quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O vento leste que leva a soja em Anapurus, Baixo Parnaíba maranhense

 

campo de soja em Anapurus-MA

Ali vivia uma chapada, ali moravam animais e corria uma cabeceira de rio, aquele campo de soja no leste maranhense seria uma prova concreta do projeto devastador e selvagem do agronegócio na região do Baixo Parnaíba. A soja implantada nos municípios de Anapurus e Brejo tem suas demarcações e fronteiras, os gaúchos vieram de longe, do sul do país arrasando terras alheias pertencentes aos povos tradicionais. Dirigíame-me à Audiência Pública no Seminário Santo Antônio em Brejo, as comunidades tradicionais foram articuladas pela Diocese, elas falariam sobre velhos problemas fundiários e socioambientais aos representantes das secretarias de estado. A vista dava da janela da caminhonete, carretas enfileiradas carregadas de soja produzida em nosso chão, o cerrado perdeu sua força, ali estar um território secular que hoje clama por justiça social, por causa das fronteiras agrícolas. Os tremembés passaram por ali, os balaios e mais tarde os retirantes vindos do Piauí. Os camponeses criaram vínculos com o meio em que viviam, colhiam frutos, tiravam madeira... reproduziam-se na permanência das áreas agricultáveis. A soja plantada nos municípios de Anapurus e Brejo é exportada atendendo demandas de consumo de outros países, ela se desenvolve através de produtos químicos. Enfraquecida, a terra se tornou uma colônia que enriquece metrópoles e interesses pessoais dos sojicultores. As famílias de camponeses que moram nos arredores dos campos sofrem com doenças causadas pelo agrotóxico, eles perderam suas áreas de caça, pesca e extrativismo. A monocultura da soja vem agravando os modos de vida simples desses lavradores. Um cientista e pesquisador certa vez disse que “o agronegócio da soja vem acabando com o cerrado, sem saber o valor de sua biodiversidade, infelizmente este foi um dos grandes crimes dos últimos vinte anos praticado contra o sertão”. A soja na região do Baixo Parnaíba maranhense visa somente o ganho imediato do capital econômico daqueles gaúchos, sem qualquer análise da importância dessas áreas de chapadas e florestas que estão sendo perdidas e desaparecendo do mapa territorial.

José Antonio Basto


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Pelas trilhas do assentamento

 

Pensava-se num trabalho, um tão quanto pouco literário –, quase crítico, mas não tanto assim. O “Programa Jovem Saber” da Contag e Fetaema – em parceria com os STTRs, convidara-nos para uma pequena pesquisa na casa de um morador do “P.A – Projeto de Assentamento do Povoado Estiva da Mangabeira”, em Urbano Santos, Baixo Parnaíba maranhense. Friviar por aquelas bandas é relembrar o passado histórico do processo de dominação das terras de famílias influentes que detinham do poder cartorial e da estrutura agrária herdada pelos portugueses desde o império do Brasil - para suas elevações econômicas. Pois terra sempre foi sinônimo de capital e poder. Isso é fato.

           


Três companheiros seguiram numa manhã cedo de inverno para desenvolver as pesquisas e aproveitar para visitar velhos amigos de lutas durante o percurso. Eram seis horas da manhã, quando o carro buzinava convidando para seguir cortando os povoados: “Bacaba, Frankylândia, Palmeirinha, Cacimbinha, Baixa do Cocal I e II, Ingá, Santana, São Felipe, Primavera, Mangabeira Velha até Estiva da Mangabeira (Fazenda São Paulo). O “6º Módulo de estudo do Programa Jovem saber”, convidou-nos para uma experiência sistemática, prática e teórica sobre o entendimento do processo de Reforma Agrária no município onde vivemos, suas indiferenças, sonhos e utopias. Um romantismo pregado que se alicerça no pensamento e que algum dia possa chegar como direitos, poeticamente no canto: “Nosso direito vem”.. [...]. Convidava para uma reflexão sobre a participação da juventude na “política de sucessão rural”. Na participação como agentes sucessores da Reforma Agrária, críticos e voluntários de um trabalho de seus avós que começaram há muito tempo atrás e que eles devem entender sobre a continuação desta obra. As brigas de terra para aquelas bandas e em toda região próximas ao rio preguiças são bem antigas – porque remontam o ciclo das fazendas de cana; assim também como em boa parte dos territórios que ligavam as estradas de acesso à cidade de Brejo e Vila de Miritiba.

