terça-feira, 9 de setembro de 2014

Paixão adormecida


I
Quantos beijos no jejum
Quantas lágrimas derramadas
Saudades na solidão...
Saudades de ti amada.

II
Meus versos de agonia,
Em chama de noite escura
Repletos de cantos tristes
                                                           No estágio da loucura.
III
Rainha da natureza
Ó minha adorável flor!
Venha beijar-me outra vez
E curar a minha dor.

IV
Só de ti sinto saudades
Mas o tempo foi barreira
Que atrapalhou nossas vidas
Esta lembrança inteira.

V
Os míseros corações
Abalaram o meu viver
Fazendo com que agora
Alimentasse o sofrer!


VI
Sofri a pena dos sonhos
Entre os laços da amargura
Chorei lágrimas de sangue
Em cenas dessa ternura.

VII
Retornei aos velhos tempos
Em nossa eterna história
Nossos minutos felizes
De fogo, perigo e glória.

VIII
Cante comigo agora
Abrace-me, por favor!
Porque se não vou morrer
Vítima desse  amor!

IX
Fui condenado em papel
Na lira que te ofereço,
Jamais por toda existência
De tua face me esqueço.

X
Boa noite mais uma vez!
Amo-te por toda a vida
Saiba que ainda existe aqui,
Uma paixão adormecida!

José Antonio Basto
Setembro de 2014








terça-feira, 2 de setembro de 2014

Leitãozinho ao molho pardo na Comunidade São Raimundo


da esquerda pra direita: Eu, Dona Raimunda, Selma e Domingos
Estive a convite em São Raimundo, zona rural de Urbano Santo para saborear um leitão ao molho pardo na residência dos amigos: Domingos e Selma. Eu estava no Povoado Boa União a serviço do Colégio Múltiplo da minha querida turma do Magistério à distância, pessoas que além de alunos e alunas são amigos e amigas que compartilhamos conhecimentos juntos. Mas como é quase impossível viajar para a Boa União e não poder ir ao São Raimundo, Selma por mera coincidência me fez um irrecusável convite para almoçar em sua casa um leitão a pururuca, sendo este prato, uma de suas especialidades.
A aula terminou por volta do meio dia, dona Raimunda da Boa União estava consciente que eu iria almoçar em sua casa, mandei um recado pra ela por minha aluna Erenice que não precisava se preocupar comigo. Peguei minha velha moto e enfrentei as avalanches entre os dois povoados, atravessando as encostas dos morros e ultrapassando riachos e ladeiras. Passei por uma plantação de batata-doce já na entrada de São Raimundo, fiquei impressionado, visitei a casa de Dona Maria logo no inicio, uma das moradoras beneficiárias do programa do governo federal “Brasil sem Miséria”, conversei um pouco com ela e tomei um cafezinho enquanto a mesma debulhava feijão. Segui viagem até que cheguei na casa do Domingos. Um tempo de chuva estava se formando para o lado do nascente, mas a fome era maior que o medo da futura chuva que caiu com vontade sem cessar, cheiro de terra molhada, uma benção -, talvez! O certo é que Selma serviu o almoço “leitão a molho pardo com arroz branquinho acompanhado de salada dos legumes de sua horta do quintal” tudo estava suculento, quando começamos a almoçar a chuva ficou mais forte, uma carne saborosa com pimenta malagueta e farofa de farinha de puba, repeti duas vezes, quase passo mal. Quando terminamos de almoçar, Selma trouxe um suco de bacuri bem geladinho -, pois a safra desse fruto das chapadas foi boa e significativa esse ano, tanto no São Raimundo, quanto no Bom Princípio, Bracinho e região. A chuva não parava e a cada momento ficava mais potente, os pingos pareciam pedras no teto da casa. O horário já era mais ou menos umas treze e meia, como eu não voltaria mais para aula na Boa União, baixei uma rede e tirei uma boa soneca para descansar. Percebi que tudo ficou calmo, a carne de porco parece que deu sono em todo mundo, todos adormeceram e sentiram grande preguiça. Mas era ora de voltar para Urbano Santos, deixar o São Raimundo e a  lembrança de uma boa refeição natural de nossa região. Despedi-me de todos e sai no sereno. Passei de volta na casa da Francisca, mas ela não estava lá, tudo fechado – apenas os bichos no terreiro, talvez estivesse em alguma atividade em defesa dos direitos humanos e da vida, ou mesmos para a cidade.  Quando eu voltava as pessoas acenavam da janela com as mãos, muitos curtindo fumaça de casca de babaçú para espantar os mosquitos (maroins) que assentam principalmente em crianças após um sereno. Parei mais uma vez no comércio da casa azul, comprei algumas balinhas e tomei um refrigerante para ajudar na digestão, bati um papo com a mulher dono do estabelecimento, mas pouco tempo, o sol virava-se rápido. Parece que o São Raimundo está mudado e ainda bem que é pra melhor, mudou mesmo, o tempo passa e ninguém percebe. Aquela amada comunidade humilde e hospitaleira, defensora das causas ambientais que espera por um projeto de assentamento. O leitão a molho pardo na casa de Domingos me fez recordar as tantas vezes que fui recebido com carinho por aquela gente, amigos de batalha que não se cansam jamais na luta por Reforma Agrária.
A fartura de animais cresceu no São Raimundo nesses últimos tempos, alguns moradores fizeram projetos do agro-amigo pelo Banco do Nordeste do Brasil para a criação de animais, porcos, galinhas e roças; como foi caso do Domingos que fez um crédito no banco para criação de suíno onde foi bem sucedida sua produção, pois foi de lá que saiu o nosso almoço tratado nesse texto. Voltei para minha casa, com a consciência de dever cumprido por ter participado de mais uma excelente ocasião na casa de amigos. “O leitãozinho a molho pardo na comunidade São Raimundo” vai ficar em minha mente por muitos tempos, assim que me lembrar da comunidade e das pessoas que conheço. Pois sempre que recordo dá água na boca e bate uma saudade de voltar novamente.

