessoas que procuravam refúgio seguro nas beiras do rio, mais adiante Mocambo, depois Vila de Ponte Nova estabelecida pela Lei Provincial nº 1.235, subordinada ao Município de Brejo dos Anapurus, mais tarde em 10 de Junho de 1929 se chamaria definitivamente “Urbano Santos”, em homenagem ao cidadão Urbano Santos da Costa Araújo, este, filho da cidade de Guimarães, em sua carreira foi 
deputado federal de 1897 a 1905, governador em 1913, senador entre 1906 e 1914 e vice-presidente do Brasil entre 1914 e 1918, durante a
"Chagas Araújo" - (Primeiro prefeito da cidade).
presidência de 
Wenceslau Brás. Assumiu interinamente a presidência do Brasil em 1917.
"Visão panorâmica da cidade" - (Imagem da web).
Reeleito para a vice-presidência na chapa de 
Artur Bernardes em 1922, morreu antes de ser empossado. Nossa cidade teve como primeiro prefeito o Dr. Francisco das Chagas Araújo -, filho do influente Coronel de patente José Antonio Araújo. Com o passar do tempo ganhamos uma bandeira e um hino que foi escrito pelo Padre José Antonio de Magalhões Monteiro. Parabéns aos filhos ilustres e a toda sociedade urbano-santense pelos “90 ANOS” e sobretudo pelo rico capítulo escrito no PANTEON DA HISTÓRIA.

Fragmentos: Décimas a Urbano Santos”

“Raios do poente brilham no horizonte
Refletindo a imagem das casas antigas
Folclore e lendas misturam cantigas
Cultura dos povos... letras consoantes
Mergulho nas praças seguindo avante!
Compondo o poema pra esse torrão
Nos versos da vida canto com emoção
Espera-me ó fama na luz da lembrança
Eterna cidade berço da esperança
Receba essa lira com inspiração.
 
"Tradicional casa do Sr. Jaime".
No alto da torre eu ouço a canção
E olho a bandeira já bem hasteada
Crianças correndo em disparada
A juventude lendo a mais bela lição
Todos em coro com o livro nas mãos
Em marcha unida ao futuro enfrentar
Pranto dos olhos escorre ao cantar
Cabelos arrepiam ao som das vozes
Balaios de agora... Guerreiros ferozes
Soldados de hoje! As armas preparar!


Com a túnica de um monge consagro-te na aurora
As tuas relíquias que são pesquisadas
Tesouros perdidos em matas fechadas
Repletos de brilhos que estão na história
Aguardo um retrato que não mais demora
Museu e morada da antiguidade
Os ventos do leste nos deixam saudades
Nas folhas das árvores que sempre balançam
Trabalho... Pessoas que nunca descansam
Entrego-te os versos ó minha cidade”!

José Antonio Basto

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A abolição inacabada


Será que a abolição da escravatura de 13 de maio de 1888, resolveu os problemas de milhares de escravos no Brasil? Os movimentos abolicionistas pregavam a liberdade por completa e não apenas pela metade como aconteceu. Nomes como os de Joaquim Nabuco, José de Patrocínio e o poeta Castro Alves foram vultos da história que merecem ser lembrados pela grande contribuição a respeito da liberdade dos negros e negras deste país, além de muitos outros líderes que se doaram à causa da luta contra o mais horrível e hediondo dos sistemas que perseguiu a humanidade, principalmente o povo negro africano.
          Os problemas sociais no Brasil, em especial o da escravidão negra, foram mazelas e feridas que ainda hoje não cicatrizaram e continuam na alma e na lembrança dos afro-brasileiros. Os mais de trezentos anos de cativeiro negro e indígena que perdurou em nosso país – dizimando o continente africano, foi sem dúvida uma das maiores vergonhas machas desta pátria. Uma coisa não é lembrada: os escravos nunca aceitaram a escravidão, fugiam e formavam quilombos, resistiam aos ofícios não fazendo os trabalhos ordenados pelo patrão, quebravam instrumentos de trabalho, as mães num momento desesperador até abordavam seus filhos para não vê-los futuros servos dos senhores brancos, em fim... A luta dos negros foi acirrada: Zumbi foi assassinado, Negro Cosme enforcado em praça pública para assim mostrar o poderio do estado repressor. Mais de 18 milhões de africanos foram deportados da África para o Brasil, a Lei Eusébio de Queirós proibira o tráfico de escravos da África para o Brasil, mas isso também não valeu a pena, porque o tráfico de negros continuou na clandestinidade por um bom tempo.
            O período literário do “Romântico” no Brasil principalmente a terceira fase, (condoreira), foi um dos alicerces para que grupos de intelectuais influenciados principalmente na Revolução Francesa formassem grêmios com o intuito de discutir uma política de apoio aos escravos. Esses grupos deram origem às chamadas “Sociedades Abolicionistas” – essas organizações tinham o objetivo de alforriar escravos, esconder negros fujões das fazendas até que conseguissem achar um quilombo. Uma campanha foi idealizada, mas quando deu certo não foi cumprida porque muitos negros após o 13 de maio de 1888, continuaram sendo escravos do preconceito e da discriminação racial até os dias de hoje. A abolição de 13 de Maio foi inacabada porque a D. Isabel apenas assinara com um traço de pena a Lei Áurea, uma vez que ela nunca realmente lutou por uma bandeira abolicionista. Assinara por pura pressão social. A abolição foi inacabada porque os afro-brasileiros ainda apresentam os maiores índices de analfabetismo, as favelas, guetos e cortiços em suas grandes maiorias são habitados (as) por negros; morre mais jovens negros no Brasil do que jovens brancos; há quem diga é porque são pobres, sim a escravidão negra sempre mostrou essa face criminosa do desamparo, da angústia, desrespeito e pobreza, são pobres e são negros. Uma sociedade com problemas de escravidão não tem como avançar no que diz respeito à economia e o progresso. A História do Brasil é uma história feia, são páginas de opressão e sofrimentos, um sujeito só faz um serviço com gosto se realmente for remunerado, claro que o progresso se estende através do trabalho assalariado. A escravidão negra ainda nos reflete um quadro obscuro e sem escrúpulos, as lutas sociais, a rebeldia dos jovens e os sonhos de um dia ter uma vida melhor, foram as bandeiras que hasteadas para o sol nascente alcançaram a vitória de uma luta que durou mais de três séculos. Essa luta que esteve na imprensa e nas linhas dos poemas calorosos de Castro Alves, anuncia agora com muito otimismo a “A abolição Social” dos negros e negras dos nossos dias atuais. Queremos ouvir o som do berimbau, do atabaque e do agogô... Queremos cantar e brincar em homenagem às flâmulas que conseguiram a abolição mesmo pendente. Abaixo os 131 anos da falsa abolição nesse 13 de maio de 2019, essa luta é de todos nós, o Brasil precisa erradicar urgentemente a escravidão social das páginas de nossa história.  

“Minha alma ainda treme de frio e indignação quando se lembra da chibata que assolou o couro dos meus irmãos cativos.”
(anônimo)
José Antonio Basto
Urbano Santos/MA – 13/05/2019.