Na narrativa que se tratava das primeiras lutas na área que foi desapropriada pelo Incra, retrata a resistência dos trabalhadores rurais em não aceitar a pagar mais uma parte de sua produção para os donos da terra. O capítulo é bem antigo desde a habitação dos caboclos sertanejos na época da Balaiada em meados do século XIX. Mas só começaram de fato se organizar na luta pela terra na década de 60 e 70 – anos esses em que o “movimento camponês” ganhava notoriedade no cenário nacional, principalmente no Nordeste, sendo esta, a mais velha categoria e Movimento - MSTTR, que tardou tanto para se organizar. Isso vale lembrar a grande participação dos padres e o papel da Igreja Católica na MEB – (Movimento de Educação de Base) e da fundação das CEBs - (Comunidades Eclesiais de Base) – no leste maranhense. A luta organizada dos camponeses resultou depois de quinze e vinte anos na desapropriação do complexo de “Assentamento Mangueira / Data Mangabeira” na década de noventa. Foi o inicio de uma batalha que deu os primeiros passos com relação à posse da terra e a construção de pequenas e rudimentares casas para as famílias cadastradas. O morador o qual nos recebeu falava do problema da comunicação social naquela época, que para se deslocar até a cidade de Urbano Santos ou tinha que ir a pé ou de animal... na maioria das vezes andavam de trinta a quarenta quilômetros para resolver seus negócios na cidade.


Ele faz uma autocrítica sobre a realidade da reforma agraria, que não é apenas nos assentamentos de Urbano Santos, mas em todo país – principalmente agora com o retrocesso de transformações politicas do atual governo central: “No Brasil não existe reforma agrária, existe apenas uma pequena política de assentamentos fundiários e agora infelizmente ameaçado, explica”. Dá-se ao entender que no entendimento daquele assentado a reforma agraria não é simplesmente assentar famílias camponesas no meio da chapada seca sem água e sem assistência técnica para a agricultura, sem os meios necessários para sobreviver. Deve no mínimo se ter infraestrutura básica, saúde, assistência técnica, educação e outras politicas de desenvolvimento social que completam o verdadeiro sentido da Reforma Agraria, que estão muito longe de nossa realidade.

            A família mora e produz na terra: pimenta malagueta, coco da praia, farinha de puba e criam pequenos animais para a alimentação. Sobre as laterais da casa tem um grande morro com árvores preservadas, além de um riacho de águas claras que passa na frente da moradia. O trabalho foi concluído até meio dia. Será editado e enviado para a coordenação da Fetaema e em seguida para a Contag para avaliação. Foi muito válido o aprendizado para conhecer mais de perto a realidade da historia do assentamento. Página essa que as vezes, ou talvez, a maioria dos moradores não conhecem. Voltamos pela mesma trilha com mais uma das tantas tarefas cumpridas.

 José Antonio Basto.

dezembro - 2020         

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

O Viajante, as águas do Mocambo e as trincheiras da guerra

 

As águas corriam da nascente que fica para as bandas dos campos arenosos, a água nasce do chão, do subsolo – dos brejais e buritizais, as águas do Mocambo descem de longe. As águas negra do rio relembra o passado de glória em que “heróis desejaram a liberdade”, lutaram em seus esconderijos nas batalhas sem registros e mais! Eram BALAIOS que sob pressão do chamado recrutamento forçado, da expressão (o pega), já desejam explodir com suas ideias e ações e fizeram isso -, numa peleja de quase quatro anos de guerras pelas matas e vilarejos. O Viajante entendera que a insurreição passara por sua terra natal “Urbano Santos” – quando o vaqueiro Raimundo Gomes arrebentara as portas da cadeia de Vila da Manga no Iguará e lançava seu manifesto começando então organizar seu exército popular que passaram por este lugar, com o intuito de armar um grupo de rebeldes em Chapadinha e atacar a Vila de Miritiba - hoje Humberto de Campos. Os fatos se construíram e se constroem a cada tempo - a HISTORIOGRAFIA faz o restante do trabalho nas linhas das memórias ancestrais e naquilo que restou de um tempo diferente repleto de lutas sangrentas, de rebeldia e da sustentação de um sonho de liberdade.