(José Antonio Basto)
Utbano Santos-MA
 



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

São Raimundo: uma saudade da velha culinária e do seu povo hospitaleiro


Eu e Mayron do Fórum Carajás na casa da Francisca almoçando pato caipira
Hoje, 27/08 -, por mera consciência atendi em meu trabalho como orientador dos camponeses no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Urbano Santos a Senhora Rosilene, moradora no Povoado São Raimundo, prima da Francisca, presidente da associação da comunidade. Aproveitei para mandar lembranças àquelas pessoas amigas, foi daí então que senti saudades da velha culinária e do seu povo hospitaleiro. Pensei nos peixinhos do riacho que Francisca Faz amoquecados, as galinhas caipiras com leite de côco, pato ao molho pardo, leitão a pururuca e sucos naturais.
pato ao leite de coco preparado por Francisca
A querida comunidade de São Raimundo é conhecida por ter uma associação comprometida com a luta em defesa da Reforma Agrária a favor dos direitos humanos e da vida. É uma região de chapadas com muitos bacurizeiros e pequizeiros, as casas dos moradores ficam na encosta da parte elevada do morro, nas proximidades do riacho que vem do Bom Princípio. Antigamente o Povoado São Raimundo não era muito conhecido pelo fato do difícil acesso das pessoas que ultrapassavam caminhos cheios de avalanches até chegarem lá. No inicio da luta pela terra companheiros de militância social como o Wilson Sousa e o Sr. Nonato do STTR na época, batalharam junto à associação numa peleja que até agora tramita nos órgãos fundiários. Respeitosamente falando, tenho um carinho muito grande por aquela população, desde as crianças que brincam alegres nos terreiros aos mais velhos que tem suas mãos calejadas prova do trabalho honesto para o sustento de suas famílias. Por duas vezes levei e organizei dois grupos de alunos para conhecer o projeto do Fórum Carajás que procurou desenvolver o processo do manejo do bacuri e espécies das chapadas. A primeira turma foi em 2011 (16 alunos) da Escola Comunitária Santa Maria Bertilla, pré-adolescentes que tomaram consciências e tiveram uma experiência exemplar a respeito das questões rurais. Caminharam pela chapada e tomaram banho no rio e, para não fugir do assunto, provaram e souberam da grande importância dos pratos tradicionais da zona rural. A última turma foi no ano seguinte em 2012 -, dessa vez o terceiro ano da mesma escola conheceu na íntegra e passaram por aquela aventura numa toyota, lembro que a viagem foi cheia de tropeços, era no inverno e as chuvas estavam fortes, mas deu tudo certo. Acredito que tivemos muitos proveitos, pois quando chegamos à escola preparamos um seminário com as fotos que trouxemos, vídeos e a experiência na comunidade, até hoje os alunos lembram das viagens.
Hoje em dia São Raimundo já conquistou bastante, sabe-se que ainda não foi tudo, mas avançou muito. Tem escolas, projetos de galinha caipira, roças e o manejo do bacuri. É uma comunidade modelo na Região do Baixo Parnaiba Maranhense pela preservação da cultura de seu povo, pelo respeito com as pessoas, humildade e, sobretudo a militância nos direitos humanos e consciência ecológica. No tempo de buriti as mulheres fazem um doce muito saboroso do fruto, a poupa do bacuri também é muito divulgada como forma de desenvolvimento sustentável. Como já dissera antes, São Raimundo é um pedaço do mundo, onde os mais novos aprendem com os mais velhos serem cidadãos e cidadãs de bem que trabalham no dia-a-dia, preservam sua cultura e a mãe natureza e não se calam quando lutam pelos seus direitos sociais.