O Sertão foi o espaço de luta, a terra tem um significado exemplar – presenciara muitas batalhas e demandas. A região é antiga e, sobretudo diferente. Mas toda guerra tem um fim, parava ali os combates depois que os líderes da insurreição sucumbiram, alguns se entregaram, outros preferiram morrer lutando. Os escravos sublevados pelo imperador das liberdades bem-te-vi, D. Cosme voltaram para suas fazendas... Outros procuraram quilombos distantes como o “Saco das Almas” e o “Lagoa Amarela”. Todos localizados no território deste imenso Baixo Parnaíba. Mas o medo imperava entre os sertanejos e suas famílias. Com o fim das batalhas, os legalistas ainda continuavam rondando o sertão para controlar a situação, alguns insurretos direcionaram-se ás terras de Urbano Santos, procurando refúgio seguro... Entrincheiraram-se e montaram seus barracos junto às margens do rio. Crescia as demandas de organização social, do comércio e subsistência, primeiro chamou-se “Mocambinho”, depois “Mocambo”, Ponte Nova e por fim Urbano Santos em 10 de junho de 1929. Naquela época o rio não tinha nome, daí recebera esse por ter amocambado nossos irmãos “Balaios”, mocambo é uma palavra de origem africana e significa “esconderijo” – “refúgio”. Ás “águas negras cheias de encantos”, correm banhando as comunidades que presenciaram combates; as águas que irrigam plantações frutíferas que chegam ás nossas mesas, águas que dão de beber a roças... As mesmas águas que também mata a sede de muitos da cidade. Este é o rio que inspirou o autor do hino municipal, nos trechos e linhas inscritas por José Antonio de Magalhães Monteiro: “Rio Mocambo de lutas gloriosas/ Em que heróis desejaram a liberdade [...] / Tuas façanhas são vividas 
no ideal da mocidade”.” Em tempos de outrora foi um grande rio por onde navegavam muitas embarcações transportando gêneros de nossa agricultura: (farinha, arroz, milho, tapioca, rapadura, tiquira e cachaça de cana), saindo da sede da cidade, caindo no Rio Preto ou “Rio dos Pretos”, caindo no Munim, seguindo para Cachoeira Grande e chegando à capital São Luís.

O Viajante banhava nas águas do Mocambo, observara os capítulos da história narrada oralmente pelos mais velhos. Aprendera com humildade. As memórias da guerra ainda estão vivas, resta muitas coisas boas, utensílios, barragens, cemitérios antigos, paredões, canhões... Resta o livro do pensamento que vai sendo construído ao longo dos tempos. O Viajante viajava na história deixando suas trilhas e pegadas na areia deste chão de lutas e nas águas que descem para algum lugar importante deste “Território livre”.

 

José Antonio Basto

E-mail: bastosandero65@gmail.com

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

VELHA NEGRA CONSCIÊNCIA

Ela estar madura e bem distante de todos

Lá está! Longe... bem longe da visão...

Lá está ela... forte e destemida! Resumida

Lá está minha "Consciência no coração".


Lá está ela viva e sem aceitos de guerreiros!

Minha mente africanizada com memórias!

Exceto! Os que nunca, nunca fizeram nada,

"Nada vezes nada, portanto é nada na história".


E lá vem a "Negra Consciência", a "Velha Negra"

As guerras e destinos sufocados na existência

Lá vem o tambor, o agogô... a cabeça e o berimbau

Lá estão meus versos de saudades e vivências.


Lá está o farol solitário e quase sem moral!

Por não acreditar na carabina... no braço e na guerrilha

Foste o sangue derradeiro, o mártir do sofrer!

Foste a glória, a história... a terra que brilha.


E ainda a rama, um sonho, a sorte

E ainda as gramas, a vastidão, o papel e o poema

Foste tu! A letra! Os negros... a senzala

A grande casa! Das vozes, o eterno tema.


E de grandes e pequenos... chão vermelho!

De tão poucos versos sem tal e regras!

Era a voz de trezentos e mil anos...

Que ecoam na minha "Consciência Negra".

José Antonio Basto e Mundinha Araújo


José Antonio Basto

• "Em dedicação ao "Dia Nacional da Consciência Negra. 20 de novembro - 2020". Uma especial saudação aos 325 anos de "Zumbi dos Palmares". Viva Zumbi!!

José Antonio Basto.

 


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O Viajante caminheiro do sertão


O Viajante caminheiro do sertão seguia pelas chapadas adentro. Sua moto companheira já quase debilitada, roncava pela manhã cedo rumo a um vilarejo distante nas imediações da cabeceira do “rio dos pretos”. Ouvia-se apuradamente tiros de espingardas e latidos de cachorros, gritos de caçadores por aquelas bandas, por aqueles grotões e boqueirões profundos. As chapadas falavam e clamavam junto a Deus contra o fogo que destruía a relva. Algum canto de pássaro cativava a audição do Viajante -, seria uma nambu, um juriti, um sabiá ou gaturamo? Corria pelo sertão, uma lagoa aqui, as barreiras estreitas ali. Sinais de flores de bacuri e pequi – sinais de flores e belas florestas; uma boa safra assim que a chuva cair! O capim orvalhado dava lugar ao sol, a manhã desaparecia; o sol subia para o meio dia. Distante dali ficava ao sul uma cidade, ele se dirigia ao norte. Os moradores das comunidades tradicionais sempre vão à cidade, quando precisam dela, quase sempre fazer a feira. Precisam, ou quase sempre... nem tanto assim. Eles tiram da terra, das águas e das florestas tudo que precisam. São merecedores... enfrentam o dia-a-dia atravessando avalanches e barreiras que o destino lhes apresentam. São heróis e guerreiros de combate.  Era tarde, o sol já tinha virado, quase nada o caminheiro tinha botado no estômago que continuava vazio. Algumas frutas se apresentavam nos caminhos, frutos do cerrado. Botava-os no bornal a tiracolo. Debaixo de um pé de faveira o Viajante parou para um lanche natural de frutos da terra, um riacho corria próximo dali fazendo um barulho nas pedras, precisava beber água. A cigarra anunciara suas pancadas de três e meia da tarde, já  era hora de atravessar as matas.

Ligava sua moto e corria sobre as veredas dos barros vermelhos, meio que sem destino, andarilho... descera numa vila camponesa. Era bonito o lugar, na chegada muitas roças, animais pastando no campo e no vale... pescadores, caçadores, agricultores e extrativistas. As mulheres com seus filhos de lado, batuques de pilão e o milho quebrado. Ele conhecia um velho amigo naquele povoado, certo tempo lutaram juntos pela terra, isso há muito tempo atrás. Era chegada a hora de mais uma vez conversarem sobre as situações agrárias daquela região agreste. Já era noite, a lamparina acesa encadeava os olhos. Os donos da casa, hospitaleiros e modestos convidavam o Viajante para jantar: “um tatú cozido ao leite de coco”, eles caçam animais silvestres como fonte de alimentação, para subsistência, sem agredir o meio ambiente, caçam equilibradamente por tradição e não para venda -, que até então quando se caça para vender e obter lucros no abatimento dos animais pode se considerar caça predatória.

Tatu ao leite de coco é coisa boa... fruto do chão. Sentaram numa esteira feita de palha de babaçu na simples cozinha e começaram a refeição. Um papo fluía entre a união, papo sobre roças, caçadas e pescarias, enquanto isso a panela ficava vazia. O corujão pregava uma longa noite de frio com seu gorjear melodioso e tristonho. No sertão se dorme cedo, logo após a janta. A caneca no banco de pote cantara num eco sem igual, raspando a água no fundo do barro. Depois disso o Viajante deitara numa rede, estava bem cansado e adormeceu em sonhos naquele lugar distante da civilização. Seus sonhos eram de um outro mundo possível! Aquele dia fora produtivo... esperava o sol raiar no dia seguinte para seguir adiante. Romantismo? Não. Simplicidade de leitura do livro da realidade.

José Antonio Basto

 

Outubro - 2020. 

sábado, 19 de setembro de 2020

GALINHA CAIPIRA NO ALMOÇO


Como os ancestrais faziam
Em velhos tempos de outrora
A galinha caipira...
Que ficara na historia.

De culturas e sabores
Com temperos de cercado
Matando a fome do povo
Através de um bocado.