(José Antonio Basto)
Urbano Santos, 27-08-2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A lírica infanto-juvenil de Castro Alves


Castro Alves - aos 15 anos
Por que Castro Alves foi um poeta sempre jovem? Porque não envelheceu jamais. Morreu muito novo aos vinte e quatro anos de idade, nascido em 1847, na Fazenda Cabaceiras distrito de Curralinho na caatinga baiana,  foi marcado pelo romantismo e pelos cacoetes do romantismo, dono de uma poesia jovem, quase juvenil -, liricamente juvenil e entusiasticamente jovem, é o que se ver em “Espumas Flutuantes”,  sua única obra publicada em vida.
O adolescente Castro Alves começou sua primeira experiência poética ainda quando estudava no antigo Ginásio Baiano em Salvador, um poema que retrata bem esse entusiasmo juvenil da época é “O laço de fita”-, escrito quando ele tinha apenas quinze anos: “Não sabes, criança? Stou louco de amores.../ Prendi meus afetos, formosa pepita./ Mas onde? No tempo, no espaço, nas névoas? / Não rias, prendi-me num laço de fita”. Os devaneios precoces estão intimamente ligados ao sentimento amoroso e aventureiro, o amor que invade o pensamento é maior do que qualquer coisa, podendo até então usufruir de exageros explícitos, como a simples loucura e a morte. A poesia infanto-juvenil de Castro Alves diferencia-se de outras produções pelo fato de que sua juventude foi grifada por fatos que marcaram sua vida: a morte da mãe vítima de tuberculose, a loucura do irmão, a mudança da família do sertão baiano para a capital Salvador foram fatos que fizeram reviravoltas no álbum do artista. Castro Alves talvez não descendesse de uma linhagem de poetas, mas a vocação falou mais alto quando era ainda pré-adolescente. O jovem trovador se revelava um romântico por vocação, ao mesmo tempo, aquele que seria o futuro poeta dos escravos se dedicou e trabalhou extraordinariamente a favor da raça escravizada, tendo como experiência os tempos que passara na fazenda do pai e do avô materno. Seu primeiro poema publicado na imprensa “Canção do Africano” -, demonstra a capacidade de um adolescente que dedicaria toda sua vida contra a escravidão negra no Brasil. Castro Alves não viu a libertação dos escravos em 13 de Maio de 1888, mas, diga-se de passagem, que foi o abolicionista de maior valor nessa militância que se concretizou na liberdade dos negros e o anúncio da república que veio logo mais em 1889. Castro Alves quando viajou para São Paulo realizou-se com aquilo que queria fazer de verdade: a boemia com os colegas de universidade, Rui Borbosa, Joaquim Nabuco e o professor José Bonifácio; num tempo quando ninguém falava de abolição da escravatura no Brasil, Castro Alves em seus poemas já tratava disso ou pelo menos nesta direção. Uma luta que começou na Bahia e foi para o Rio de Janeiro e também para São Paulo, a lírica de um revolucionário hoje patrono da UJS – União da Juventude Socialista, passou,  a partir daquele momento ser uma arma de luta contra todo tipo de opressão dirigida aos escravos. O Jovem poeta Baiano deixou sua marca incomparável no panteon da história por ter sido um poeta românico que pretendia tratar não apenas da escravidão no Brasil, mas também em algumas partes do mundo, como na própria África. A insatisfação do poeta se refletiu por toda sua existência, sua vida na verdade foi de pura militância, isso ficou retratado quando ele desafiou a classe escravocrata e conservadora recitando seu mais célebre e famoso poema “Navio Negreiro” –, um ato histórico que marcou as paginas da militância abolicionista no século XIX.
Um romântico que cantou as flores, as mulheres e principalmente a liberdade, foi este quem escreveu poemas belíssimos que atravessaram as barreiras do tempo, a lírica amorosa e revolucionária de Castro Alves nos faz voltar a um tempo importante em que as tiragens dos livros eram extremamente resumidas. Ler várias vezes seus versos consagrados não é cansativo. Uma poesia difícil de interpretar, repleta de pontos de acentuações gramaticais, ninguém jamais escreveu com tanta perfeição e com tantos pontos de exclamações, reticencias, interrogações, travessões, ponto e vírgula e assim sucessivamente. Castro Alves talvez não tenha sido um bom aluno no curso de direito, mas agitações e literatura eram com ele mesmo. Atingiu seu apogeu como vate imortal da LITERATURA BRASILEIRA. Hoje é patrono de uma das cadeiras da ABL – Academia Brasileira de Letras, é um vulto fundamental de nossa cultura literária -, o poeta da juventude, do amor, da liberdade, da luta por direitos iguais este é Castro Alves é, sobretudo um cantador das dores da humanidade, por isso sua grande diferenciação dos outros poetas do seu tempo. A poesia infanto-juvenil de Castro Alves é ainda uma voz que clama por justiça social na reflexão do preconceito social que ainda não foi abolido de nosso meio, nessa mesma vertente, diga-se de passagem, que foi o poeta que retratou a mulher amada de carne e osso na sombra de uma musa sensual, verdadeira e original e não apenas ficcionista.

(José Antonio Basto)
*Poeta e crítico