Criada na capoeira...
Biliscando as sementes
De milho, arroz e feijão 
Que mata a fome da gente.

A galinha capira...
Na panela do fogão
No braseiro cozinhando
Sobre o calor do carvão.

Agora vai para os pratos
Costela, asa e pescoço...
Nascida deste poema
Na cantiga de um almoço.

José Antonio Basto

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

PASSAGEM DO VIAJANTE PELA SEDE DA CIDADE DE URBANO SANTOS PARA UM DEDO DE PROSA COM OS AMIGOS

O Viajante acordara de um longo e cansativo sono existencial. Ele vinha das bandas das terras dos campos arenosos de Humberto de Campos, por aquelas estradas cheias de lagoas. Saia de Santo Amaro e Primeira Cruz - pela zona rural, lembrando os antigos caixeiros nordestinos dos tempos passados. Praticara o caminho pela "Lagoa do Casso", por ser um final de semana, tinha uma grande aglomeração de banhistas naquele importante ponto turístico. Caminhava com seu "alforje de caçador" -, um surrão de pano com livros e outros papéis - documentos bem antigos; tinha também alimentos para as horas difíceis; parava de povoado em povoado para pedir um copo de água e as vezes um punhado de farinha, nada foi lhe negado pelos camponeses que ouviram falar de suas aventuras. Por causa da "Pandemia", seguiu caminho afora pela Comunidade Vertente de Baixo. Chegara na sede da cidade e procurava o Mercado Central de Urbano Santos, mais conhecido como Centro de Abastecimento de Alimentos. Ele conversava com amigos companheiros - estes, porventura moradores da Vertente, antes passara em "Mocambinho dos Balaios" e Vertente de Cima -, sendo estas, duas áreas de terra com o mesmo nome e reconhecimento. O Estado ainda deve demarcar estas terras, assim favorecendo os moradores com seus títulos de posseiros e arrecadações sumárias. Uma família tradicional de posseiros mantiveram o direito de propriedade com o documento do Título Comunitário, reconhecido pelo ITERMA e órgãos fundiários de outrora. Vertente de Baixo e Vertente de Cima São dois povoados em um só, de uma mesma família de posseiros tradicionais. A faixa de terra pega uma grande área de chapadas, carrascos e matas por onde desce o Rio Mucambo com seus riachos e afluentes. Vertente possivelmente fora um quilombo no passado, pelos vestígios e modos de vida dos moradores. A conversa fluía num boteco que fica em um dos bosques dentro do mercado, cujo dono do ambiente era um velho morador de Vertente de Cima. Ele disse que constantemente assina "Declaração de Proprietário" - para o reconhecimento do exercício de atividade rural daquela gente que as vezes precisam para requerimentos de benefícios previdenciários. Um momento a parte, modesto... quando se trata de benefícios da Previdência Social, principalmente neste momento conturbado da história do país e da perdas de direitos. O Viajante passeava pelas bancas do mercado por gostar de feira e do cheiro de peixe seco; conversava com cada um dos feirantes, mototaxistas, peixeiros e outros trabalhadores. Percebera de tudo, o que estava sendo comercializado ali, produtos da terra e regionais: mel de abelha, tiquira, cachaça, coco babaçu e da praia, camarão, farinha seca e de puba, grolado, azeite, macaxeira, juçara, galinha caipira, leitões, carne de bode e até uma banca de "livretos de cordel". A movimentação na feira de Urbano Santos é grande, em especial aos "dias de quinta", o povo acostumou fazer suas compras especificamente neste dia. A cada momento o Viajante falava com um conhecido, pegava na mão de um amigo, tocava no ombro de outro - cumprimentava-os com respeito e grande dedicação e, quase sempre as mesmas perguntas eram lhes dirigidas: "Por onde andara todo esse tempo, pelas matas e povoados?" Um peregrino aventureiro, desbravador do sertão e de lugarejos, fazedor de amizade com todo mundo. O Viajante demorou na cidade, quase o dia todo e ao se aproximar a noite partira na sua missão rumo às fronteiras do "Rio dos Pretos". De fato cumprira ali, por mera conscidencia do destino mais uma vez seu simples ofício e papel de repórter que tende registrar com palavras escritas as coisas simples da vida, sempre com humildade e respeito. 


José Antonio Basto
julho - 2020